Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

A revolta popular e o golpe midiático

Por Luis Eustáquio Soares em 22/02/2011 na edição 630

As propriedades privadas, a material, a simbólica, a afetiva, a epistemológica, suas apropriações elitistas, são certamente o maior obstáculo contra a vida, maior que qualquer outro, que guerras, que preconceitos, que supostos terrorismos, que crise ecológica, pela singela razão de que as posses privadas do conjunto dos bens naturais e culturais constituem o centro irradiador e usurpador de tudo que humilha, submete, impõe, hierarquiza, terroriza, mata. É porque existe concentração de riqueza, roubo do trabalho comum, que as sociedades humanas, as ditas civilizadas, são o inferno que são, de modo que ou resolvemos essa questão ou nenhum dos problemas e desafios que nos tocam a todos, como habitantes deste planeta, serão realmente superados.

É porque existe concentração de riquezas que produzimos uma civilização na qual tudo é luta de classes, consciente e inconsciente, explícita e oculta. Não é possível um apenas artefato cultural que não pulse, em si, cenários diversos de luta de classes. Não é possível escrever um romance ou um poema nos quais matizes diversos de luta de classes não estejam presentes. Não é possível um único filme, seja comercial, seja autoral, em que a onipresença da luta de classes não se faça retumbante, à flor da pele, à flor de cada gesto, sorriso, diálogos entre personagens. Numa civilização do controle/concentração do excedente comumente produzido, a luta de classes é onipresente, inclusive e antes de tudo em sua suposta ausência, seja como prática social, seja como categoria analítica singular, insubstituível, para a leitura de qualquer acontecimento.

É sob esse ponto de vista que é necessário analisar a revolta popular do Egito como luta de classes, seja interna, entre os segmentos de classe do interior do Egito, seja externamente, entre segmentos de classe do sistema-mundo, os quais, para disfarçar a luta de classes, chamam-na de relações entre Ocidente e Oriente, entre civilização cristã e civilização muçulmana, aliados e não aliados, democracia e ditadura, civilização e barbárie.

Uma tentativa de rearranjo das elites

A ausência, na grande mídia, dessa categoria tão importante para analisar as revoltas populares dos países do Oriente Médio e do norte da África nada mais é que a lastimável constatação de que os detentores das propriedades privadas no sistema-mundo atual estão em extrema vantagem na luta de classes que subjaz a relação internacional entre os países, pois a sua simples ausência, como categoria central para a análise dos últimos acontecimentos, é razão suficiente para evidenciar o quanto as classes populares estão órfãs de um sistema planetário de mediação, de mídias, das e para as classes populares, de tal sorte a chamar a atenção para a necessidade de concentrar as energias libertárias no objetivo central de toda luta de classes, sob o ponto de vista dos oprimidos: a superação das hierarquias entre as classes sociais, produzindo o fim delas, das classes e suas hierarquias, através da apropriação coletiva das decisões que interessam no âmbito dos três poderes, executivo, judiciário e legislativo, além do midiático, do sistema produtivo e também ou antes de tudo no âmbito do poder militar, cuja força repressiva deve estar a serviço da desrepressão da vontade de justiça dos povos.

É por isso, porque tudo é luta de classes, que o concentrado sistema midiático planetário nada mais é que um desdobramento da concentração da riqueza no sistema-mundo, motivo pelo qual é implacavelmente usado como uma poderosa arma das classes dominantes contra as classes exploradas pelo mundo afora. Sob esse ponto de vista, quando os chamados canais privados e abertos da TV brasileira, antes de tudo a Globo, o SBT, a Record, a RedeTV, a Bandeirantes, noticiam a revolta popular no Egito chamando-a de luta contra a tirania, protagonizada por corajosos ativistas jovens, heróis do necessário porvir democrático dos países governados por déspotas aliados dos Estados Unidos e Israel (isso eles não disseram e nem dirão!), é porque, não resta dúvida: existe algo de podre no reino da Dinamarca desinformativa.

