Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O dia em que os mancheteiros quebraram a cara

Por Alberto Dines em 04/12/2007 na edição 462

A boca-de-urna falhou na Venezuela, o eleitor driblou os pesquisadores, deu uma rasteira em Hugo Chávez e, de quebra, mostrou aos jornalistas que a sua obrigação não é adivinhar.


Como demonstraram Luciano Martins Costa no seu comentário radiofônico (Observatório da Imprensa, segunda, 3/12) e Luiz Weis no seu blog, todos comeram mosca nas manchetes do dia seguinte. Alguns mais do que outros, simplesmente porque os editores brasileiros vivem aferrados ao mito da infalibilidade das sondagens antes de computados os votos nas urnas.


** O Globo: ‘Boca-de-urna dá vitória a Chávez com alta abstenção. `Sim´ alcança até oito pontos de diferença em referendo ignorado por 50% dos eleitores’


** Estado de S.Paulo: ‘Referendo aumenta poderes de Chávez; pesquisas de boca-de-urna dão vitória para reforma do presidente da Venezuela, que terá direito de tentar a reeleição quantas vezes quiser’


** Folha de S.Paulo: ‘Referendo na Venezuela tem disputa acirrada; pesquisas de boca-de-urna indicam vitória de Chávez, mas governo evita comemorar antes do resultado final’


A simples insistência na palavra pesquisa no lugar de sondagem revela uma devoção cientificista e acadêmica. Cientistas sociais constroem suas hipóteses e, eventualmente, doutrinas com base em levantamentos de opinião pública. Jornalistas, porém, deveriam lidar apenas com fatos, fatos acontecidos, indubitáveis, inquestionáveis.


Tropeço coletivo


‘O futebol é uma caixinha de surpresas’, mote vigente em nossas editorias de Esporte, deveria ser estendido e imposto às demais editorias. Tudo pode surpreender – eleições, loterias, concursos de beleza, votações no Congresso, prêmio Nobel e desfiles de escolas de samba. Se os jornalistas desacostumarem os leitores deste jornalismo divinatório, poderão livrar-se da diabólica exigência de antecipar resultados de algo que ainda não aconteceu para concentrar-se na sua missão estrita – reportar o acontecido.


Se o jornalismo impresso com, pelo menos, quatro séculos de vivência, ainda não aprendeu a valorizar todo o seu potencial e suas vantagens competitivas, o jornalismo digital – teoricamente imbatível – mostra-se totalmente despreparado (ou desestimulado, dá no mesmo) para substituir o veterano rival.


Num dia em que o leitor dos jornais foi lesado pelo profetismo dos gatekeepers da mídia impressa, cabia aos vanguardeiros do jornalismo digital mostrar o potencial de fogo do seu medium. Ao longo da manhã e da tarde de segunda-feira (3/12), as manchetes dos portais de notícias fixavam-se ora no rebaixamento do Corinthians, ora na numerologia do IBGE sobre ao aumento da nossa longevidade.


A barrigada coletiva confirma que jornalista não é mágico, nem oráculo. Profissionais impacientes chegam mais cedo em casa, mas de lá podem ir direto para o olho da rua.


***


Nota do OI: Este artigo inspirou um editorial do jornal Público, de Lisboa (quarta, 5/12), assinado por José Manuel Fernandes. Clique aqui para ler o texto (arquivo PDF, 1,6MB).  


 

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