Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O jornalismo replicado

Por Rafael Kato em 01/06/2010 na edição 592

No programa televisivo deste Observatório exibido em 25/5 (‘Os jornalões se renovam‘), três diretores de conteúdo dos principais jornais brasileiro (Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e O Globo) afirmaram, cada um ao seu modo, que o jornal de papel não é inimigo da internet, e vice-versa. Também foram claros sobre a saúde financeira de suas publicações: o jornal não está morrendo, pelo contrário, cresce o número de leitores.


Será que nada ameaça os jornais?


Nos Estados Unidos, onde diários como New York Times vivem crises financeiras, a realidade é outra. Segundo a Nielsen NetRatings, 227 milhões de pessoas (74% da população) nos Estados Unidos têm acesso à rede, das quais 129 milhões possuem banda larga. No Brasil, apenas 11 milhões possuem banda larga e 104,7 milhões (65,2% da população) não entram na internet.


A livre circulação de notícias da internet – abundante e gratuita – ainda não chegou ao brasileiro comum. Os norte-americanos deixaram de assinar jornal porque tinham notícias gratuitas na rede. O brasileiro ainda assina o jornal – ou a revista – porque não tem internet ou velocidade de conexão suficiente para carregar um portal de notícias. Em muitos lugares, é mais fácil achar uma banca de jornal que uma lan house.


Notícias egoístas


Os jornais brasileiros em suas reformas tentam promover a confluência entre o papel e o online. Incentivam o leitor a se deslocar para frente do computador. Caso o leitor perceba – ele irá perceber – que as mesmas notícias que paga para ler no café da manhã podem ser lidas gratuitamente na rede, então os jornais conhecerão o mesmo calvário das publicações americanas.


Mas será que encontramos as mesmas notícias de modo gratuito? A resposta é sim. Pululam reproduções em blogs ou em portais. Sem contar os textos das agências de notícias que podem ser lidos por qualquer cidadão. Não há mais o monopólio do teletipo.


A colunista Mônica Bergamo, da Folha, publicou na sexta-feira (28/5) que o estádio do Maracanã poderia sediar a abertura e a final da Copa do Mundo de 2014. A mesma informação foi republicada em 11 sites diferentes, todos gratuitos, conforme resultado do indexador de notícias do Google. 


Trata-se do próprio mecanismo de funcionamento da internet: a replicação. Em veículos online, como defendo em meu trabalho acadêmico, podemos considerar a própria replicabilidade como um valor-notícia, ou seja, aquilo que não pode ser replicado não sobrevive na dura competição da informação e nem vira notícia. 


Os leitores deixarão de comprar o jornal se puderem ler a mesma informação de graça. Economizarão dinheiro e não se importarão com o papel público e democrático do jornal. Serão leitores egoístas para notícias egoístas. Notícias egoístas que só pensam em se replicar infinitamente, assim como são os nossos genes e os memes da cultura, como propôs o biólogo Richard Dawkins.


Limites éticos


Nenhuma reforma editorial irá vencer a implacabilidade da replicação. A internet já colocou abaixo a noção de direitos autorais. A indústria da música vive a era do MP3 ‘pirata’. As emissoras de televisão têm seus programas colocados no YouTube por usuários. Os jornais não poderiam ficar de fora: suas notícias são copiadas, compartilhadas, reescritas e, em alguns casos, reinventadas.


O que não está certo ainda é como estes mesmos sites gratuitos irão sobreviver no futuro. Não podem acabar com o jornal de papel, pois matariam uma das suas fontes de replicação. Também não se sabe se o leitor estará disposto a pagar para ler o conteúdo na rede, depois de anos acostumado a ler tudo gratuitamente. 


O futuro do jornal é incerto, assim como do próprio bom jornalismo. Quem financiará as investigações de governantes corruptos quando ninguém quiser pagar para ler? Quem fiscalizará o poder em todas as suas instâncias se a notícia for gratuita? A solução econômica seria um jogo duplo entre copiar e produzir?


A notícia continuará se replicando infinitamente. Teremos de descobrir como interromper este processo toda vez que ele passar os limites éticos da profissão e atentar contra o interesse público. Aquele souber todas essas respostas é que será, verdadeiramente, o jornal do futuro.

******

Jornalista, São Paulo, SP 

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