Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

A Copa sem repórter

Por Marcos de Castro em 29/06/2010 na edição 596

Não sei qual será mais importante, na área das realizações esportivas, se a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos. Como no momento uma Copa está sendo disputada, por ora fiquemos com ela. Mas que acontecimento (eu quase ia usando uma das palavras da moda: evento) é esse, o mais importante do mundo esportivo, que não atrai um único repórter? Pelo menos é o que se deduz a julgar pela fala dos… repórteres.


O técnico Dunga, desde a chegada à África do Sul, parece que vai resolver tudo evitando a presença de repórteres nos treinos. E nas entrevistas coletivas passa sempre a impressão de que repórteres, para ele, são inimigos. Mas, é forçoso reconhecer que, além de Dunga, os próprios repórteres não gostam de si mesmos. É a conclusão lógica a que se chega quando todos eles fogem da palavra que os designa.


Estranhamente, só usam mesmo o termo ‘jornalista’.


Ora, ao fazê-lo, estão fugindo do seu dever básico de informar tudo do modo mais claro possível. Jornalistas são também os que ficaram na retaguarda. O termo específico para os que estão, digamos, na frente de batalha, uma vez que cobertura como essa é muitas vezes uma verdadeira guerra, o termo específico, como se sabe, é ‘repórter’. Por que fugir dele, se ele informa melhor ao restringir o campo de informação? Por que repetir cansativamente a palavra ‘jornalista’ (quase sempre no plural), que representa apenas meia informação? Não é só na Copa. É sempre assim.


Sem utilidade prática


Querem ver? Vamos à casa de uma família em que alguém foi sequestrado, numa grande cidade brasileira. Repórteres de vários veículos foram escalados para passar a noite em frente da casa. Por duas ou três vezes alguns deles entraram ao vivo durante a madrugada. Ah, o telespectador ou o radiouvinte pode ter certeza, não ouvirá em hipótese alguma a palavra ‘repórter’! Exemplos práticos de como podem ter sido essas entradas: 1. ‘Apesar do sofrimento, a família dá aos jornalistas um tratamento altamente atencioso e até bolo e cafezinho foram distribuídos.’ 2. ‘No meio da madrugada, correu o boato de que o resgate tinha sido pago e o sequestrado estava a caminho de casa. Os jornalistas se alvoroçaram, mas era rebate falso.’ 3. ‘Quase ao amanhecer, o pai do sequestrado mudou de atitude: foi à janela do segundo andar e pediu aos jornalistas [não se esqueça o leitor, são os repórteres informando] que se retirassem, pois aquele aglomerado humano só fazia aumentar a tensão dos parentes.’


A situação é absolutamente realista, três entradas ao vivo de profissionais de rádio e TV na madrugada, nenhuma vez a palavra repórter. O leitor atento já há de ter observado mais de uma vez situação semelhante. Diante de tal repetição, o que fica? Provavelmente a palavra repórter vai se apagando do nosso léxico. Pelo menos no vocabulário do dia-a-dia dos repórteres brasileiros. Seria o caso de devolver o termo aos ingleses, com os quais fomos buscá-lo, e pedir desculpas, explicando que ele deixou de ter utilidade prática no Brasil.


Expressão saborosa


Restaria o mistério. Repórteres foram, são e serão sempre a parcela profissional a desempenhar a função mais nobre do jornalismo: a busca e a transmissão da notícia. Sem eles (hoje, elas, em maioria absoluta) não se faz jornal, sobretudo não se faz um bom jornal. Mesmo por trás do material vindo das mais longínquas esquinas do mundo, enviado pelas velhas agências de notícias, há sempre a mão de um repórter, ainda que às vezes o leitor não sinta isso. O curioso – mas seria adequado chamar isso de curioso? – é que os próprios profissionais que desempenham a função estão matando o termo repórter. Por que esse amor desabusado pela palavra jornalista?


E não só no caso das palavras estão ocorrendo fenômenos estranhos. Também as expressões, pequenas frases feitas, têm sofrido o diabo com os meios de comunicação no Brasil (rigorosamente, não se dá o mesmo em Portugal). Muitas dessas frases feitas fazem o encanto da língua. Vamos ficar com uma só para encerrar estas considerações. Será provavelmente a mais expressiva neste momento: ‘Cair no goto’. Tal expressão, como ninguém ignora, está secularmente tanto nos bons autores como na boca do povo. Goto é sinônimo popular para goela, garganta. O Aurélio dá um excelente exemplo no verbete devido: ‘Cair no goto de. O romance caiu no goto do público e é best seller.’ Numa terra em que expressão tão simples – e tão saborosa – vem sendo confundida inacreditavelmente com ‘cair no gosto’ (que inexiste), não estranha que repórteres estejam destruindo a palavra ‘repórter’.

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