Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Observação da mídia e excelência jornalística

Por Luiz Egypto em 12/11/2013 na edição 772

Sem uma pesquisa comprometida com o devido rigor científico será difícil precisar em que momento histórico, quando e onde, a observação da mídia passou a ser um tema de interesse tanto da academia como da sociedade. A bem dizer, em alguma medida a mídia é e sempre foi observada desde o momento mesmo em que seus conteúdos são consumidos. No processo de consumo produtivo da informação, em quaisquer épocas, o veículo e a qualidade da mensagem que transmite recebem alguma atenção do receptor. O que queremos tratar, no entanto, é da observação ativa, transformadora, aquela que considera o princípio consagrado da mecânica quântica segundo o qual o simples ato de observar, quantificar e interpretar um fenômeno concorre para a modificação desse mesmo fenômeno. A observação ativa da mídia, por decorrência, é também uma forma de intervir no comportamento e nos procedimentos adotados pelos meios de informação jornalística à disposição da sociedade.

É este o princípio abraçado pelo Observatório da Imprensa desde seu surgimento na internet, em abril de 1996, quando adotou a dupla configuração de veículo jornalístico cuja pauta primordial é a crítica de mídia; e, em concomitância, de fórum de discussões sobre a mídia aberto à participação da cidadania. Nasceu compromissado com a excelência do ofício jornalístico e convencido de que o jornalismo é um exercício crítico permanente, ao qual todos os atores do processo da informação devem ser submetidos, inclusive o próprio jornalismo (DINES, 2006).

Será impossível tratar da crítica de mídia no Brasil sem mencionar o trabalho do jornalista Alberto Dines, mentor e fundador do Observatório da Imprensa. Um dos nomes referenciais na história do moderno jornalismo brasileiro, Dines foi o maestro da fase de ouro do Jornal do Brasil, matutino que dirigiu no Rio, entre 1962 e 1973, e que transformou num jornal com edições planejadas, vibrante, criativo, muito bem escrito, que todos os dias oferecia uma cobertura diferenciada dos fatos e uma pauta inovadora. Os leitores adoravam, e daí seu sucesso na banca e entre os assinantes.

Mas em que pese a longa trajetória profissional do Alberto Dines jornalista, interessa-nos aqui o Alberto Dines observador da imprensa – e será a partir desse recorte que pretendo traçar uma linha do tempo da observação da mídia no Brasil, chegar aos desafios que o tempo presente nos apresenta, e tentar construir uma reflexão sobre o papel que a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) pode exercer nesse contexto em acelerada transformação.

Fundamentos do ofício

Em 1965, ao retornar de um curso para editores latino-americanos realizado na Universidade Columbia, Dines trouxe na bagagem a ideia de uma publicação que discutisse a imprensa e a comunicação em geral. Durante o curso, cada aluno escolhia um jornal americano para conhecer. Dines elegeu o New York Times. Nos dias que passou na “Velha Dama Cinzenta” ele ficou encantado com uma publicação interna intitulada “Winners and Sinners” (ganhadores e pecadores). Ali, os jornalistas do Times tinham espaço livre para comentar as edições, as coisas boas publicadas e as besteiras cometidas pelo diário. Ao fim e ao cabo, era uma publicação de crítica de mídia, embora o seu foco estivesse direcionado apenas para o que publicava – ou deixava de publicar – o Times. Dines, ali, acalentou o projeto de criar, no JB, o que viriam a ser os Cadernos de Jornalismo. O primeiro número da publicação saiu ainda em 1965. Sua circulação era irregular, mas distribuída pelo menos três vezes por ano, e a partir de 1968 passou a ser vendida em livrarias. Até a saída de Dines do jornal, em dezembro de 1973, foram produzidas 49 edições. Na apresentação da primeira edição, em que demarcava a função da publicação como estimuladora do “processo de aprimoramento técnico dos jornalistas”, Dines escreveu:

“Como cumprir com a função educativa e de difusão cultural se ao próprio jornalista não forem fornecidas oportunidades para o seu aprimoramento? Esta é a motivação número 1 desta publicação, ainda que a meta seja grande demais para um grupo de jornalistas isolados alcançar” (JAWSNICKER, 2008)

Em lombada canoa, o que lhe dava aspecto de revista, mas com cara de livro, a partir da sexta edição os Cadernos de Jornalismo adotaram a denominação de Cadernos de Jornalismo e Comunicação. Sua proposta editorial contemplava tanto questões técnicas do ofício como exercícios teóricos e reflexões sobre a profissão, a mídia e a comunicação em geral. Sua pauta básica era o jornalismo. Estava ali uma primeira publicação brasileira a sistematizar uma abordagem crítica sobre a mídia. O próprio Dines admite:

“(…) para mim os Cadernos de Jornalismo e Comunicação têm importância porque essa publicação foi a primeira etapa de uma série de coisas que fui fazendo nessa área: o ‘Jornal dos Jornais’, o Observatório da Imprensa. [UCHA, 2012]

[Poderia acrescentar o ‘Jornal da Cesta’ (Pasquim, 1980-82), o ‘Pasca Tasca’ (Pasquim São Paulo, 1986), e a coluna ‘Observatório’ na revista Imprensa (1994-95).]

A derradeira edição dos Cadernos de Jornalismo e Comunicação, a de número 50, não chegou a ser impressa e seus originais se perderam. Entre estes havia um artigo intitulado “A crise do papel e o papel dos jornais”, no qual Dines fazia uma análise da imprensa brasileira e mundial à luz do primeiro choque do petróleo e da crise do papel-imprensa que se abatera sobre a indústria jornalística. No texto, apontava a necessidade de os jornais se aprimorarem diante da concorrência avassaladora da televisão. Naquele momento, as emissoras brasileiras já transmitam em cores, as cadeias se formavam vitaminadas pelos investimentos estatais na infraestrutura de telecomunicações – e os jornais só podiam contar com a qualidade do jornalismo que produziam para fazer frente a esse concorrente poderoso. Diante de um mercado adverso, mais jornalismo de qualidade – esta era a receita sugerida por Dines.

