Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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“Lobbies têm como objetivo privatizar a pesquisa pública”

Por Bruno Lara em 06/03/2012 na edição 684

O jornalista, pesquisador e professor Wilson da Costa Bueno concedeu entrevista ao blog, na qual comenta a respeito da divulgação científica (DC) no Brasil. Entre os assuntos abordados, estão as oportunidades e as novas perspectivas da DC, através das práticas na web; os tradicionais problemas de relacionamento entre o divulgador e o cientista; e as políticas públicas de articulação entre os atores da área.

Bueno é autor da primeira tese de doutorado sobre jornalismo científico no país, defendida em 1985 na Universidade de São Paulo (USP), onde chegou a cursar Matemática, mas sem concluir a graduação. Hoje, ele é docente da USP e da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), diretor da revista Comtexto Comunicação e Pesquisa e editor de revistas digitais e de sites. Entre outras atividades, o pesquisador, natural da cidade de Ribeirão Preto-SP, presidiu por dois mandatos a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (1988-1989 e 2007-2009).

Confira a entrevista.

“Há dados não qualificados circulando na internet”

A sua tese de doutorado (“Jornalismo Científico no Brasil: Os Compromissos de uma Prática Dependente”) abordou os problemas enfrentados pela DC, mais especificamente, pelos meios de comunicação de massa. Como você avalia o desenvolvimento da área, hoje, na sociedade e no ambiente acadêmico? A evolução da ciência nacional tem representado progressos também na socialização da cultura acadêmica?

Wilson da Costa Bueno– Tivemos avanços importantes desde os anos 80 porque a popularização vem gradativamente se profissionalizando, particularmente nos veículos de prestígio das grandes cidades, e já dispomos de uma massa crítica em jornalismo científico. Precisamos reconhecer, porém, que este cenário é diferente, ainda pouco favorável, se considerarmos os milhares de veículos locais e regionais e, sobretudo, o rádio e a TV, onde a ciência e a tecnologia continuam basicamente ausentes. A web tem possibilitado o surgimento de novas mídias focadas na DC (portais, blogs) e até potencializado a implementação de novos canais (newsletters, por exemplo) sob a responsabilidade de centros produtores de C&T (como universidades, institutos e empresas de pesquisa). Mesmo assim, há muito a caminhar, pois falta uma política consistente de popularização da ciência no Brasil.

Na década de 1980, as referências à comunicação eram basicamente relacionadas aos veículos de massa. Atualmente, o processo sofreu impactos significativos através das tecnologias de informação e comunicação, utilizadas por você mesmo, como através de blog, Twitter e do Facebook. Qual o cenário das TICs hoje no Brasil em relação às práticas de DC?

W.C.B.– O impacto tem sido significativo porque a web propiciou alternativas inovadoras e tem favorecido para a oferta e o acesso a informações nesta área. Eu diria que o trabalho do jornalista científico ficou bastante facilitado com a consolidação da internet como um ambiente de interação e de disseminação de informações especializadas em ciência, tecnologia e inovação. Por outro lado, temos que admitir que ela traz riscos, pois há dados não qualificados circulando à vontade na rede.

“Há programas bem realizados e de sucesso”

Há a necessidade de mais integração e articulação entre os estudantes, pesquisadores, outros profissionais e demais integrantes da DC no Brasil? Como intensificar este processo?

W.C.B.– Infelizmente, há, sim, poucas instâncias de articulação entre os interessados na DC no país. Isso se deve à pouca presença da área na academia e mesmo nos cursos de formação de profissionais. Apenas 10% das graduações em jornalismo (são centenas no país) têm algum espaço para a ciência e a divulgação científica. A questão se estende, pois há falta de consciência dos editores e dos empresários da comunicação, além do governo apoiar pouco. Na prática, existe preconceito em relação aos profissionais de DC, não acadêmicos, o que se constitui em sério equívoco.

Uma questão tradicional é a dificuldade de entendimento entre o divulgador e o cientista. Este cenário é potencializado, por exemplo, pelos contextos, métodos, ritmos, práticas, culturas e experiências específicas de cada ator no processo. Como cada parte deve agir para que os objetivos particulares e os da divulgação sejam realizados adequadamente? Como identificar aspectos para o mútuo entendimento?

W.C.B.– O fundamental é que ambos os lados estejam comprometidos com a democratização do conhecimento científico e estabeleçam uma parceria saudável para que isso se concretize. Embora tenha melhorado bastante, esta relação ainda incorpora preconceitos e incompreensões que dificultam o trabalho em parceria.

Que exemplos de divulgação científica no Brasil você citaria como iniciativas plausíveis de serem inspiradas?

W.C.B.– Há bons exemplos em várias mídias. Cito a experiência do trabalho realizado pelo André Trigueiro no rádio (CBN) e na TV (Globo News), com programas bem realizados e de sucesso, especificamente na área ambiental. Cito a experiência da revista ComCiência, do Labjor; o trabalho de divulgação da Embrapae da Fiocruz, a experiência das Fapes – Fundações de Amparo à Pesquisa, as revistas Pesquisa Fapesp, Superinteressantee Galileu, ainda que estas duas últimas costumam confundir ciência com outros territórios, como o esoterismo, sobretudo no caso da Super.

“Processos exigem tempo, recursos e vontade política”

Qual o cenário atual das pesquisas em DC no país? Que aspectos ainda precisam ser melhores explorados?

W.C.B.– A universidade pesquisa pouco e falta abertura para os programas de pós-graduação desenvolverem projetos nessa área, mas vale a pena citar a experiência da Unicamp, que tem mestrado e especialização em DC, com excelente perfil. Há oportunidades também na ECA/USP, na UMESP, na UFSC, na UFBA, mas são muito poucas, tendo em vista o número de pós em Comunicação já existentes no País.

A palavra inovação é cotidianamente empregada na ciência nacional, principalmente nas áreas exatas e naturais. Como este termo pode ser aplicado nas humanas e sociais, particularmente nos estudos e práticas da DC?

W.C.B. – Em primeiro lugar, há a necessidade de valorizar as áreas humanas e sociais, cujos investimentos têm sido bem inferiores aos das ciências exatas e naturais, tradicional preconceito que também afeta a divulgação científica. É preciso, inclusive, entender de maneira mais abrangente o conceito de inovação, muito associado a aplicações de caráter prático, à tecnologia e ao desenvolvimento de produtos.

Há algum tópico sobre o qual você gostaria de comentar, mas deixamos de abordar nesta entrevista?

Bueno: Há, sim. Chamo sempre a atenção para a necessidade de considerar a ação dos lobbies que constrangem a produção e a divulgação científica em nosso país, com assédio formidável sobre universidades e institutos de pesquisa, com o objetivo explícito de privatizar a pesquisa pública. Vale a pena, também, alertar para a falta de espírito crítico de veículos jornalísticos que produzem reportagens nessa área a partir da perspectiva de empresas e governos não comprometidos com o interesse coletivo. O problema do Jornalismo Científico não é apenas técnico. Há um constrangimento do ponto de vista político e econômico, em sua perspectiva mais ampla porque continuamos reféns de uma postura que não privilegia investimentos a médio e longo prazos. A ciência, a tecnologia e a inovação precisam disso porque estão atreladas a processos complexos que exigem tempo, recursos e vontade política.

***

[Bruno Lara é jornalista e mestrando em Ciência da Informação na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ/ Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT)]

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