Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O técnico e a mídia

Por Lilia Diniz em 12/05/2010 na edição 589





De nada adiantaram os pedidos da torcida e o
apoio da imprensa. Dunga não levará para a Copa do Mundo da África do Sul os
jogadores santistas Neymar e Ganso. Divulgada no início da tarde de terça-feira
(11/5), a lista dos 23 convocados para a seleção – que também não inclui
Adriano, do Flamengo – tem duas surpresas: o atacante Grafite, do Wolfsburg, da
Alemanha, e o goleiro Gomes, do Tottenham, da Inglaterra. Durante a entrevista
coletiva na qual anunciou a escalação, o treinador criticou a imprensa e disse
sentir a mesma pressão de 1994, quando foi capitão da seleção.



Dunga contou que a imprensa reclamava de que ele não procurava ter um bom
relacionamento com os jornalistas e não concedia entrevistas. Segundo o técnico,
a imprensa fazia ameaças como ‘se ele perder, ele vai ver’. Dunga classificou de
‘terrorismo’ este tipo de atuação e questionou: ‘Isso é liberdade de
expressão?’. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na
terça-feira discutiu até que ponto a opinião pública pode influenciar a
escalação da seleção de futebol.


Para debater este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro os
jornalistas Roberto Assaf e Renato Maurício Prado. Colunista do jornal
Lance!, Assaf foi editor do Jornal do Brasil e trabalhou na
Tribuna da Imprensa, ESPN Brasil e Sportv. Escreveu oito livros sobre
futebol, entre eles Mundo das Copas do Mundo. Renato Maurício
Prado é colunista esportivo do jornal O Globo, comentarista do
canal Sportv e da rádio CBN. Cobriu as Copas de 1978, 1982 e
2006. Em São Paulo, o convidado foi Paulo Vinicius Coelho, comentarista do canal
ESPN Brasil e colunista da Folha de S.Paulo. O jornalista cobriu as Copas
de 1994, 1998 e de 2006 como comentarista da ESPN Brasil, função que o levará
para a África do Sul.


Antes do debate ao vivo, o primeiro assunto da coluna ‘A mídia na semana’ foi
a notícia da descoberta de que o ancestral da espécie humana, o homo
sapiens
, trocou genes com o homo neanderthalensis. Em seguida, Dines
comentou o pouco destaque das comemorações pelos 65 anos do fim da Segunda
Guerra Mundial na mídia brasileira. O último tema foi o fato de O Estado de
S.Paulo
ter tido acesso a gravações da Polícia Federal que ligam o
Secretário Nacional de Justiça Romeu Tuma Junior à máfia chinesa que opera em
São Paulo [íntegra abaixo].


A mídia como combustível


Em editorial, Dines comentou que a escolha do time que representará o Brasil
na Copa saiu dos bastidores das entidades desportivas. ‘Se o técnico Dunga é o
responsável pelo triunfo ou pela derrota na partida final, é justo que as suas
escolhas iniciais atendam à sua estratégia’, disse. Dines enfatizou que o papel
da mídia é converter os jogos em um ‘espetáculo eletrizante’, por isso o
entusiasmo da mídia pelos jogadores Ganso e Neymar é compreensível.


Na reportagem produzida pelo programa, José Trajano, comentarista da ESPN,
contou que sempre houve pressão da opinião pública para a escolha de
determinados jogadores. Em uma das primeiras Copas disputadas pelo Brasil, a de
1938, trocava-se o ataque do time para agradar a paulistas ou cariocas. Quando o
Brasil jogou em São Paulo, na Copa de 1950, havia mais jogadores paulistas do
que cariocas na seleção. Na sua opinião, politicagem, bairrismo, pressão da
torcida e da imprensa sempre existiram. Em tom de brincadeira, disse: ‘O técnico
da seleção, já que pegou o cargo, tem que sofrer’.


Durante a ditadura militar, mais um exemplo da pressão. Em 1970, o então
técnico João Saldanha desagradou o general-presidente Emílio Garrastazu Médici
por não convocar o atacante Dario. O escritor Carlos Ferreira Vilarinho contou
que o general havia manifestado sua preferência pelo jogador na coluna do
jornalista Armando Nogueira, mas que o comandante da equipe não entendeu o
recado. ‘João Saldanha foi levado a um beco sem saída, até que foi demitido’,
explicou. No lugar de Dario, o técnico escolheu Zé Carlos, do Cruzeiro.