O texto final desse artigo se perdeu, mas seus rascunhos e argumentos serviram para uma reflexão de longo curso, consubstanciada no livro O papel do jornal, ao qual Dines se dedicou nos primeiros meses de desemprego. A primeira edição do livro é de abril de 1974 e a mais recente, a nona, sob o título O Papel do Jornal e a Profissão de Jornalista, é de 2009. Todas elas edições devidamente revistas e ampliadas.

Sem emprego em jornal, Dines foi convidado para atuar como professor visitante na Escola de Jornalismo de Columbia, para onde se deslocou em agosto de 1974, o mesmo mês em que Richard Nixon renunciava à presidência para não sofrer um processo de impeachment. Vivendo em Nova York, e leitor ávido de jornais e revistas, Dines acompanhou com vivo interesse as discussões sobre o comportamento da imprensa no pós-Watergate e a emergência, nos Estados Unidos, do chamado checkbook journalism, o jornalismo de talão de cheques, mecanismo por meio do qual fontes bem situadas ousavam cobrar por informações que forneciam – e alguns jornalistas e empresas jornalísticas aceitavam pagar. Esse debate sobre o comportamento da imprensa se travava na própria imprensa – e aí residia a novidade. Nessa sua estada em Columbia – onde recebera o Prêmio Maria Moors Cabot, em 1970 –, pela primeira vez Dines ouviu, e assimilou, a expressão media criticism.

O período em Nova York coincidiu com uma etapa de grandes transformações no Brasil. O general Ernesto Geisel havia tomado posse em março de 1974 prometendo uma distensão política “lenta, segura e gradual”. O publisher Octávio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, jornal que havia comprado em 1962, decidiu fazer uma reforma radical no seu empreendimento jornalístico com vistas ao aumento de participação em u um mercado dominado pelo à época quase centenário O Estado de S.Paulo. Frias convocou Cláudio Abramo para comandar o projeto, e este ganhou carta branca para se cercar de um time de profissionais de primeiro nível – Alberto Dines entre eles. Anotou Cláudio Abramo, no livro A regra do jogo:

“Frias decidiu mudar a Folha basicamente por razões de competição de mercado. O Estado [de S.Paulo] podia ficar na oposição sem perder prestígio, pois era e sempre foi do establishment; sobre o Estado nunca pesou uma ameaça real. A Folha podia obedecer integralmente à censura, mas não era de confiança. Ao contrário de hoje, não fazia parte do poder. Frias percebeu então que seu jornal só poderia prosperar num regime democrático, e por isso adotou a linha combativa.” (ABRAMO, 1988, p. 88)

Em entrevista a Leticia Nunes, do Observatório da Imprensa (4/7/2005, disponível aqui), Octávio Frias de Oliveira lembrou:

“O objetivo era um só: melhorar o jornal. Nós achávamos que havia pontos a serem corrigidos e que era melhor fazer uma reforma. Foi o que fizemos. (…) Eu procurei o Cláudio Abramo e, em conversa que tivemos – tínhamos longas conversas todos os dias –, surgiu a ideia. E repercutimos a ideia. Sempre de inteiro acordo, eu e ele.

Ele tinha liberdade para fazer as mudanças?

“O.F.O. – Sozinho, não. Sempre comigo.”

Convidado por Abramo, Dines foi conhecer o novo patrão. No livro Eles mudaram a imprensa – Depoimentos ao CPDOC, Dines recorda seu encontro com o dono da Folha:

“Foi um encontro memorável. Era maio de 75. O Frias disse assim: ‘Dines, eu tenho o único jornal que tem condições de fazer uma revolução na imprensa. Os outros estão todos amarrados com o governo, devem fortunas ao governo. O Globo, você sabe; o Jornal do Brasil, você sabe; o Estadão (…) enterrou dinheiro no prédio. Eu sou o único que não deve um tostão. (…) Tenho dinheiro, estou capitalizado, tenho uma tiragem espetacular.” (ABREU, LATTMAN-WELTMAN e ROCHA, 2003, p.118)

Dines foi chamado para chefiar a sucursal do Rio da Folha e escrever um artigo político diário para o jornal. Aceitou e contrapropôs:

“Eu disse [ao Frias]: ‘Está bem. Aceito’. (…) ‘Não quero ganhar um tostão a mais, mas quero que na edição de segunda-feira, no último caderno, você me dê um espaço. Quero escrever uma coluna de crítica de mídia. Ele disse: ‘Dines, não te mete nisso! Você vai ganhar inimigos. Eles vão te matar. Essa gente é vingativa, não te mete nessa coisa!’ Comecei a falar sobre Watergate, sobre o que tinha acontecido. Disse: ‘Nós estamos com a imprensa sob censura. Já que vamos fazer uma revolução, temos que começar a falar sobre a imprensa! Isso é importantíssimo! O processo começa com a própria imprensa’. O Frias sacou: ‘Está bom. Então, no primeiro caderno, domingo’ – eu tinha pedido segunda-feira, segundo caderno, e ele me botou no domingo, no primeiro, página 6. A coluna chamava-se ‘Jornal dos Jornais’. Até hoje o ombudsman [da Folha] está na página 6.” (IDEM, p. 119).

E assim foi. À sombra das promessas liberalizantes do governo Geisel, do assanhamento da direita militar e da tortura institucionalizada no aparelho estatal repressivo, a primeira nota da coluna de estreia do “Jornal dos Jornais”, publicada em 6 de julho de 1975, levava o título de “A distensão é para todos”. Vale a pena recordar alguns trechos:

“O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos veículos para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os veículos. Democracia vale para todos, caso contrário não é democracia.