Tudo é muito óbvio, claro; a concentração midiática no sistema-mundo é arma de guerra das classes dominantes. A produção de notícias positivas, pelos canais privados da TV – no Brasil e do mundo todo –, é sinal de que a revolta popular no Egito está sofrendo um sério ataque de manipulação informativa, cujo objetivo é o de domesticar a revolta. É evidente, portanto, que a promoção midiática da revolta popular no Egito constitui um nítido golpe de traição informativa. Tal golpe tem como objetivo a canalização da revolta popular, a fim de que esta mude tudo sem mudar nada, produzindo uma revolução de fachada: a de um golpe de Estado do povo contra si mesmo, pois o que estamos presenciando no Egito, sob o ponto de vista da manipulação midiática, é uma tentativa de rearranjo de suas elites, no poder, a fim de que estas possam servir melhor aos interesses, no Oriente Médio, dos Estados Unidos e de Israel.

O povo, agente e paciente das revoltas

Tal rearranjo midiático da revolta popular no Egito tem sido produzido, ou falsamente editado, através de cinco estratégias correlacionadas, a saber: 1) Focar a revolta na saída de Hosni Said Mubarak, o presidente ditador, a fim de esconder que o problema da miséria no Egito está em relação direta com as políticas neoliberais promovidas no mundo todo pelo FMI, pelo Banco Mundial, pela Organização Mundial do Comércio, pela ONU, pelo, enfim, sistema planetário de extorsão das riquezas dos povos, que utiliza tais instituições, supostamente neutras, universais, para encobertar a colonização do mundo realizada, sem cessar, há pelo menos quinhentos anos pelos países centrais do Ocidente; 2) Focar a revolta na saída de Mubarak, desvinculando-o das forças armadas egípcias, ao destacar repetidamente que estas são benevolentes com os revoltosos, embora saibamos de sobra que essa benevolência é uma farsa – ou será que o atual Conselho Militar que tomou o lugar de Mubarak, no Egito, não constitui uma ditadura burguesa, a qual, inversamente da ditadura do operariado, tomou o poder, ainda que transitoriamente, com o evidente objetivo de preparar e garantir a perpetuação da ordem/desordem burguesa, inviabilizando, assim, qualquer revolução de fato?; 3) Focar a revolta na saída de um ditador, Mubarak, a fim de que os revoltosos não se rebelem contra a ditadura dos banqueiros e multinacionais do Ocidente (inclusive as multinacionais midiáticas); e ditadura porque seus diretores, gestores, donos não apenas não são eleitos democraticamente como também submetem presidentes eleitos e ditadores pelo mundo afora, forçando-os a agir contra os povos, para a realização sem fim de seus interesses mesquinhos e despóticos; 4) Focar a revolta popular na saída de Mubarak a fim de que os revoltosos elejam a democracia liberal do Ocidente como o exemplar modelo a ser seguido como a única saída da crise, o que significa transformar o Egito no que ele já é: um país de economia de mercado, de regime capitalista, cujos pobres passarão a ter o direito de votar na escolha unidimensional do regime que os exclui inevitavelmente: o regime da ditadura da ocidentalização liberal-burguesa do mundo; 5) Focar a revolta popular contra Mubarak instigando a população revoltosa a concentrar toda potência de rebelião num único homem, a fim de incorporar experiência midiático-golpista para novos ‘estímulos’ midiáticos à rebeldia popular, antes de tudo de jovens com suas ‘redes sociais’, com o propósito de preparar o caminho para retirar do poder líderes políticos não alinhados ou não estrategicamente interessantes ao sistema de concentração de renda internacional.

Essa quinta estratégia é nitidamente uma forma de manipulação do potencial de revolta dos povos, uma maneira de usar a revolta através de um dispositivo reflexivo, transformando o povo em agente e paciente de suas revoltas, de tal sorte a criar a ilusão de que os povos estejam lutando para as suas respectivas liberdades e justiças sociais, quando, na verdade, estão agindo a serviço dos interesses e classes sociais internas e externas que os oprimem.

Virtuais e viciosas redes sociais

Dizer, por outro lado, que a revolta popular do Egito tem sido combatida por armas midiáticas transnacionais, como um importante front de batalha da luta de classes no interior do sistema-mundo não significa que a rebelião do povo egípcio não seja legítima ou que seja uma inutilidade.

