Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O título enviesado

Por Marco Dourado em 20/05/2010 na edição 590

Uma das grandes sacadas de Cidadão Kane se dá quando o personagem-título obriga sua antiga amásia – agora esposa – a seguir exaustiva turnê no canto lírico. A infeliz, claro, nunca teve talento – Kane a rebocara de um cabaré, e a revelação desse affair lhe destruíra a carreira política. O motivo da birra de Charles Foster Kane é prosaico: os jornais se referiam à jovem como ‘cantora’, assim mesmo, com aspas. E essas aspas ele não podia suportar.


O episódio demonstra como um detalhe numa manchete pode ser mais devastador que um corpo de notícia esmiuçado em várias páginas. Pensei nisso ao ler a entrevista de Mosab Hassan Yousef concedida a Duda Teixeira e publicada na revista Veja. Yousef, agora sabemos, desiludiu-se com a selvageria do Hamas, grupo extremista islâmico, fundado pelo xeque palestino Hassan Yousef, seu pai. Mosab converteu-se ao cristianismo e passou a colaborar com o Shin Bet, serviço secreto israelense.


Em um mundo que ainda guardasse uma fímbria de normalidade, quem quer que ajude a deter a ação amoral de um dos grupos terroristas mais insanos e paranóicos de que se tem notícia será necessariamente enaltecido – ainda mais por uma publicação como Veja, que muito corretamente sempre execrou o terrorismo, quaisquer que sejam os motivos ou ideologia de seus autores. O título da entrevista feita por Duda Teixeira, no entanto, aponta para uma direção diversa: ‘O traidor do Hamas’. Sim, o título é esse mesmo. 


Interpretação fundamentalista


Poucos adjetivos são tão universalmente execrados como o epíteto ‘traidor’. Opõe-se a vítima, da qual naturalmente nos compadecemos, ao patife, o pulha, o crápula, o canalha. Na obra de Shakespeare, por exemplo, Brabâncio, pai de Desdêmona, que o abandonara para se casar com Otelo, adverte o cunhado: ‘Cuidado, Mouro! Se olhos tens, abre-os bem em toda a parte; se o pai ela enganou, pode enganar-te’. Eis a gravidade do estigma da traição: atormentado pela dúvida, Otelo, que antes se enternecia com o amor da esposa, que para segui-lo deitara à lama o próprio nome, agora vê nesse mesmo gesto uma prova insofismável de ausência de caráter.


Para muito além do cristianismo, Judas Iscariotes é considerado o símbolo supremo de traição – mas ninguém chama Saulo de Tarso, que se voltou contra os fariseus, de traidor. Em tempos recentes, Greta Garbo aproveitou-se do fascínio que exercia nos nazistas para sabotar os planos de Hitler – e ninguém, à exceção de filonazistas, lhe atribuiu a pecha de traidora. O motivo é simples: louva-se quem renega e abandona o mal a fim de cooperar com o bem. Já quando acusamos alguém de traição, subentende-se que nos solidarizamos com o atraiçoado. 


Mas se Veja é irreversivelmente contrária ao terrorismo por que então retrata Mosab Hassan Yousef como traidor? Independência profissional? A esse ponto? Respondo com outra pergunta: se Mosab não se houvesse convertido ao cristianismo e apregoado em livro as diferenças evidentes e essenciais entre os textos sagrados das duas religiões (Bíblia e Corão), ainda assim seria ele tratado por Veja como traidor? Pior: a revista trata Mosab como traidor ao mesmo tempo em que o resumo da reportagem, exibida abaixo de sua foto, é bem claro: ‘O filho do xeque palestino […] diz que sua fonte de inspiração foi Jesus Cristo’. Ou seja, a perfídia implicitamente associada ao rapaz é estendida indiretamente ao filho de Deus. 


Conclui-se que o pior fundamentalismo é mesmo o fundamentalismo anticristão. Justamente o cristianismo, religião-raiz do Ocidente, cuja interpretação fundamentalista (isto é, ao pé da letra) promove, incondicionalmente, a paz, o amor e o perdão. Para infamá-lo vale até mostrar, pelo artifício de uma manchete, o terrorismo do Hamas como vítima de traição.

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Analista de sistemas com especialização em Administração em Banco de Dados

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