“A grande consequência do episódio Watergate, com repercussões mundiais, não foi apenas o fortalecimento da imprensa e a sua institucionalização como quarto poder. A dinâmica e a flexibilidade do processo democrático converteram os meios de comunicação dos EUA, simultaneamente, em grandes campeões e grandes alvos. O acusador, se não passou a acusado, pelo menos sente-se fiscalizado, o que lhe traz mais responsabilidade e ainda maior respeito.

“Hoje, menos de um ano depois da renúncia de Nixon, desponta um novo tema até então circunscrito às academias, associações de classe e aos órgãos especializados – o media criticism. A imprensa, os jornalistas, os meios de comunicação, os conflitos de interesses, tudo está sendo salutarmente questionado, revirado, exposto.

“Espontaneamente a imprensa se submete à mesma devassa que ela própria provocou na sociedade americana. Porque a imprensa integra a sociedade, é reflexo dela, não pode esconder-se em santuários que ela própria nega aos poderes políticos e econômicos.

“Assim, a liberdade de imprensa finalmente está sendo usada, ou está prestes a ser usada, em todos os sentidos e direções. E só assim o binômio liberdade-responsabilidade poderá ser posto em funcionamento. A opinião pública despertada e estimulada pela imprensa, agora se acha no direito de saber o que se passa em seus bastidores.

“No Brasil, a crítica à imprensa não é recente. A Última Hora de Samuel Wainer também nisto inovou com a famosa coluna de Octávio Malta. No mesmo vespertino seguiram-se Paulo Francis e Artur da Távola (Paulo Alberto Monteiro de Barros), que continuam no veio, o primeiro escrevendo de Nova York para a Tribuna da Imprensa (Rio) e o segundo comentando diariamente a televisão em O Globo.

“A partir de 1963, quando Hélio Fernandes comprou a Tribuna da Imprensa, passou a ocupar-se com frequência com jornais e jornalistas, tendo mesmo, em fins de [19]73, levado durante vários dias para a primeira página uma crise que atingia o Jornal do Brasil [que redundou no afastamento do próprio Dines]. Seu raciocínio na ocasião foi simples: o que se passa dentro de um jornal interessa diretamente aos leitores, que são justamente aqueles que dão peso e força a este jornal, comprando-o, lendo-o e respeitando suas informações. Infelizmente, o mesmo não pensavam as autoridades censórias da então Guanabara, que impediram a continuação daquelas publicações, sob a alegação de que era uma ‘intromissão em assunto privado de uma empresa’.

“A revista Veja, sob a direção de Mino Carta, foi a primeira publicação que regularizou a cobertura noticiosa dos meios de comunicação com uma rubrica semanal. [A revista] Visão, em certa fase, sob a inspiração de Zuenir Ventura, também se ocupou com a temática profissional. O Pasquim, desde 1968, com a sua famosa verve e o seu descomprometimento, se ocupa à farta com a vida dos jornais.

“Assim, a coluna que a Folha de S.Paulo inicia hoje, e que será publicada todos os domingos, não é um fato novo, nem isolado. Representa uma continuidade, uma preocupação antiga e constante da imprensa brasileira em se aperfeiçoar através da discussão franca.

“O único fato novo é que esta coluna está sendo lançada no exato momento em que a distensão política está sendo discutida e tentativamente implantada. No momento em que todos pedem mais debates, porque só estes é que fortalecem as instituições, cabe à imprensa mostrar que expor-se às críticas não é danoso, nem doloroso.

“A função da crítica responsável é estimular, elevar os padrões. Onde a crítica está vigilante, seja no campo das artes como no das ideias, a qualidade se eleva. Quando a crítica abranda, abre-se o caminho para a estagnação.

“Cabe à imprensa provar em sua própria carne que abrir-se à crítica não é prova de vulnerabilidade, mas de amadurecimento. O que prejudica é o silêncio.

“É hora, pois, de mostrar que a distensão vai servir a todos e que a liberdade não é propriedade de alguns poucos.”

Isso foi escrito há 38 anos e quatro meses. Chama a atenção como o texto permanece viçoso, ainda com força de argumento central de um programa de observação da imprensa. E Dines o cumpriu à risca. Sua coluna tratava da Folha e de todo o resto da mídia. De tudo o que o jornalismo brasileiro produziu, nada ficou de fora do radar do “Jornal dos Jornais” entre julho de 1975 e setembro de 1977, em todas as semanas em que a coluna foi publicada, com tamanho médio entre 12 mil a 14 mil caracteres com espaço – algo entre 8,5 e 10 das antigas laudas de 20 linhas por 70 toques. A receita editorial consistia em uma nota maior, de abertura, seguida de outras, menores, mas não por isso menos relevantes. Relevância trágica, às vezes – como o expresso no quinto de nove tópicos da coluna publicada em 12 de outubro de 1975, sob o título “Caça às bruxas”, a primeira manifestação aparecida na imprensa sobre as ameaças que sofria o jornalista Vladimir Herzog. Escreveu Dines:

“Fazer crítica à imprensa considerando aspectos puramente profissionais e objetivos é uma necessidade. Faz parte da maturação do processo jornalístico e deve ser praticada por todos. Mas abandonar problemas objetivos de qualidade e ética e incorporar-se aos denunciadores da infiltração ideológica nos meios de comunicação é, no mínimo, trair sua própria classe hoje tão amordaçada, pagando por erros que não cometeu.

