Domingo, 27 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

A crítica desonesta da mídia

Por Luiz Weis em 24/09/2006 na edição 399

Os pecados da imprensa brasileira – e são muitos, muitíssimos – viram água de rosas perto do artigo patentemente desonesto assinado por Emir Sader sob o título ‘O povo não acredita na imprensa’ e do seu mote ameaçador ‘Se não se pode dissolver o povo, que tal democratizar a imprensa?’, publicado no blog Grupo Beatrice.


Em uma dezena de parágrafos, ele defende a falácia de que o voto majoritário em Lula é um voto de repúdio à imprensa. ‘Ninguém tem dúvidas’, escreve, que a Folha, o Estado, o Globo, a Veja e a Globo ‘apóiam claramente a [sic] Alckmin’. Se com isso ele quer dizer que todos, indistintamente, deturpam os fatos para beneficiar o tucano, ou não acompanha o que eles publicam e exibem ou – decerto – mente.


Uma banca acadêmica reprovaria sumariamente tamanha generalização sem o respaldo de provas robustas, evidências empíricas que valham o seu sal. O autor da verrina fabrica a realidade que mais convier ao seu facciosismo escrachado.


Diz, porque lhe apraz, que os artigos do colunista Clóvis Rossi ‘expressam o ceticismo/cinismo’ da Folha. Devia lavar a boca antes de investir contra um jornalista que, além de profissional superlativo, não perde para nenhum outro, em parte alguma, em matéria de integridade. Se não sabe, devia saber como Rossi é detestado por representantes ilustres do baronato da mídia por sua independência e caráter.


Apenas os radicais, os venais, os oportunistas e os patrulheiros têm desinibição ética desenvolta o suficiente para escrever a batatada de que ‘se [o povo] acreditasse no que a imprensa diz, se tivesse confiança nela, seria Alckmin quem estaria por triunfar no primeiro turno e não Lula’.


Processo permanente


Pode-se admitir, apenas para argumentar, que uma parcela do eleitorado lulista há ter seus motivos para votar em Lula, mesmo acreditando – em graus variados – no que a imprensa – também em graus variados – diz a respeito dele.


Pela última pesquisa Datafolha, que dá 49% a Lula, 75% dos entrevistados responderam ‘sim, existe corrupção no governo’. Ou seja, existe um contingente de eleitores para os quais a corrupção no governo não é invenção da mídia, mas, ainda assim, querem dar um segundo mandato ao presidente.


Há mais variáveis entre o leitor/eleitor e a urna do que é capaz de conceber a imaginação a serviço da perfídia.


De mais a mais, foi a mídia que fabricou do nada Waldomiro Diniz? A ‘sofisticada organização criminosa’ de que fala o procurador-geral da República a propósito do mensalão? A decisão do Tribunal de Contas de investigar a fundo o uso do PT para distribuir material de propaganda do governo, suspeito de ter sido superfaturado? Enfim, foi a mídia que fabricou a ‘abominável’ (Lula) tentativa petista de ‘fazer negócio com bandido’ (Lula), para comprar um dossiê contra José Serra?


‘Quem [sic] é essa imprensa, para se reivindicar a missão de fiscalizar os governos?’, pergunta retoricamente o autor. ‘Que moral tem para isso? Quem lhes entregou esse mandato? Pelo voto popular, ninguém. Eles se [sic] reivindicam a si mesmos.’


É querer fazer o leitor de imbecil. Nas sociedades democráticas que Sader abomina, porque a democracia dele veste aspas, a imprensa tem fé pública para a sua missão fundamental, que é justamente a de fiscalizar os governos. Essa fé pública é posta a prova dia a dia. Nos quatro cantos do mundo que não censura a informação.


Leitores insatisfeitos trocam de jornais e revistas. Ouvintes e espectadores que se sintam logrados mudam de programa ou de estação.


São eles, num processo permanente de avaliação e reavaliação dos órgãos e produtos jornalísticos, que ‘entregam esse mandato’ à mídia. O seu voto – e obviamente o autor sabe disso – é a sua decisão de ler este ou aquele jornal ou revista e assim por diante.


Duas formas


Será que em qualquer país livre, todos – jornais, revistas, rádios e televisões – estão sempre e inexoravelmente mancomunados com os poderosos de turno e os donos do dinheiro para esconder todas as verdades que os incomodem?


Isso é uma caricatura, uma contrafação digna da lógica do marxismo de botequim. Marxistas que se dão o respeito respeitam os fatos. Como o de que o produto jornalístico, nos países capitalistas, embute uma tensão permanente entre interesses que se sobrepõem, tangenciam ou conflitam. Contém desde a verdade mais chã à falsidade completa – e, mais ainda, todas as gradações entre esses extremos.


Mas dos males do artigo de Sader o pior – e o mais esclarecedor – é a pergunta ‘que tal democratizar a imprensa?’ Decerto como se fez nas ‘democracias populares’ da Europa Oriental, como Fidel faz em Cuba e como Chávez trata de fazer na Venezuela (onde, a bem da verdade, o outro lado é em geral outro desastre).


Nas ‘democracias’ de partido único e de mídia única que Sader aspira para o Brasil, imprensa não é problema. É correia de transmissão, instrumento de controle político e social autoritário, espaço de glorificação inconteste do Líder e de seus feitos.


Nas democracias sem aspas, imprensa livre é problema – para quem a possui, para quem a faz, para quem nela aparece e para quem a consome. Por isso, erra seis vezes a cada meia dúzia de acertos.


Também por isso já se disse que, numa escolha hipotética, seria melhor não ter governo do que não ter imprensa.


É legítimo, nos sistemas democráticos, reagir a ela como se queira, menos de duas formas: arrochando-a e generalizando grosseiramente os seus defeitos e vícios. Sader é um dos tantos que começa por aí para chegar lá.

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