A revolta popular no Egito e nos países do Oriente Médio nos ensinam cinco coisas: 1) a necessidade da revolução sistêmica não só é necessária, como sempre foi, para que seja de fato uma revolução, como é igualmente atual e possível; 2) embora vivamos sob o signo da sociedade do espetáculo, da virtualidade midiática, o mundo continua o que sempre foi e será: real, concreto, de modo que a revolução é possível quando é igualmente real, concreta; quando ocupa as praças e as ruas, inviabilizando o funcionamento das instituições responsáveis pela manutenção da produção do capitalismo liberal-planetário; 3) a luta de classes deve ser assumida e vivenciada revolucionariamente em dois cenários: no cenário do interior dos países e no cenário da relação entre os países; 4) toda concentração de poder é uma ditadura, de modo que uma democracia revolucionária é aquela que exige democracia em todos os setores da sociedade, inclusive no setor midiático, controlado no mundo todo por plutocratas ditatoriais, porque não eleitos, porque produzem e distribuem o consumo de mídias que justifica sem cessar a vitória das classes dominantes, apresentando-as como louváveis, heroicas, democratas, livres, amáveis, alegres, como, enfim, o referencial por excelência de inclusão, de modo que ser incluído é se tornar parte da classe dominante; 5) a concentração midiática é um desdobramento evidente da concentração do poder econômico, logo é uma inevitabilidade da civilização liberal-burguesa, em cujo interior é improvável uma verdadeira democracia midiática.

Concentrando-nos no contexto brasileiro, ainda nos cabe uma sexta e inestimável aprendizagem com a revolta popular no Egito: a de que a mídia privada brasileira, principalmente a das privadas TVs abertas, usa o vocabulário que as classes dominantes do centro do capitalismo quer que elas utilizem, de sorte que de uma hora para outra magnânimos aliados, caso seja conveniente para as classes dominantes do sistema-mundo, passam a ser sanguinários ditadores; de uma hora para outra uma rebelião popular, sempre acusada de terrorismo ou simplesmente ignorada, passa a ser noticiada insistentemente como destemida luta pela democracia; de uma hora para outra, por outro lado, líderes populares, democraticamente eleitos, podem ser acusados de serem terroristas, fundamentalistas, ditadores e, em consequência, retirados do legítimo poder por ingênuos jovens formados por virtuais viciosas redes sociais, sempre com o apoio em bloco de golpistas corporações midiáticas nacionais e internacionais.

A potência insubmissa do impoder

É por isso, a propósito, que algumas perguntas ficam no ar: a mídia privada brasileira age como age, em consonância direta com os interesses das classes dominantes americanas, por ser burguesa e burguês defende burguês? Ou será que ela recebe orientação direta para agir como age, inclusive recebendo dinheiro para tal? Se nossa mídia privada recebe algum recurso financeiro externo para produzir desinformação, onde estão a Polícia Federal e o Ministério Público Federal? Ou será que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal constituem mais uma poderosa arma das classes dominantes internas e externas a favor da permanência do sistema de dominação e submissão do povo brasileiro?

Se assim for, além da necessidade urgente de democratização revolucionária de nossas golpistas mídias, temos também o desafio, dentre outros, de exigir que a Polícia Federal do Brasil e os Ministérios Públicos cumpram suas funções constitucionais, investigando e, cada seja necessário, acusando e prendendo agentes de sucessivos golpes contra a soberania do Brasil. Afinal, será mera coincidência o fato de que ainda não presenciamos a Polícia Federal e o Ministério Público acusando e incriminando diretores de multinacionais e donos das privadas mídias?

Verdade seja dita: os povos são de fato revolucionários quando combatem todas as formas de mediações, as midiáticas, as militares, as econômicas, as epistemológicas; e assumem integralmente seu próprio destino histórico tomando todos os poderes, através da potência insubmissa do impoder, ao encherem de si mesmos as ruas e praças do mundo.

Aí, sim, mais do que liberdade de expressão para as golpistas corporações de poder, toda expressão, a de qualquer um, tornar-se-á uma insubmissa liberdade e uma revolucionária forma de justiça.

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Poeta, escritor, ensaísta e professor na Universidade Federal do Espírito Santo

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