A importância do clamor público


Em 1994, o então técnico Parreira também foi pressionado. Desta vez, a
torcida pedia a convocação do atacante Romário, que ao final da competição foi
escolhido melhor jogador. Luiz Mendes, comentarista das rádios Globo e da CBN,
disse que o clamor público foi atendido e que a presença do jogador foi
fundamental para classificação da equipe nas eliminatórias. Oito anos depois, a
convocação do jogador voltava a ser exigida pela torcida, mas o técnico Luis
Felipe Scolari não levou Romário para a disputa e o Brasil foi pentacampeão.
‘Todo o mundo esqueceu. Agora, imaginem se o Brasil perde a Copa, se não iriam
culpar o treinador por não ter levado Romário. Mas como ele ganhou, tudo isso
passou’, disse.


Para Luiz Mendes, a torcida não foi acionada pela imprensa para pedir a
convocação dos ‘meninos da Vila’. Os torcedores pediram que fosse à Copa porque
os jogadores têm apresentado nos últimos meses um bom rendimento. A imprensa
‘vai atrás’ do clamor popular, repercute a opinião pública. Para Fábo Koff,
presidente do Grupo dos 13, a pressão não fez diferença para a escolha final de
Dunga, um homem de personalidade forte.


Imprensa terrorista?


No debate ao vivo, Dines pediu para Renato Maurício Prado avaliar a ‘ironia’
de Dunga em relação à imprensa na entrevista coletiva. Para o colunista de O
Globo
, a novela se repete a cada quatro anos e é natural que Dunga tenha
suas convicções e não se deixe influenciar. No caso específico dos dois
jogadores do Santos, o jornalista avalia que o técnico está cometendo um ‘crime
de lesa-futebol’. O argumento de que são inexperientes não é válido. ‘A imprensa
e a opinião pública só acham que se ele levasse o Ganso e o Neymar talvez só
jogasse um pouquinho melhor’, disse. Renato Maurício Prado avalia que o
‘terrorismo’ da imprensa é relativo. Tudo depende da maneira como a seleção joga
e de que forma perde o campeonato.


Paulo Vinicius Coelho avaliou que o técnico da seleção agiu como um ombudsman
de toda a imprensa e que os jornalistas se incomodam com este tipo de crítica.
Para o comentarista do ESPN, o papel do jornalista não é torcer, mas fazer
análises criteriosas. ‘Em alguma medida a gente torce, mas tem um limite para
isso’, disse. Em relação à pressão da imprensa para a convocação de Neymar, o
jornalista argumentou que a mídia corre atrás das notícias: um jogador de apenas
18 anos que atualmente é o artilheiro do Brasil.


Outro fator que contribuiu para o clamor em torno dos dois jogadores foi a
falta de grandes ídolos que atuem no futebol nacional. Paulo Vinicius Coelho
sublinhou que a imprensa pede a escalação de jogadores que a opinião pública
valoriza, mas no cenário nacional não há muitas alternativas. Renato Maurício
Prado comentou que até os torcedores do Rio de Janeiro estão ‘apaixonados’ pela
dupla santista. ‘E aí não é a imprensa que está só batendo bumbo, não. É também
é o clamor popular. Uma coisa empurra a outra’, disse.


Imprensa vs. treinador


Roberto Assaf destacou que a pressão é um fator importante desde a década de
1930. ‘Isso é longo, não vem de hoje. Mas eu acho que o técnico da seleção
brasileira quando assume o cargo, ele já sabe de antemão que haverá cobranças de
todos os lados, sobretudo da mídia. Este é o detalhe. Quando há cobrança do
torcedor e há cobrança da mídia, como está acontecendo agora, e quando existe
esse casamento e ele é perfeito, é claro que a pressão sobre o treinador se
torna muito maior – e é o que aconteceu’, disse. Para o jornalista, que acertou
os 23 nomes que Dunga levará para a África do Sul, Dunga manteve suas
convicções.


Dines pediu para Paulo Vinicius Coelho avaliar a relação de Dunga com a
mídia. Para Dines, o treinador precisa dos conflitos para ganhar mais segurança.
O comentarista da ESPN comentou que esta convivência atribulada é a maior
contradição do técnico. Ao mesmo tempo em que se queixa de que a imprensa não
está informada e não conhece bem os jogadores, não para de falar do trabalho dos
meios de comunicação. ‘É um negócio impressionante como quem mais valoriza a
imprensa é ele’, afirmou.


Renato Maurício Prado disse que Dunga precisa de conflitos desde a época em
que era jogador. ‘A imprensa ele elegeu como grande adversária. Aquela que vai
dar a ele o reforço, o combustível para que a cada dia mais possa lutar e se
motivar’, disse. O conflito é antigo, mas, na opinião do jornalista, Dunga leva
essa briga ao extremo. Renato Maurício Prado comentou uma polêmica declaração de
Jorginho. ‘A gente ouviu hoje argumentos tristes do Jorginho, que disse `estamos
no mesmo barco´, que o jornalista tem que apoiar a seleção haja o que houver,
inclusive porque quanto mais longe for a seleção, mais diárias ganha o
jornalista’, contou.


