Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

A incrível classe média e o ameaçado macaco Sauá

Por José Cleves em 15/02/2011 na edição 629

É emocionante como a sociedade civil brasileira se organizou para a defesa do meio ambiente. Nada no país é tão organizado e veemente quanto essa militância que se multiplica a cada dia em todo o território nacional. O curioso é que a estratégia utilizada por esse exército de voluntários é liderada por elementos da classe média, a mesma acusada de apoiar o golpe militar de 1964, em oposição à luta operária e estudantil, numa demonstração clara de que houve uma mudança de comportamento e de mentalidade desta classe social em todo o país.

Muitos dirão que a classe média brasileira continua a mesma, pragmática, anti-social, racional, omissa e narcisista, mas ninguém poderá tirar dela a grande contribuição que vem dando ao país na defesa do meio ambiente. Por que essa mesma classe média continua fugindo do debate político, não sei. Talvez pela banalização da corrupção no país, que seria o mesmo motivo pelo qual a classe estudantil se distanciou dessa causa. Aliás, estamos vivendo hoje um longo jejum político das classes sociais no país. A operária e a sindical também perderam força, dizem que é pelo desencanto com o PT.

Informação, prevenção e ação

Mas, afinal, qual o setor da camada social brasileira está mais engajada politicamente? A classe C em diante virou lulista e é hoje o fiel da balança nas pesquisas políticas. A razão dessa idolatria não é partidária e muito menos política. É a opção por um governo generoso com os programas sociais elaborados para erradicar a miséria. Estudo o comportamento das classes sociais brasileira há anos. Principalmente a da classe média na área ambiental. Não através da imprensa porque a principal fonte dos jornalistas, neste assunto, continua sendo de origem política, intelectual e/ou de organismos internacionais que valorizam muito mais as pesquisas do que os estudos realísticos dos acontecimentos.

A análise que faço origina-se de estudos feitos na raiz do fato. Os exemplos são muitos. O registro mais recente que presenciei desse exército de voluntários anônimos na defesa da natureza brotou nas imediações do Córrego do Tamanduá, uma reserva aquífera e florestal adjacente à Estação Ecológica de Fechos, no município de Nova Lima, cuja sede fica a pouco mais de 20 km de Belo Horizonte. A área fica próxima à Mina de Tamanduá, da Vale, que segundo os ambientalistas, quer expandir a sua atividade mineradora para os lados da reserva vizinha a Fechos. A notícia soou como uma bomba nos condomínios próximos e logo surgiram os primeiros militantes espalhando o fato na comunidade. Aos poucos, e sem alardes maiores, os ambientalistas desentocaram-se, um a um, silenciosos como uma presa às vésperas de um ataque fulminante do inimigo.

A ação é organizada e, como sempre, liderada por pessoas da classe média. A resistência começou com trabalhos na comunidade, dentro do princípio de que o vizinho é o melhor amigo, por isso ele deve ser informado, protegido e trazido para a base do movimento. Com a vizinhança em alerta, o comando acionou o seu serviço de inteligência que direciona o plano de ação baseado na trilogia informação, prevenção e ação.

O mascote do movimento

Tudo isso feito em horas de folgas de médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, juristas, enfim, dos elementos da inteligência. Algo parecido com a estratégia de guerrilha, que recomenda um amplo conhecimento do terreno a ser ocupado. O site Primo – Primatas da Montanha (nome da ONG criada para proteger a reserva) funciona como uma cartilha. Nele, os voluntários encontram informações técnicas acerca do bem a ser protegido, mas a tática de ‘guerra’ é algo extremamente secreto.

Feito o trabalho comunitário, os ambientalistas partiram para a ação preventiva e protocolaram na Justiça uma representação contra a Vale, informando o Ministério Público do risco que a reserva está correndo, caso a empresa consiga o licenciamento ambiental para ocupar a mata. O passo seguinte foi a mobilização da imprensa. É aí que eu entro nessa história. Fui apresentado a um dos militantes pelo professor Fernando Massote, um defensor intransigente do meio ambiente e da democracia. Pela segunda causa, foi expulso do país e depois anistiado. Infiltrei-me no movimento e fui encarregado de auxiliar na divulgação do fato. Participei da última oficina de trabalho da ‘guerrilha’, que fez um boneco do macaco Sauá, que habita a mata ameaçada e está em extinção. O primata é hoje o mascote do movimento e vai desfilar no carnaval de São Sebastião de Águas Claras, distrito mais conhecido por Macacos, onde estão as principais reservas naturais da região.

Disposição para o compromisso

Por dever de ofício, avisei que, como jornalista e defensor intransigente da democracia, a nossa causa maior, eu tinha a obrigação de ouvir a Vale para preservar a equidade da notícia. A Vale deu a sua versão, de que não há projeto algum de expansão da Mina de Tamanduá, mas os ambientalistas não estão convencidos disso. Para eles, o ataque virá – não se sabe o dia e a hora, mas virá. O importante nisso tudo é a entrega desses elementos da classe média na defesa desta causa. É uma vigilância 24h, para a mobilização e a formação da opinião pública. O alvo é o agente causador do dano, que pode ser prejudicial ao homem ou a um grilo.

O importante para os ambientalistas é a preservação da vida. Às vezes há exageros. Mas é melhor errar por excesso de cuidados do que por omissão. Fico imaginando que se essa mesma disposição valesse para a defesa dos direitos humanos, do consumidor, da moralidade dos serviços públicos, entre tantos outros, teríamos um país-modelo no mundo. Falta, talvez, para uma entrega maior da classe média nestas causas, uma outra Eco-Rio, nos moldes da conferência de 1992, porém, voltada para o combate à corrupção, por exemplo.

Seria a grande oportunidade para a classe média assumir de vez a responsabilidade pela defesa de todos os interesses da sociedade, pela sua formação intelectual, disponibilidade de tempo, o compromisso com a comunidade e a importância histórica para a mudança social do país. Disposição para isso, ela tem e vem provando isso a todo momento, quando o assunto é meio ambiente.

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Jornalista

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