“É o caso de dois jornalistas, um em São Paulo e outro no Rio, que desencadearam ultimamente uma ofensiva política. Aqui, trata-se de Cláudio Marques, colunista do Shopping News (“Coluna Um”, página dois), que há três domingos vem investindo contra o Departamento de Jornalismo da TV Cultura, a quem o jornalista apelida de TV Vietcultura. A campanha chegou a tentar macular a própria figura do secretário [estadual de Cultura] José Mindlin.

“No Rio, trata-se de Adirson de Barros, colunista de Última Hora, que não apenas denuncia a infiltração vermelha na imprensa brasileira como, inclusive, cita o caso do seu próprio jornal.”

No sábado, dia 25 de outubro de 1975, o diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo foi assassinado, sob tortura, nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. A coluna “Jornal dos Jornais” daquele fim de semana já estava fechada, prestes a ser impressa. Na coluna do domingo seguinte, 2 de novembro, Dines analisa a cobertura jornalística que a imprensa ofereceu no decorrer daquela semana dramática. “Vamos nos ocupar aqui dos aspectos puramente jornalísticos deste episódio que abala o país já há uma semana. Em outras páginas e em outros dias nos ocupamos da morte do jornalista nos seus aspectos morais, legais e políticos”, escreveu na abertura da coluna. E o que se segue é um exemplo de media criticism em que o equilíbrio da análise se sobrepõe à emoção e à raiva.

As colunas seguintes, que trataram dos desdobramentos do caso, registraram as investidas da censura contra a imprensa, os atos de coragem (em maior número) e de sabujice (em menor), estes vindos de jornalistas que defendiam a tese de que Vlado teria cometido “suicídio” para escapar ao justiçamento a que seria submetido “por seus companheiros de partido”.

Os textos que se seguiram no “Jornal dos Jornais” deixavam claro que esse tipo de delírio só era comparável à infame conclusão do inquérito instaurado no comando do então 2º Exército para, segundo os militares, “apurar as causas do suicídio do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI”. Por essas e outras tantas razões o “Jornal dos Jornais” marcou época, sobretudo por aplicar à crítica da mídia os fundamentos do ofício jornalístico.

Crítica permanente

A última coluna circulou no domingo, 11 de setembro de 1977. No domingo seguinte, 18 de setembro, uma nota em duas colunas com a seguinte informação: “Por motivos de ordem técnica, deixa de sair nesta edição o ‘Jornal dos Jornais’, de Alberto Dines, que retornará no próximo domingo”. Não retornou.

Os tais “motivos técnicos” da suspensão do “Jornal dos Jornais” eram imperiosos: no sábado, 17 de setembro de 1977, Cláudio Abramo fora afastado da direção de Redação da Folha. Eram dias pesados, aqueles. Na página 12 da edição do dia 18 da Folha, sob o título “Lourenço Diaféria presta depoimento”, o jornal informava que seu cronista havia sido ouvido no dia anterior pela Polícia Federal e saíra do depoimento enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Em 1º de setembro, Diaféria publicara na Folha uma crônica sobre um sargento que morreu no Zoológico de Brasília ao pular num poço de ariranhas para salvar a vida de um menino. “Prefiro esse sargento ao duque de Caxias”, escreveu o cronista. “O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. (…) O povo está cansado de espadas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal”.

O texto irritou os militares da linha dura, identificados com o ministro do Exército, Silvio Frota, então candidatíssimo à sucessão de Ernesto Geisel. Diaféria foi preso. Em 16 de setembro, a coluna de Diaféria saiu em branco, como forma de protesto. Foi a gota d’água. O general Hugo Abreu, então chefe da Casa Militar do governo Geisel, telefonou a Octávio Frias de Oliveira e pediu a cabeça de Cláudio Abramo. O jornal acatou as determinações dos milicos em nome da sobrevivência empresarial. Frias deixou a direção da empresa para o sócio Carlos Caldeira; em 20 de setembro retirou sua assinatura de diretor-presidente do alto da primeira página e substituiu-a pelo byline “Editor-responsável: Boris Casoy”.

Cláudio Abramo, alijado da Redação, foi ser correspondente em Londres e, depois, Paris; Alberto Dines teve interrompido o seu “Jornal dos Jornais”, deixou de escrever o artigo político na página 2, mas manteve as funções executivas na sucursal do Rio. Em 21 de setembro, a Folha parou de publicar editoriais e, em seu espaço, criou na página 2 a seção “Análise/Perspectivas”, onde reproduzia à farta material traduzido sobre política internacional. Ali Dines voltou a escrever – sem assinatura – textos sobre filosofia apurados e “cozinhados” na coleção História da Filosofia, de Dario Antiseri e Giovanni Reale. O primeiro artigo aparece em 21 de outubro, “Camus e o suicídio”, ao que se seguiram “Kierkegaard e o desespero”(22/10), depois “Montesquieu e os chineses” (23/10), “Spinoza e o Estado” (28/10), e por aí foi…

A partir de janeiro de 1978 retomou paulatinamente seu artigo da página 2. Depois da greve dos jornalistas de São Paulo, deflagrada em maio de 1979, retirou-se do cargo de chefia e tornou-se articulista da Folha. Deixou o jornal em 1980.

Os motivos para a sua saída vinham se avolumando. A relação com Boris Casoy era tensa, e alguns artigos de Dines não eram publicados. No auge de uma greve dos metalúrgicos do ABC paulista, iniciada em 1º de abril de 1980, Dines escreveu o artigo “São Paulo e os dois Paulos” (referência a Paulo Maluf e d. Paulo Evaristo Arns). Não foi publicado. Em seguida escreveu outro, sobre o mesmo tema, com outro título. Não saiu. Insistiu no assunto pela terceira vez; também não saiu. Decidiu então publicar no Pasquim. Fala, Dines:

“Eu era muito ligado ao pessoal do Pasquim, que sempre me perguntava se eu não queria escrever para eles, e tive uma ideia: (…) criei, naquela hora, uma seção, que depois eu continuei, chamada ‘Jornal da Cesta’, com uma frasezinha que atribuí a Shakespeare, porque no Pasquim você podia fazer isso, dizendo: ‘A história da imprensa não se faz só com o que sai publicado, mas com o que vai para a cesta’. Botamos o artigo, paginado como se fosse a página 2 da Folha, escrito embaixo: AD.” (ABREU, LATTMAN-WELTMAN e ROCHA, 2003, pág. 134).

