Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

A cobertura tendenciosa dos veículos Globo

Por Marcelo Salles em 23/01/2007 na edição 417

Quem acompanhou a 32ª Reunião de Cúpula do Mercosul pela TV Globo, pelo jornal O Globo ou pelo Globo Online terá tido apenas uma vaga idéia do que aconteceu nos dias 18 e 19 de janeiro, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Não se trata de discordar do ponto de vista desses veículos, pois numa pretensa democracia a divergência de idéias é salutar. Mas o que se viu foram graves distorções de informações e até a divulgação de notícias falsas, fatos que simplesmente não aconteceram.


Toda a cobertura desses meios teve como objetivo construir a idéia de que a reunião do Mercosul fracassou, e a todo instante procurou jogar os presidentes uns contra os outros. Assim, na sexta-feira ((19/1), matéria do Globo Online traz no lide que…




‘A reunião de cúpula do Mercosul no Rio terminou sem a assinatura de nenhum acordo de relevância’.


Ou o redator sabia que isso era uma mentira ou então se trata de um desinformado. Isso porque a mídia inteira presenciou, no Golden Room do Copacabana Palace, Hugo Chávez, Lula, José Gabrielli, presidente da Petrobrás, e Rafael Ramírez, presidente da PDVSA, assinarem um acordo para a criação de uma empresa mista para desenvolver o campo de petróleo extra-pesado de Carabobo-1 e outro acordo para projetar, construir e operar a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.


Constituição violada


Outro exemplo em que a realidade foi deliberadamente distorcida veio do Jornal da Globo de quinta-feira (18):




‘Pelo comportamento de Chávez pode-se ver uma grave crise de identidade no Mercosul. Os principais fundadores, Brasil e Argentina, pensavam mais em integração e comércio e menos em ideologia. O recém-chegado Hugo Chávez e o recém-convidado Evo Morales, pelo contrário, querem o Mercosul como instrumento das próprias ideologias’.


O que se vê aqui é uma nítida tentativa de provocar um conflito entre os países, com argumentos soltos, imprecisos, como o uso do termo ‘ideologia’ da forma como foi empregado, com o intuito de desqualificar Chávez e Morales. Na realidade, os dois presidentes discursaram a favor da integração dos povos e falaram em investir naquilo que chamaram de ‘Mercosul Social’, que prevê a construção de escolas, hospitais, moradias dignas para os pobres, etc. Talvez seja isso o que a Globo quis dizer com ‘ideologias próprias’, o que nos leva à seguinte pergunta: ignorância ou má-fé? Seja como for, a empresa dos Marinho não deve esquecer que apoiar uma ditadura que torturou, matou e seqüestrou cidadãos brasileiros também é uma opção ideológica.


O jornal O Globo de sábado (20) segue na mesma linha de fomentar a divisão do Mercosul. Sua manchete foi ‘Brasil vai ajudar Bolívia para neutralizar Chávez’, e o título da capa do caderno de economia continuou: ‘Brasil vai de Bolívia contra Chávez’, como de resto se tentou fazer em toda a cobertura.


É preciso registrar que o tom beligerante desses veículos não corresponde ao encontro sereno e produtivo do Mercosul, onde houve divergências, sim, mas todas foram ouvidas com atenção e respeito pelas partes envolvidas. Na verdade, O Globo vem fazendo campanha contra Chávez há pelo menos uma semana. As Organizações Globo ainda não engoliram o anúncio das nacionalizações e da não-renovação da concessão da RCTV.


Em editorial na sexta-feira (19), o jornal afirma que a RCTV será fechada por criticar o governo, quando na verdade a decisão foi tomada porque a empresa violou seguidamente a Constituição, tendo sido, inclusive, a sede da reunião dos generais que comandaram o golpe de abril de 2002. Golpe este que os veículos da Globo não reconhecem, pois sempre que o mencionam dizem algo como ‘A RCTV é acusada de golpismo por Chávez’.


Concessões públicas


É nesses momentos que se perde o controle da hipocrisia. Após uma semana de insultos a Chávez, fazendo uso de meias verdades e mentiras inteiras, no mesmo editorial de 19/1 O Globo, finalmente, assumiu uma posição clara ao associar o socialismo ao caos. Não que o jornal tenha chegado ao ponto de dizer: ‘Somos capitalistas, defendemos o imperialismo e a exploração dos povos’, porque aí seria demais para quem se diz imparcial e vende tal imagem. Mas pelo menos o leitor teve uma sinalização mais precisa nesse sentido, numa ocasião em que O Globo adota uma postura golpista muito parecida com aquela assumida na época da derrubada de João Goulart, quando disse, em manchete do dia 1º de abril de 1964: ‘Fugiu Goulart e democracia está sendo restabelecida’.


Ademais, é preciso destacar o uso constante de fontes anônimas para atacar Chávez. Porque, off the records, pode-se dizer tudo. A única garantia do leitor reside na credibilidade do veículo – o que, nesse caso, não ajuda. O Globo vem usando desde ‘analistas estão preocupados com a escalada autoritária de Chávez’ até ‘uma fonte do governo disse que enquanto a Venezuela fica dando migalhas, o Brasil tem um amplo projeto de integração’.


Para concluir, vale registrar que a matéria sobre a ida de Chávez à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, publicada à página 40 do Globo (20/1), é tendenciosa e não contempla a essência do evento. A começar pela legenda da foto, afirmando que Chávez ‘puxou uma vaia’ contra O Globo. É mentira. O público presente, que lotou plenário e galerias, desde o discurso anterior, proferido pelo deputado pedetista Paulo Ramos, vaiava a Globo e cantava, em coro de interromper qualquer discurso: ‘O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo’.


Portanto, quando o presidente venezuelano levantou o jornal para ilustrar o que dizia, o público vaiou em massa. Cerca de 300 vozes, muito conscientes da realidade nacional e do oligopólio da mídia, vaiavam a Globo sem precisar de ninguém para puxar nada, ao contrário dos que se locupletam com os poderosos da vez.


PS: Será que a gritaria das Organizações Globo tem alguma coisa a ver com o término, em meados deste ano, de cinco concessões públicas operadas por suas emissoras?

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Jornalista, editor do FazendoMedia

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