Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O esquecimento do compromisso social

Por Edu Jacques Filho em 25/05/2010 na edição 591

A mídia brasileira, em especial a impressa, demonstra sintomas de narcisismo. A auto-referência ocupa seguidamente destaque em páginas ou capas dos jornais nacionais. O último exemplo dessa febre foi o lançamento da nova versão gráfica e editorial da Folha de S.Paulo. Em uma cobertura (de si mesma) requintada, como prega a cartilha em época de Carnaval ou Copa do Mundo, o jornal separou um espaço na sua capa deste domingo para anunciar a reforma. A caixa de texto de chamada à matéria principal divide atenção com a notícia de pesquisa do Datafolha sobre intenção de voto para presidente e a foto de capa do acidente aéreo que matou ao menos 158 pessoas na Índia. Mais ao sul do país, o diretor de redação do jornal Zero Hora admite a mesma tendência, porém com manifestação prática mais sucinta.

Essa licença autoconcedida pela Folha para fugir da função social do jornalismo é desenhada como uma apresentação, mas não engana quanto ao seu caráter publicitário. Fora do editorial, o jornal apresenta três espaços para discussão de seu posicionamento, nas respostas aos leitores, nas erratas e no facultativo ombudsman.

Acessada no domingo (23/5), um dia após o lançamento oficial, a página do veículo anunciava um documentário sobre as reformas e um link para curta informação sobre o sucesso do jornal em entrar na lista de tópicos mais discutidos do Twitter. Observamos uma espetacularização da imprensa mediada pela metalinguagem. A construção desse discurso verbal e não-verbal traz consigo o questionamento básico do sujeito que emite a mensagem. Mesmo que atrás da assinatura ‘reportagem local’ se encontrem diversos jornalistas, é difícil não pensar num ordenamento dessa campanha longe dos domínios do marketing.

O distanciamento da realidade

Ainda que o exame minucioso do fenômeno conclua ser essa uma busca de identidade da imprensa atual, certamente implica isso numa padronização dos hábitos do receptor, metralhado pela sugestão contínua dos signos de significado semelhantes. O Estado de S. Paulo foi mais delicado nessa aproximação. O jornal se aproveitou da censura judicial para lançar uma campanha de legitimação também pelo seu endereço na internet. Campanha essa representada pela indicação do número de dias sob efeito da determinação legal.

Quando a preferência dos consumidores já não pode mais ser classificada apenas em termos de rótulos políticos como direita e esquerda, os meios de comunicação, cada vez mais homogêneos em sua composição, se afastam das intervenções convencionais. No Rio Grande do Sul acontecimentos semelhantes estão em seu início. Em palestra proferida a um grupo de estudantes, o diretor de redação da Zero Hora, Ricardo Stefanelli, explicou as iniciativas para trazer novamente à discussão assuntos de matérias já publicadas. Embora aqui essa re-repercussão tenha vantagens evidentes para a formação da opinião pública, ela também margeia o que é hoje apenas uma ameaça: o distanciamento da mídia brasileira da realidade para um discurso sobre si mesma.

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Estudante de Jornalismo na Universidade Católica de Pelotas, RS

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