O copo outra vez transbordou. Foi demitido da Folha. E dali em diante dedicou-se à sua paixão até então clandestina, a literatura. Continuou escrevendo o “Jornal da Cesta”. Em novembro de 1981 lançou a primeira edição de Morte no paraíso, uma biografia do escritor Stefan Zweig, e passou a dar consultoria para a Editora Abril. Começou a receber outras tarefas na Abril e, em 1982, foi contratado para atuar na Secretaria Editorial da Abril. “Roberto Civita queria que eu realizasse alguns dos sonhos dele”, lembra Dines [declaração ao autor, 1/11/2013]. Um deles foi coordenar a implantação do Curso Abril de Jornalismo, que teve início em 1983 e até hoje está na ativa. Também organizou um Curso Nacional para Professores de Jornalismo, uma parceria da Abril com a Gazeta Mercantil e a ANJ (então presidida por Maurício Sirotsky), com apoio do Ministério da Educação. Esta experiência foi reeditada anos mais tarde, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, como veremos adiante.

O comichão literário não lhe dava sossego. Decidiu então enfrentar uma nova biografia, desta vez a de Antônio José da Silva, o Judeu: ganhou uma bolsa da Fundação Vitae, demitiu-se da Abril e transferiu-se para Lisboa, para pesquisar a história da Inquisição portuguesa em fontes primárias. Com o fim da bolsa, aceitou o convite da mesma Abril para trabalhar no projeto das revistas que a editora brasileira pretendia lançar em Portugal. Ampliou a apuração sobre a história de Antônio José da Silva e produziu o seu monumental Vínculos de fogo, um catatau de 1056 páginas sobre a odisseia dos judeus ibéricos, lançado em 1992.

No começo da década de 1990, de volta ao Brasil para tratar de uma doença pulmonar mal curada em Lisboa, encontrou uma imprensa seduzida pelas mágicas dos gurus do marketing. As circulações eram anabolizadas por meio de penduricalhos como fascículos e promoções de toda ordem. Vivia-se um momento editorial de denúncias diárias que atiçavam o processo político que redundaria na renúncia do presidente Fernando Collor de Mello, como forma de escapar de um inevitável processo de impeachment.

O jornalismo brasileiro estava em ebulição. Entre 1992 e 93, desde Portugal, Dines escreveu uma coluna na revista Imprensa, sob a retranca “Observatório”. Nesse momento ele projetava criar um instituto que pudesse contribuir para a elevação dos padrões de excelência da imprensa brasileira, por meio de seminários, colóquios e cursos de pós-graduação latu sensu. Ele já havia dado aulas no curso de Jornalismo da PUC do Rio, fora professor visitante em Columbia – a academia não lhe era estranha. O professor Carlos Vogt, reitor da Unicamp, gostou da proposta e aceitou levá-la adiante. Numa viagem à Europa, Vogt fez escala em Lisboa e os dois travaram uma conversação que durou todo um fim de semana. Ali se gestou o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor), que em 1994 tomou corpo como um “centro de pesquisa e acompanhamento crítico da mídia” (ver aqui), vinculado ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), da Unicamp. Além de Dines e Vogt, o professor José Marques de Melo também participou do grupo fundador. O primeiro evento público do LabJor foi o seminário “A Imprensa em Questão”, realizado em abril de 1994, cujo conteúdo foi publicado em livro pela Editora da Unicamp.

Outros seminários se seguiram, além de cursos de aperfeiçoamento para jornalistas e professores, conferências e workshops. Ainda em 1994, o LabJor promoveu o Seminário de Atualização para Professores de Jornalismo. Da convivência dos participantes do seminário nasceu a ideia da construção do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), que amadureceu no Congresso da Intercom daquele mesmo ano e formalizou-se no ano seguinte, com a realização do primeiro Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, em Aracaju (SE).

A partir de 1995, o Labjor realizou o Curso de Especialização em Jornalismo Esportivo, seu primeiro curso de extensão, em nível de pós-graduação. E Alberto Dines, agora morando em São Paulo, estudava formas de criar uma publicação que desse organicidade ao processo de observação sistemática da mídia que então se consolidava no Labjor. Todas as iniciativas nesse sentido encontravam um obstáculo poderoso: os custos. Seria preciso buscar recursos para montar uma redação – sala, aluguel, mobiliário, equipamentos, telefonia – e ainda bancar os investimentos iniciais para a compra de papel, contratação de gráfica e sistema de distribuição. Não havia dinheiro, o impasse estava dado. Até que um dos pesquisadores do LabJor, o jornalista Mauro Malin, lembrou ao grupo que havia pouco mais de um ano estava em curso a implantação do serviço de internet comercial no Brasil. A nova plataforma, argumentava Malin, poderia muito bem suportar um veículo jornalístico sem o peso dos custos de instalações físicas e processos industriais de impressão e distribuição. Além do mais, a internet era o futuro que então se desenhava.

Estavam dadas as condições objetivas para a criação de um produto jornalístico que deveria submeter-se aos fundamentos e às melhores práticas da profissão, mas que trazia como diferencial a adoção de uma pauta única – a observação crítica da mídia: foco nos assuntos relacionados à imprensa, jornalismo e comunicação, ao mesmo tempo em que se constituía em um fórum de debates e análise sobre a mídia, seu desempenho e suas responsabilidades.

