Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Uma cobertura lamentável

Por Plínio Melo em 18/05/2010 na edição 590

Lamentável, a cobertura de Veja ao tratar de minorias ou populações tradicionais na matéria ‘A farra da antropologia oportunista’ – edição 2163, pág. 160. Culpar a Funai ou indígenas pelo fracasso do empresário que se dispôs a construir um porto em Peruíbe é repugnante.

A oferta de um milhão, fazenda produtiva, pesque-pague etc… é mentirosa. Segue em anexo uma ata da reunião realizadas entre enviados do empresário e indígenas. Vale registrar que a ‘fazenda’ prometida está judicialmente embargada e, portanto, não poderia ser doada aos indígenas, além não produzir nada há anos.

No box que se refere à Aldeia Piaçaguera, no município de Peruíbe, o repórter aceita e reproduz a informação de que o empresário vai ‘dar’ dois rios? Rio é propriedade da União, meu rei… Afirma ainda que o empresário ‘autorizaria’ a caça… Meu Deus, quem são estas pessoas que deixam escrever e publicar isto? Quem é o chefe de redação?

Senhores, somente sob o ponto de vista da revista, índio bom é índio burro.

Dubiedade de interesses

Quem impediu a instalação do porto virtual foi:

** A Constituição Federal, que impede a construção de portos particulares para movimentar somente cargas de terceiros;

** O processo movido contra a Antaq;

** ADPF/139 – Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental

** O Plano Diretor do Município, que impede a instalação de empreendimentos de grande impacto naquela área;

** O processo de improbidade administrativa movido e ganho por nossa ONG (com maiúscula) contra alteração irregular do Plano Diretor;

** O zoneamento ecológico econômico da Baixada Santista que considera a área como Z-2 (não vou explicar o que significa. Você não entenderia, mesmo;

** O projeto Biota Fapesp – patrocinado pelo governo do estado para identificar áreas de relevante importância para preservação ambiental;

** A falta do título de propriedade da área. A área está em litígio de um espólio há mais de 40 anos;

** A crise nas bolsas de outubro de 2008, que fez o empreendedor desistir;

** A resistência de um grupo de indígenas lutando pela preservação cultural;

** A presença do MPF acionando empresas por mineração irregular;

** A ação do Condephat, tendo em vista a área ser considerada patrimônio histórico e conter diversos sítios arqueológicos;

** A Lei Orgânica do Município;

** A falta de projeto, pois o pedido de licenciamento foi suspenso ao final de dois anos por falta de projeto;

** E, por fim, a dubiedade dos interesses do empresário que afirmava construir um porto e ao mesmo tempo tentava expulsar os indígenas para usar a área como mineração. Tudo que afirmamos, e muito mais, pode ser comprovado com documentos formais.

Tempo para rever conceitos

Colocar a culpa somente nos indígenas é tão indigno quanto a atitude tomada ao produzir fotos como a do pajé da aldeia Nhamandu-Mirim, de Peruíbe, à frente de uma televisão. Me parece que escrever que a dona da casa faz compra em supermercado não seja uma notícia que mereça um espaço editorial.

Quanto à afirmação de que a presença da aldeia gerou um ‘impacto’ de 6 bilhões nada mais é do que a coroação de uma matéria encomendada a ‘profissionais’ que parecem topar tudo por…, como o grandioso colunista da coluna ‘Radar’ que adotou o empresário em suas notinhas ‘simpáticas’.

Vejo pela foto na coluna do editor que um dos repórteres ainda pode ser considerado jovem. Portanto, terá muito tempo na vida para rever seus conceitos e retratar a realidade em suas futuras matérias.

******

Radialista, Peruíbe, SP

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