Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

A fraternidade da violência

Por Luciano Martins Costa em 05/11/2013 na edição 771

O Globo é o único entre os grandes jornais a manter o foco no grupo de trabalho formado por serviços de inteligência policial que investigam a organização conhecida como Black Blocs. Chamar de organização um coletivo de ativistas sem objetivos aparentes é apenas uma maneira de adequar a linguagem comum a um fenômeno ainda pouco conhecido no contexto da vida social. Trechos de conversações entre integrantes e apoiadores do movimento permitem notar que eles se chamam, entre si, de “irmãos” e “irmãs”.

A reportagem publicada pelo jornal carioca na edição de terça-feira (5/11) foi produzida a partir de fragmentos de informações originadas pela Polícia Federal e compartilhadas com outros órgãos públicos, que tentam criar uma estratégia para anular ou controlar a ação de vândalos durante passeatas de protesto e outras manifestações públicas.

Interessante observar que o propósito do grupo de trabalho não é impedir a expressão dos descontentamentos nas ruas, mas identificar os grupos violentos e reduzir os conflitos. As primeiras informações dão conta de que os blocos de mascarados são uma das expressões de um movimento que inclui hackers e delinquentes contumazes, lúmpens e jovens de classe abastada, a maioria dos quais com idade inferior a 25 anos. Muitos são universitários e estudantes do segundo grau, mas há entre eles os que não estudam nem trabalham.

Uma característica interessante é que não podem ser classificados como uma organização estruturada nos moldes tradicionais, mas funcionam de forma estruturante, ao produzir, com seus atos violentos, processos formais em instituições como a imprensa e os sistemas de segurança.

Segundo o Globo, os primeiros levantamentos da Polícia Federal permitem afirmar que as ações são incitadas por não mais do que 150 ativistas que atuam no Rio e em São Paulo. Mas há conexões com o movimento internacional chamado de Anonymous. Eles não têm líderes estabelecidos, mas formam massas que convergem e se compactam seguindo um sistema de comunicação pelas redes sociais.

Os grupos que se atiram ao vandalismo e atacam tanto a polícia quanto jornalistas e manifestantes funcionam como rebanhos ou hordas, e a maioria dos que têm sido detidos e identificados pela polícia não tem qualquer relevância na organização.

Massa e rebanho

Interessante observar que os incitadores não estão necessariamente nas ruas. Podem estar dentro de uma empresa ou de um órgão público, em um apartamento de classe média alta, se divertindo com a confusão e apreciando o poder da comunicação digital.

A técnica de mobilização é conhecida como “smart mobs”, ou mobilizações inteligentes, uma apropriação das convocações instantâneas para festas, shows e performances artísticas, conhecidas como “flash mobs”. Trata-se de promover ações coletivas a partir de uma agenda restrita, sem muitas explicações e justificativas. O propósito é justamente obter a adesão sem reflexões a atos que podem chegar a extremos, justamente porque a racionalidade é progressivamente anulada pela excitação crescente que explode com a violência.

O uso de expressões que remetem à ideia de uma fraternidade ajuda a formar entre seus integrantes a ilusão de um conjunto orgânico e de uma força política. No entanto, a ausência de uma estratégia e de objetivos define tal militância como antipolítica, ou seja, trata-se de uma força social que se opõe ao conceito democrático da distribuição equilibrada de poderes entre as representações de interesses difusos da sociedade.

Pode-se também notar, no conjunto das informações disponíveis sobre o fenômeno que tem tomado as ruas das grandes cidades brasileiras, que a opção pelo ativismo violento tem uma lógica semelhante ao das forças de repressão que se desviam do processo democrático e repetem as práticas da arbitrariedade que marcou o regime de exceção. Não há como escapar ao fato significativo de que, tanto os Black Blocs como os agentes públicos envolvidos em atos de violência se organizam em confrarias: os policiais que torturaram até a morte o pedreiro Amarildo Dias de Souza também se tratavam como “irmãos” e “irmãs”.

A fraternidade da violência tem muitas máscaras: uns se escondem sob o uniforme do Estado, outros se disfarçam de ativistas políticos.

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