A primeira edição do Observatório da Imprensa foi para a web em 1º de abril de 1996; a segunda, em 1º de julho. A partir da terceira, no ar em 5 de agosto, as edições passaram a ser quinzenais, subindo todos os dias 5 e 20 de cada mês – primeiro hospedadas num servidor da Unicamp, depois no UOL, que então iniciava sua operação, e, mais adiante, no iG. (Hoje, o Observatório está hospedado em dois servidores dedicados, na empresa Dualtec.) A periodicidade quinzenal logo afigurou-se insuficiente para um veículo jornalístico baseado em uma plataforma tão dinâmica quanto da internet. A partir de novembro de 1999, as edições dos dias 5 e 20 foram intercaladas por outras duas, nos dias 12 e 27 – a que demos o nome de “Última Hora”. Em 7 de fevereiro de 2001, as novas edições se fixaram na manhãs das terças-feiras. Com a disseminação da banda larga e aprimoramento dos sistemas publicadores, as atualizações passaram a ser diárias.

(Parêntese necessário: em julho de 1998, apareceu no Observatório da Imprensa, sob a assinatura do professor Victor Gentilli, o primeiro chamamento à criação de uma Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) [ver aqui], finalmente constituída em 2005.)

Nesse ínterim, o Observatório da Imprensa ganhou uma versão televisiva na antiga TV Educativa do Rio de Janeiro, que estreou em maio de 1998, com sinal distribuído pela Rede Pública de TV. O programa é hoje transmitido pela TV Brasil, também em rede, sempre às terças-feiras. Cabe registro para a existência de uma edição impressa do Observatório, de periodicidade mensal, com o resumo das edições quinzenais na web, de distribuição gratuita, patrocinada pelo Xerox do Brasil, que circulou entre agosto de 1997 e março de 2000. Por fim, em 4 maio de 2005 estreou programa radiofônico diário do Observatório, hoje transmitido de segunda a sexta-feira pelas rádios MEC AM e FM do Rio, Nacional AM e FM de Brasília e Inconfidência, de Belo Horizonte.

Aqui, portanto, uma particularidade do projeto: à diferença dos veículos jornalísticos tradicionais, que nasceram em outras plataformas e depois migraram para a web, o Observatório fez o caminho inverso. O site na internet era – e é – a matriz integradora de um projeto editorial que gerou versões para o papel, a TV e o rádio. Em quaisquer plataformas, o mesmo pressuposto, qual seja:

“O jornalismo é um exercício crítico permanente ao qual todos devem ser submetidos, sobretudo o próprio jornalismo. Quando a imprensa se exclui do debate torna-se automaticamente suspeita. [O Observatório] sempre esteve ciente de que a democracia é um processo dinâmico e que cada poder necessita de um contrapoder para equilibrá-lo. O único e legítimo contrapoder ao poder da imprensa é a conscientização do cidadão-leitor, cidadão-ouvinte, cidadão-telespectador e cidadão-internauta. [O Observatório] considera o exercício crítico como ação política, mas a partidarização desta crítica [a] converte[-a] em algo tão enganoso quanto as manipulações que pretende corrigir” (DINES, 2006).

Jornalismo necessário

É imprescindível localizar a trajetória histórica aqui resumida no contexto da mais profunda transformação por que passou o jornalismo desde o aparecimento da imprensa periódica, no começo do século 17. O Observatório da Imprensa surgiu 27 anos depois do estabelecimento do primeiro link da rede Arpanet, precursora da internet; o Observatório nasceu quinze anos depois do surgimento do primeiro computador pessoal, cinco anos após a criação da web, dois anos depois da internet comercial no Brasil, no momento mesmo em que a História passou a ser escrita cada vez mais em bits e não apenas em átomos. Nasceu quando o “escrito” e o “publicado” deixaram de ser necessariamente o “impresso”.

O mundo mudou com a popularização das tecnologias de informação e comunicação. E o jornalismo também mudou. A periodicidade foi subvertida, assim como a exclusividade na produção de conteúdos jornalísticos. A nova realidade implicou o fim do monopólio de distribuição da informação de que desfrutavam as empresas de mídia. A disseminação dos novos padrões de conectividade e a crescente interatividade – hoje ainda mais impulsionada pelas redes sociais e pelo barateamento dos gadgets – obrigou o jornalismo a se reciclar. E nós todos, na academia ou nas redações, ou em ambos, nos encontramos no olho desse furacão.

Para compreender melhor o ambiente, recorramos a um teórico clarividente. Abre aspas:

“O meio, ou o processo de nosso tempo – a tecnologia elétrica –, está remodelando e reestruturando os padrões de interdependência social e cada um dos aspectos de nossa vida privada. Está nos forçando a reconsiderar e reavaliar praticamente cada pensamento, cada ação e cada instituição que até agora se davam por estabelecidos. Tudo está em mudança: você, sua família, seu bairro, sua educação, seu trabalho, seu governo, sua relação com ‘os outros’. E está mudando dramaticamente.” (McLUHAN e FIORE, 1967, p. 8)

E acrescenta o nosso teórico:

“As sociedades têm sido sempre moldadas mais pela índole dos meios com que se comunicam os homens do que pelo conteúdo mesmo da comunicação” (IDEM).

Fecha aspas.

