Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Parcialidade travestida em reportagem

Por Silvio Fernando em 13/07/2010 na edição 598

A última edição de Veja, datada de 14 de julho de 2010, expôs mais uma vez sua conhecida e longa simpatia para com o PSDB e seus aliados. É perfeitamente lícito que uma publicação apóie a candidatura deste ou daquele candidato, alinhe-se com a ideologia de um ou outro partido, deixando claro para seus leitores os motivos de sua escolha. Nos países de Primeiro Mundo, onde a imprensa é não só livre, mas diversificada e amparada por um mercado forte, coexistem publicações de diferentes matizes e graus ideológicos. Cabe ao leitor comparar a publicação de sua escolha com as demais, contribuindo assim para um debate equilibrado e plural.


Veja, praticamente desde sua criação por Roberto Civita e Mino Carta, permanece como um fenômeno em vendas, líder absoluta em seu segmento. Celebrizou-se como uma revista crítica, corajosa, que em seu período áureo fazia questão de reportar os fatos e enfrentar a ditadura. Com o passar do tempo, a argúcia crítica da revista foi passando à mera opinião, as reportagens à mini-editoriais, a desenvoltura à arrogância e meras suposições à condição de fatos.


Premissa ética


Foi o que se viu na última edição da revista a partir da capa (um monstro mitológico sobrepondo-se ao símbolo do Partido dos Trabalhadores) e na reportagem destinada a iniciar a série de coberturas sobre as eleições. Na realidade, estava longe de ser uma cobertura; parecia mais uma luta de boxe.


Das 14 páginas reservadas ao assunto, em nenhuma (exceção feita a um único e solitário parágrafo, na página 78) observa-se o que é esperado em coberturas deste tipo: discussões sobre o conteúdo programático dos candidatos ou a plataforma das campanhas. Aparece, o que é bem diferente, o tempo que José Serra e Dilma Rousseff ocuparão durante o horário político. Na mesma seção, num box destinado à candidata Marina Silva, especula-se que a acusação de desmatamento sofrida por seu vice, Guilherme Leal, teria sido, segundo ‘pessoas próximas ao empresário’, obra de petistas interessado$ (assim mesmo, com cifrão) em desgastar sua credibilidade. Nada mais é informado ao leitor, seja sobre a fonte ou o suposto caluniador. Tudo o que se tem é uma afirmação nebulosa, a suposição se transformando em fato.


A cobertura compõe-se de três matérias, além da referente ao horário eleitoral. Nestas, já no índice da revista pode-se perceber a parcialidade dos temas abordados, por meio de suas apresentações: ‘Eleições – O entulho autoritário no programa de Dilma’ ou ‘Diplomacia – Lula na África, paparicando ditadores’ – onde aliás, é citada a frase de Celso Amorim – ‘Negócios são negócios’ – com direito a repeteco na seção ‘Veja Essa’ (pág. 60).


E é justamente aí que a revista subverte a premissa ética básica do jornalismo sério: a diferença de comportamento e atitude entre aquele que critica e o alvo a ser criticado.


Saludos amigos


Conforme já divulgado neste Observatório e por documentos da própria Naspers, em 31 de dezembro de 2005 a Editora Abril tinha dívidas líquidas de 500 milhões de dólares. Em maio de 2006, a Naspers – organização sul-africana que apoiou e enriqueceu com o apartheid – assumiu a dívida do grupo, ficando com 30% do capital da editora.


Segundo o jornalista Altamiro Borges, as ‘amizades’ do Grupo Abril não são de hoje, nem se restringem ao pessoal da longínqua África do Sul. Existem vínculos bem mais próximos. Por exemplo, a Cisneros Group, holding chefiada por Gustavo Cisneros, que coordena 75 empresas em diversas áreas da comunicação. Inimigo declarado de Hugo Chávez, Cisneros mantém relação com a Editora Abril desde 1995.


Dentro de casa, no entanto, os contatos se estreitam. Veja mantém relações com o PSDB e PFL, chegando até a doar valores significativos para a campanha de dois de seus candidatos, em 2002. Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro de FHC, recebeu 5,8 mil reais; Alberto Goldman, 34,9 mil reais. Depois de eleito, este foi relator da Lei Geral de Telecomunicações, permitindo investimentos externos na mídia.


Seja como for, Veja ainda é um marco na história do jornalismo brasileiro. Com uma circulação estimada em 1.099.653 exemplares, ela está presente em quase todos os lugares, preenchendo os recantos da vida do leitor: escolas, salas de espera, aeroportos e claro, bancas de jornais. Não é fácil manter uma empresa como essa nos trilhos já há 41 anos. Sacrifícios têm que ser feitos. Afinal, negócio é negócio.

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Jornalista e psicólogo, São Paulo, SP

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