Segunda-feira, 25 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Quem testemunha pela testemunha?

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 27/03/2012 na edição 687

Morreu no domingo (25/3) em Lisboa, aos 68 anos, um dos mais originais e profundos escritores do século 20, o italiano Antonio Tabucchi. Embora fosse ficcionista e não tivesse o jornalismo entre suas preocupações temáticas principais, muito do que ele escreveu pode ser de grande ajuda para quem quiser refletir sobre essa atividade, que lida essencialmente com palavras e relatos, estas sim presenças frequentes nos contos e romances de Tabucchi.

Em Tristano Morre (tradução de Gaetan Martins de Oliveira, Rocco, 2007), por exemplo, Tabucchi lida magistralmente com a elaboração de uma biografia, a de Tristano, herói da resistência italiana ao nazi-fascismo, quase ditada pelo personagem, em seu leito de morte, ao escritor. Mas quem e o que garantem que suas memórias correspondem aos fatos vividos?

Alguém aconselha ao biógrafo: “[…] escreva tudo como se fosse verdade, porque para Tristano foi realmente verdade, e o importante é aquilo que ele imaginou durante toda a vida, a ponto de se transformar numa recordação”. Mas ele deve escrever tudo como se fosse verdade, até se, em vez de herói, Tristano tivesse sido traidor?

E diz o próprio Tristano ao biógrafo:

“… E afinal o mundo é feito de atos, de ações… de coisas concretas que acabam por passar, porém, porque a ação, escritor, verifica-se e acontece… e acontece apenas naquele preciso momento, e depois desaparece, deixa de existir, foi. E para ficar são necessárias palavras que façam com que continuem a ser, que testemunhem. […] De tudo aquilo que somos, de tudo aquilo que fomos, ficam as palavras que dissemos, as palavras que você agora escreve, escritor, e não aquilo que eu fiz em determinado lugar e em determinados momentos. Ficam as palavras…as minhas…sobretudo as suas…as palavras que testemunham. No princípio, não era o verbo, mas no fim, escritor. Mas quem testemunha pela testemunha? A questão é esta, ninguém testemunha pela testemunha”.

“Truque anglo-saxão”

No limite, o que Tabucchi propõe é que a tarefa de relatar é impossível, se a ambição é que o relato seja uma transcrição fiel dos fatos. Não adianta ouvir as diversas versões, nem mesmo estar presente quando os fatos ocorrem, pois “quem testemunha pela testemunha?” mesmo quando a testemunha é o próprio escritor (ou jornalista)?

A impossibilidade de chegar à verdade também aparece em Réquiem (Rocco, 2001), que Tabucchi escreveu em português, em que um personagem afirma: “[…] a verdade suprema é fingir, foi uma convicção que sempre tive” E em Está Ficando Tarde Demais (tradução de Ana Lúcia Ramos Belardinelli, Rocco, 2004), em que o narrador diz: “Preferimos embelezar as recordações? Ou falseá-las? A memória está aqui para isso”.

Este ceticismo com relação à possibilidade de reproduzir com palavras a realidade talvez tenha amadurecido em Tabucchi com o tempo e se cristalizado nas suas últimas obras. Em 1994, quando publicou, aos 51 anos, Afirma Pereira (tradução de Roberta Barni, Rocco, 1995), ele ainda dava brechas ao ponto de vista contrário.

Neste romance, que talvez seja o seu mais famoso trabalho, por ter sido levado às telas em filme dirigido por Roberto Faezna, com Marcello Mastroianni no papel principal (o último de sua vida, por sinal), Pereira é um jornalista, editor cultural de um pequeno diário em Portugal, que não tinha interesse algum por política, em 1938, até admitir como um de seus colaboradores um rapaz que fazia parte da resistência ao regime salazarista vigente no país.

A transformação de Pereira a partir da relação que passa a manter com o jovem e sua namorada o leva a começar a acreditar na missão da imprensa, com a qual nunca se preocupara muito.

Num diálogo com um conhecido seu, Silva, fascista, Pereira ouve-o dizer que “a opinião pública é um truque inventado pelos anglo-saxões, os ingleses e os americanos, eles é que nos estão esculhambando, desculpe o termo, com esse ideia de opinião pública”. E Pereira se indigna, pela primeira vez em muitos anos, com a sugestão de que todos devem obedecer ao chefe: “Mas eu sou jornalista, respondeu Pereira. E daí?, disse Silva. E daí que eu tenho de ser livre , disse Pereira, e informar as pessoas de modo correto”.

Questionar certezas

O sucesso do romance e do filme Afirma Pereira fez do personagem e de Tabucchi símbolos da luta pela liberdade de imprensa em meados da década de 1990, quando o avanço de Silvio Berlusconi e seu movimento de extrema direita ameaçavam a democracia na Itália.

Mas nunca parece ter estado entre as prioridades da vida do autor ser militante de qualquer ideologia, embora ele tenha escrito sobre temas políticos com alguma frequência em colunas de jornais e tenha às vezes tomado atitudes públicas de protesto contra decisões de governos – como em 2011, quando cancelou sua programada participação na Festa Literária de Paraty depois da decisão do governo brasileiro de dar visto de residência ao ex-terrorista italiano Cesare Battisti.

Em relação ao tema da possibilidade de relatos “verdadeiros” talvez não haja contradição entre Tabucchi “jovem” e Tabucchi “maduro”, porque mesmo se alguém considerar impossível relatar a realidade em palavras de modo completamente fiel é sempre possível e desejável tentar “informar as pessoas de modo correto”.

Acima de tudo, jornalistas podem usufruir muito da leitura de Tabucchi em benefício do aperfeiçoamento de sua prática, pelo questionamento de certezas que ela provoca, como quando um personagem de Está Ficando Tarde Demais cita, elogiosamente, o romancista inglês Samuel Butler (1835-1902): “Posso tolerar a mentira, mas não suporto a imprecisão”.

***

[Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista]

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