Isso poderia ter sido escrito ontem, ou na semana passada, mas o texto remonta a 1967 – ano da execução de Ernesto Che Guevara, da estreia de Terra em Transe de Glauber Rocha, do Rei da Vela, de Oswald de Andrade por Zé Celso Martinez Corrêa, do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, das máquinas de escrever. É a abertura do livro O meio é a massagem, de Marshall McLuhan e Quentin Fiore, publicado pela primeira vez naquele ano. Mostra que as redes sociais eram outras, que as mudanças radicais não são exclusividade dos tempos que correm, e reitera que as perplexidades daí advindas são bastante semelhantes àquelas dadas pelas mudanças de paradigmas tecnológicos que historicamente vêm ocorrendo desde que a mídia é mídia. É assim desde a invenção dos tipos móveis de Gutenberg e a revolução que provocou na disseminação da leitura e na distribuição do conhecimento. Algo semelhante se deu com o jornalismo quando da invenção do telégrafo, quatro séculos depois de Gutenberg, a partir do que as notícias e as boas histórias com base em fatos passaram a ser valorizadas.

Uma mídia não elimina a outra, e dos novos tempos restou estabelecida a tendência à convivência das mídias – cada qual a seu modo e todas aptas a disputar a preferência de uma fatia do público. A diferença é que, agora, as mudanças de paradigmas se dão em velocidade tão acelerada que o debate sobre o futuro converteu-se numa discussão de ontem.

O futuro chegou e, com ele, mais mudanças. As empresas jornalísticas, cujos modelos de negócios tinham por base o domínio absoluto da cadeia produtiva, perderam a primazia da notícia e o controle sobre a distribuição de seus conteúdos – até então a pedra angular da rentabilidade do negócio. Com aceleração do desenvolvimento tecnológico, a indústria da mídia precisou correr atrás do prejuízo para adaptar-se à nova realidade suscitada pela ubiquidade de seus públicos. Onde está o leitor? Onde está a audiência? Está em qualquer lugar, em todos os lugares.

As situações de crise trazem consigo os germes da inventiva. Ao aceitar o pressuposto de que o jornalismo é um trabalho de equipe, para construir a base desejável à propagação da criatividade será preciso garantir às equipes as condições de praticar um jornalismo socialmente útil, criativo e, na medida do possível, sedutor. Um longo e muito bem fundamentado diagnóstico desse cenário mutante pode ser encontrado no relatório “Jornalismo pós-industrial – Adaptação aos novos tempos”, produzido por três pesquisadores do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade Columbia. [Há uma versão em português publicada pela Revista de Jornalismo ESPM (nº 5, abr/mai/jun 2013) e reproduzida no Observatório da Imprensa.] Ao mencionar o ecossistema em que agora trabalhamos, os autores sublinharam:

“O jornalismo sempre teve meios para receber denúncias e sempre foi ouvir o cidadão nas ruas. Membros do público sempre recortaram e passaram adiante matérias de seu interesse. A novidade aqui não é a possibilidade de participação ocasional do cidadão. É, antes, a velocidade, a escala e a força dessa participação – a possibilidade de participação reiterada, e em vasta escala, de gente anteriormente relegada a um consumo basicamente invisível. A novidade é que tornar pública sua opinião já não requer a existência de um veículo de comunicação ou de editores profissionais.” (ANDERSON, BELL e SHIRKY, 2012)

A popularização das tecnologias de informação e comunicação fez com que os denominados “receptores” do processo da comunicação passassem a ser, também eles, atores relevantes na atividade de transformação de dados em informação, e da informação em conhecimento. Cada um agora pode ser a sua própria mídia. “Os meus leitores sabem mais do que eu”, admitiu o jornalista e blogueiro Dan Gillmor, autor de We, the Media.

A disseminação dos novos padrões de conectividade e a crescente interatividade impulsionada pelas redes sociais obrigam o jornalismo a se reciclar, como imperativo de sobrevivência. Os modelos de negócio buscam fórmulas para a rentabilização da produção midiática sob o marco digital, ainda com sucesso relativo. Outro desafio é conceber ferramentas para encarar o desafio da mobilidade proporcionada pelos devices ligados à internet, a cada dia mais e mais à disposição das audiências [EGYPTO, 2012]. A internet deixou de ser considerada como um meio de comunicação para ser entendida como um espaço social (FOGEL, 2013). A rede planetária digital multimídia não é um novo ator no ecossistema jornalístico; ela simplesmente construiu um novo ecossistema jornalístico (ANDERSON, BELL e SHIRKY, 2012).

Os sobreviventes da bolha especulativa que derrubou a bolsa de tecnologia Nasdaq em 1999-2000 presenciaram, num espaço de apenas dois anos, a emergência de quatro fenômenos que uma vez mais mudaram tudo o que já estava em franca transformação. Embora criado em fevereiro de 2004, o Facebook entrou em operação para valer no início de 2005; no mesmo ano, os internautas conheceram o YouTube; em 2006, o Twitter veio à luz; e em janeiro de 2007 a Apple lançou o primeiro smartphone. Tudo isso em dois anos.

E o que temos hoje? Facebook, a rede social hegemônica, com mais de 1 bilhão de usuários, rompeu os limites entre a imagem e o texto; o YouTube trouxe a revolução da imagem sobre o texto; o Twitter popularizou a ideia do agora, do já, do neste instante; e os smartphones disseminaram a possibilidade do “tudo em qualquer lugar”. Correndo por fora, o Google, a estrela digital que completou 15 anos em setembro passado e fechou o terceiro trimestre deste ano com lucro líquido de US$ 2,97 bilhões – 36% maior que o registrado no mesmo período de 2012. É um motor de busca? Um prestador de serviços digitais gratuitos? Tudo isso e mais o fato de ser a maior empresa de publicidade do planeta.

Ocorre que o que se passa nas redes sociais – e o Google também tem a sua – não é mais invenção das empresas, mas dos usuários. Do mesmo modo, quem patrocina a convergência de mídias não são os entes corporativos, mas o leitor-telespectador-ouvinte-internauta.