Mídia comprometida


Dines classificou a declaração de absurda e lembrou que a imprensa foi
acusada de ter interesses pecuniários relacionados com a escolha dos meninos do
Santos. Paulo Vinicius Coelho disse que não identifica jornalistas que tenham
algum interesse financeiro na escalação de determinados jogadores. Renato
Maurício Prado explicou que esta confusão ocorre porque há jornalistas que
misturam marketing com jornalismo. ‘Quando ele dá esta estocada, ele não está de
todo errado’, disse. Roberto Assaf avaliou que a imprensa tende a ser porta-voz
da opinião pública com exagero em algumas ocasiões.


‘O problema é que nem todos que falam de futebol entendem sobre – e isto é um
problema. Às vezes o sujeito nem viu o Neymar e o Ganso jogarem e vai na onda.’
O jornalista acaba embarcando na opinião pública, nem sempre bem fundamentada, e
transforma este conflito ‘em uma coisa maior’. PVC avaliou que a relação entre a
imprensa e Dunga tende a ficar mais conflituosa e que o treinador vai ‘jogar
pesado’. ‘Não vai ser muito amistosa a relação daqui até o final da Copa’,
disse.


***


O clamor popular


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da
Imprensa
na TV nº 545, no ar em 11/5/2010
 


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Quando a mídia menciona o ‘clamor popular’ é porque ela encarna este clamor
ou trata-se de um recurso retórico para legitimar as suas próprias posições e
interesses?


Não estamos falando na taxa de juros ou na construção da usina de Belo Monte
no rio Xingu. A questão da mídia como voz ou porta-voz da opinião pública ocupou
o noticiário de hoje [11/5] e vai se prolongar por mais alguns dias, mas
não nas páginas de política. Este importante debate vai ocorrer nas páginas ou
no programas esportivos. Tudo porque o técnico Dunga não atendeu à pressão da
mídia e teimosamente preferiu outros 23 atletas para integrar a seleção que vai
disputar a Copa na África do Sul.


Este é um confronto que se trava de quatro em quatro anos, desde que o Brasil
começou a participar das copas do mundo e a escolha da seleção nacional saiu dos
bastidores das entidades desportivas. O debate torna-se acalorado porque tanto o
técnico como a imprensa têm razões muito ponderáveis.


Se o técnico Dunga é o responsável pelo triunfo ou pela derrota na partida
final, é justo que as suas escolhas iniciais atendam à sua estratégia. Mas por
outro lado é preciso ter em conta que sem a mídia o futebol não seria a estrela
máxima dos esportes e as copas não seriam os maiores eventos do calendário
esportivo mundial.


O técnico tem obrigação de ganhar os jogos e trazer a taça para o seu país,
mas a obrigação da mídia é transformar esta façanha num espetáculo eletrizante,
inesquecível e, sobretudo, permanente. Neste sentido é compreensível o
entusiasmo de grande parte da mídia pela garotada do Santos. Além dos méritos
pessoais, Neymar e Ganso representam novidade, renovação, continuidade.


Dunga está preocupado com esta copa, a imprensa está pensando nas copas
seguintes. De qualquer forma, é uma excelente oportunidade para pensar e
repensar o papel da imprensa na sociedade. Este exercício é a nossa
Copa.


***


A mídia na semana


** Uma manchete sensacional com 30 mil anos de atraso. A comprovação de que o
nosso ancestral, o homo sapiens, cruzou com outra espécie de ancestrais,
o homo neanderthalis, é fascinante e abre o caminho para uma série de
especulações de caráter biológico, antropológico e filosófico. Uma coisa é
certa: estamos começando a descobrir de onde viemos, mas está cada vez mais
complicado perceber para onde vamos.


** As notícias das comemorações dos 65 anos do fim da Segunda Guerra Mundial
na Europa não chegaram até a nossa mídia. Não é a primeira vez que ignoramos o
que se passa do outro lado do globo. Mas é bom saber que em homenagem à data
pela primeira vez houve um desfile aliado em Moscou. Tropas russas e da Otan
desfilaram juntas diante de um palanque onde estava Angela Merkel,
primeira-ministra da Alemanha. O presidente russo Dmitri Medvedev aproveitou a
ocasião para fazer pesadas acusações ao ditador Josef Stalin por crimes
imperdoáveis contra o seu povo.


** Mais uma vez o Estadão tem acesso a gravações da Polícia Federal
que comprometem altas figuras da República e suas proles. Desta vez o encrencado
é Romeu Tuma Jr., filho de um senador e segundo nome da hierarquia do Ministério
da Justiça, acusado de proteger o chefe da máfia chinesa. As reportagens são de
Rodrigo Rangel. Resta saber se o jornalão paulista não será novamente censurado
pela justiça e impedido de prosseguir nas investigações.

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