Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

As lições que Hugo Chávez aprendeu

Por Alberto Dines em 23/01/2007 na edição 417

Crescimento com liberdade, progresso e Estado de Direito – essa foi a síntese política do discurso do presidente Lula no lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em Brasília, na segunda-feira (22/1). ‘Pouco me interessaria um aumento expressivo do PIB se isso implicasse, o mínimo que fosse, redução das liberdades democráticas. Assim como não adianta crescer sem distribuir, não adianta crescer sem democratizar’, disse o presidente.


Compromisso sucinto, veemente. E com ligeiro atraso.


Apresentado três dias antes no Rio de Janeiro, no encerramento da Cúpula do Mercosul, teria neutralizado o show autoritário protagonizado por Hugo Chávez. Enfiado naquele catatau de números & metas, o binômio desenvolvimento & democracia ganhou a posteriori uma dimensão política graças à cobertura da imprensa sobre o evento.


De volta à terra natal, no seu interminável programa dominical de TV, o caudilho venezuelano voltou a criticar a mídia brasileira. Agora está no seu direito, ao contrário do acontecido dias antes, quando fez as mesmas críticas na condição de hóspede do nosso governo.


Chávez foi imprudente, imiscuiu-se em questões internas de outro país, avançou o sinal, mas não por descuido. Foi deliberado. Seus ataques à mídia brasileira fazem parte de sua estratégia desestabilizadora e, forçoso reconhecer, não podem ser desconectados do desastrado pronunciamiento do presidente Lula, em novembro passado, às margens do Orenoco, quando comparou o desempenho da mídia brasileira nas últimas eleições ao desempenho da mídia venezuelana na tentativa de golpe, em 2002.


Avanços e retrocessos


Tudo indica que o governo e o partido do governo encerraram a sua inédita cruzada contra a imprensa – o que ainda se desconhece é a durabilidade e a intensidade dos seus efeitos. Num processo político caracterizado pela simplificação, bodes expiatórios tendem a se perenizar e a se transformar em preconceitos. Angustiado com a possibilidade de não se reeleger, o presidente Lula e seus auxiliares acionaram um processo de diabolização da mídia certos de que poderiam controlá-lo quando lhes aprouvesse.


O esperto Hugo Chávez vai se encarregar de mantê-lo aceso. Deve explorar tudo o que a nossa mídia disser a seu respeito para manter a pressão contra a mídia ‘burguesa’ do seu país. E se a cotação do petróleo não despencar, poderá até dar uma forcinha na instalação de uma mídia ‘bolivariana’ nas vizinhanças. Inclusive aqui. Não será complicado e, além disso, há muitas boquinhas famintas, como diria o especialista Roberto Jefferson.


Este observador acompanha há mais de 30 anos a ampliação do debate sobre a mídia em nosso país. Os avanços são visíveis, o retrocesso também. Uma coisa é levar a sociedade a engajar-se numa discussão vital sobre algo que lhe concerne. Outra coisa é aceitar que governo e governantes usem dos respectivos tacapes como instrumentos de media-criticism. Hugo Chávez aprendeu depressa.

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