Este é o ambiente atual do ofício jornalístico. Um cenário de avalancha informativa no qual, a cada minuto, sobem 72 horas de vídeo para o YouTube e, diariamente, são disparados 400 milhões de tuítes. Para a mídia jornalística, o fim do discurso unidirecional deu lugar à cacofonia de vozes. Nesse contexto veloz, com os custos de produção e distribuição de conteúdos cada vez menores, o futuro do jornalismo pertence muito mais aos jornalistas do que às empresas jornalísticas – o que aumenta sobremaneira a responsabilidade individual de todos e cada um.

Em meio a tantas transformações, é cada vez maior o valor da reputação percebida pelo distinto público. Estamos vivendo a transição da mídia de massa para as massas de mídia [CAPILÉ, 2013]. Ainda assim, as pessoas (os públicos, as audiências) demandam alguma mediação, quanto mais não seja para conseguirem se localizar nessa algaravia informativa a que todos estamos submetidos. Por isso, o jornalismo permanece socialmente necessário. E também por isso deverá ter cada vez mais valorados os seus fundamentos, construídos ainda era pré-digital: a isenção, a clareza, a exatidão, a objetividade possível, a fidedignidade, o compromisso com a verdade factual e com o interesse público. Isso ainda faz a diferença.

Um veículo reconhecido pelo rigor com que trata a matéria jornalística e pela probidade em sua relação com a audiência terá, certamente, uma inestimável vantagem competitiva. A credibilidade é um ativo valioso também no mundo digital. Estamos falando, em suma, da qualidade jornalística tributária do interesse público.

A observação sistemática da mídia jornalística, como vimos, é uma forma de intervenção. A experiência dos media watchers demonstra que, aos se sentirem observados, os veículos jornalísticos tendem a buscar o aprimoramento de seus controles de qualidade e a melhorar o produto que entregam ao público. A universidade, neste caso – e a Renoi, em particular –, pode e deve desempenhar um papel importante no monitoramento dos produtos e processos da mídia brasileira por pelo menos três boas razões – que tomo emprestadas de um texto dos jornalistas e professores Luiz Martins da Silva e Fernando Oliveira Paulino. Por quê?

“(1) porque a academia se situa a uma distância segura das pressões do mercado, o que permite exercer uma crítica técnica e aprofundada, isentando-se de submissões comerciais;

“(2) porque [a academia] tem o papel de formar novos profissionais da área, o que demanda oferecer conteúdos que estimulem uma leitura crítica dos procedimentos e dos produtos midiáticos;

“(3) porque compete às universidades auxiliarem na constituição de pontes entre a produção científica e o exercício profissional no mercado de trabalho, isto é, a crítica de mídia produzida na academia pode subsidiar as empresas do ramo na revisão de processos técnicos, estéticos e éticos, gerando condições mais concretas para um aperfeiçoamento do jornalismo.”

O jornalismo permanece como atividade relevante para a manutenção do sistema de pesos e contrapesos que sustenta e promove a democracia, muito embora tenha assistido à sua prática, seu contexto técnico-profissional e seus públicos virarem de pernas para ar nos últimos 20 anos. O jornalismo multiplataforma requer agora profissionais mais bem preparados, jornalistas anfíbios, aptos a trabalharem em redações mestiças em que repórteres e editores convivam com fotógrafos, videomakers, designers, engenheiros e desenvolvedores de sistemas. E a universidade é espaço privilegiado para prover essa formação.

Somos, na Renoi, treze pontos de rede com presença em todas as regiões do país. Há aqui uma articulação que deve ser fortalecida em nome de um potencial de produção de conhecimento que merece ser explorado. A razão que nos une reside no aprimoramento da qualidade técnica dos jornalistas e na promoção da independência dos meios de comunicação.

A sociedade precisa do jornalismo. Nosso compromisso é com as melhores práticas do ofício e com a qualificação do debate sobre a mídia. Sabemos que a existência uma mídia jornalística forte, plural e diversificada é um dos pilares da democracia. E por ela devemos zelar, porque dela não podemos abrir mão.

Referências

DINES, Alberto. “Um compromisso, uma história, um saldo”, Observatório da Imprensa nº 379 (2/5/2006), disponível aqui

JAWSNICKER, Claudia. “Cadernos de Jornalismo e Comunicação: iniciativa precursora de media criticism no Brasil”. Revista Alceu vol. 8, nº 16, jan/jun 2008, disponível aqui.

UCHA, Francisco. “O rapaz que sonhava ser cineasta”. Jornal da ABI nº 374 e 375, janeiro/fevereiro de 2012, título original “Dines Extraordiário!”; reproduzido no Observatório da Imprensa, disponível aqui.

ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo, Companhia das Letras, São Paulo, 1988

ABREU, Alzira Alves; LATTMAN-WELTMAN, Fernando e ROCHA, Dora. Eles mudaram a imprensa – Depoimentos ao CPDOC. FGV Editora, Rio de Janeiro, 2003

McLUHAN, Marshall e FIORE, Quentin. The medium is de massage, 1967; tradução León Mirlas, Editorial Paidos, 1969

ANDERSON, BELL e SHIRKY. “Jornalismo pós-industrial: O ecossistema”. Tow Center for Digital Journalism, Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, 2012. Conclusão do relatório e links para as suas seções disponíveis aqui.

EGYPTO, Luiz. “O jornalismo na internet”. Observatório da Imprensa, 2012. Disponível aqui.

FOGEL, Jean-François. “La condición digital: un nuevo entorno para el periodismo”. Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, webinar, 30/04/2013.

CAPILÉ, Pablo. Entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, 5/8/2013. Disponível aqui.

SILVA, Luiz Martins da; PAULINO, Fernando Oliveira. “Formas de assegurar a responsabilidade social da mídia: modelos, propostas e perspectivas”. Rio de Janeiro: Intercom, 2005

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Luiz Egypto é redator-chefe do Observatório da Imprensa e integrante da Renoi – Rede Nacional de Observatórios de Imprensa

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