Sexta-feira, 29 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

‘Snowden foi um herói de nosso tempo’

Por Perry Anderson em 26/11/2013 na edição 774

O artigo “A pátria americana“ está voltado para a política interna dos Estados Unidos, não para a ordem imperial americana no exterior. Mas um feito distintivo do governo Obama tem sido o de apagar a fronteira entre essas duas esferas em um grau inédito. Sob Obama, foi criado um sistema global de vigilância que abarca implacavelmente tanto chefes de Estado estrangeiros – como os presidentes do Brasil e do México descobriram – quanto o mais humilde cidadão americano. Ao expor essa espionagem cibernética universal, Edward Snowden foi um herói de nosso tempo. O fato de que nenhum país ocidental – nem mesmo o Brasil, uma vítima desse sistema – tenha ousado dar asilo a Snowden é mais revelador das realidades da pax Americana do que o orçamento militar dos Estados Unidos, que é maior do que os orçamentos combinados de todas as outras potências com alguma pretensão de ter um papel internacional.

Numa sequência de A pátria americana, que será publicada no fim deste mês na New Left Review, eu discuto a atuação externa do Estado norte-americano desde os anos 1930. A seguir, adianto um trecho sobre o atual governo.

Lógica do império

“O que distingue o governo Obama como uma nova etapa do Império Americano? Durante a Guerra Fria, a Presidência dos Estados Unidos acumulou poder discricionário num ritmo crescente. Entre a época de Harry Truman [1945-1953] e a de Ronald Reagan [1981-1989], a equipe da Casa Branca se multiplicou por dez. Hoje, o Conselho de Segurança Nacional – com mais de 200 integrantes – é quase quatro vezes maior do que era sob Richard Nixon, Jimmy Carter ou mesmo Bush pai. A CIA atua como um exército privado à disposição do presidente e, embora o tamanho da agência seja um segredo, ela também cresceu exponencialmente desde que foi criada em 1949. Desde os dias de John Kennedy, seu orçamento aumentou mais de dez vezes, de 4 bilhões de dólares em 1963 para 44 bilhões em 2005, em valores atualizados. As chamadas ‘declarações de promulgação’ – objeções feitas por escrito pelo presidente no ato de assinatura de uma lei – agora permitem invalidar legislação aprovada pelo Congresso e que não é do agrado da Casa Branca. Atos do Executivo ao arrepio da lei são regularmente endossados pelo Escritório de Assessoria Legal do Departamento de Justiça, o mesmo que [no governo George W. Bush] providenciou memorandos defendendo a legalidade da tortura. Mas mesmo esse grau de subserviência foi considerado insuficiente pelo Salão Oval, que criou sua própria assessoria para carimbar incondicionalmente tudo o que a Presidência decidir fazer.

Obama herdou esse sistema arbitrário de poder e violência e, como a maioria de seus antecessores, o ampliou. As operações Odisseia da Aurora e Stunext, o programa Prism e a campanha de assassinatos seletivos são da lavra do atual presidente: uma guerra [contra o ditador líbio Muammar Khadafi em 2011] em que nem hostilidades chegaram a se configurar; um ataque de longa distância com um vírus eletrônico [ao programa nuclear do Irã]; a ampla espionagem de comunicações nacionais e estrangeiras; o assassinato de cidadãos americanos e estrangeiros. O algoz-em-chefe relutou até mesmo em abrir mão da prerrogativa de ordenar a morte sem julgamento de cidadãos dos Estados Unidos [acusados de atividades terroristas no exterior].

Ninguém pode acusar este presidente de não ter sentimentos humanos – as lágrimas pelas crianças mortas numa escola da Nova Inglaterra comoveram a nação; os apelos pelo controle do porte de armas foram convincentes para não poucos. Se muitas outras crianças, a maioria sem escolas sequer, morreram por suas mãos em Ghazni, no Afeganistão, ou no Waziristão paquistanês, isso não é motivo para a perda do sono presidencial. Os aviões não tripulados Predators têm a mira mais acurada do que armas automáticas, e o Pentágono sempre pode expressar pedidos de desculpas quando considerar conveniente. A lógica do império, e não a unção do governante, estabelece o padrão moral.”

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Perry Anderson é historiador

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