Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Dunga, Lula, seleção e poder

Por Geraldo Muanis em 29/06/2010 na edição 596

O recente imbróglio do treinador Dunga com o jornalista Alex Escobar, da TV Globo, serviu para desnudar um pouco mais a quantas andam as relações de bastidores que permeiam a poderosa Vênus Platinada e a CBF. Remete, inclusive, a inevitáveis comparações com o poder político, logo depois que a emissora do Jardim Botânico monopolizou a audiência e passou a colocar e tirar presidentes. Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dobrou-se às inevitáveis negociações para que finalmente pudesse chegar são e salvo à Presidência da República, de outro lado, o técnico da Seleção brasileira exerce sua verve gaúcha e não se verga às pressões. Na queda de braço iniciada desde a Copa América, quando passou a quebrar os privilégios dos repórteres globais, o anão da Branca de Neve agigantou-se e obrigou os Marinho a segurarem a onda.

Em um episódio onde os erros estão dos dois lados, Dunga levou a melhor, pelo menos por enquanto. A opinião pública está a favor de seu trabalho à frente do escrete canarinho, por mais que os críticos de ontem e de hoje não gostem. Se é uma Seleção de resultados, o torcedor está feliz com isso e não está nem aí se vai ganhar a Copa do Mundo nos pênaltis ou por meio a zero. Vacinada pela sua desfaçatez em ignorar o movimento Diretas Já, a Globo penou muito com a ira do povo, que clamava nas praças e ruas para eleger seu presidente pelo voto direto. Na época, jornalistas foram hostilizados e ameaçados, ao som do refrão ‘o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo’.

Um dia, a Globo editou um debate Collor x Lula que tirou a vitória do petista. Depois, a poderosa TV colocou os cara-pintadas nas ruas e detonou o ‘caçador de marajás’. Para Lula conseguir chegar ao poder, foi preciso baixar a guarda, tomar a benção. E Lula tomou vinho com Alberico Souza Cruz, então o maior nome na escala do jornalismo. Quando Lula foi eleito, onde deu sua primeira e exclusiva entrevista? Na Rede Globo! Com Dunga, deu-se a mesma história, em uma articulação de bastidores costurada com a CBF e seu assessor de imprensa, Rodrigo Paiva, tendo que suar para aplacar a ira do rancoroso capitão do tetra. Assim que o treinador anunciou a lista de 23 jogadores para a Copa do Mundo da África, Dunga apareceu na bancada do Jornal Nacional, ao lado do Casal 20, William Bonner e Fátima Bernardes, para ser devidamente paparicado.

Técnico não é uma rainha da Inglaterra

Todavia, a concessão não implicou em submissão. O temperamento de Dunga difere do de Lula, embora a relação com seus respectivos subalternos seja muito semelhante. Basta reparar e comparar. Vejam qualquer apresentação pública do presidente Lula, seja em conferência no exterior ou na inauguração de qualquer evento do Bolsa Família nos grotões do Brasil. Os puxa-sacos estão sempre lá, dispostos a rir de qualquer troça idiota, por mais sem graça que seja. Um populismo atroz que enoja ainda mais devido à subserviência de ministros e demais capachos, sempre prontos para puxar uma salva de palmas sem qualquer propósito, ainda que Lula esteja filosofando sobre o nada absoluto ou tecendo comentários pertinentes sobre o futebol, Ronaldo, Dunga, Ganso…

Dunga, pelo menos, não se considera um estadista. Está ali, na fronteira gaúcha, ladeado pelo fiel escudeiro Jorginho que, embora evangélico, tem se mostrado tão raivoso quanto seu chefe. Capaz, inclusive, de exigir patriotismo e ufanismo daqueles que apenas desejam exercer o espírito crítico democraticamente. Quanto aos jogadores, todos rezam a mesma cartilha, falando em voz baixa, como cordeirinhos e servos de uma missão. A retórica é a mesma, como uma ladainha: não perder o foco, sem conquistas individuais, tudo pelo grupo, pois o mais importante em qualquer carreira de jogador é ganhar uma Copa do Mundo. Ninguém ali quer dinheiro. Doação e abnegação. E quem torcer contra estará traindo a pátria.

A Globo bancou um editorial em pleno Fantástico, condenando o ato de Dunga contra Alex Escobar.

‘O técnico Dunga não apresenta nas entrevistas comportamento compatível de alguém tão vitorioso no esporte. Com frequência, usa frases grosseiras e irônicas’, proferiu solenemente Tadeu Schmidt. Entretanto, o jornalista não explicou o motivo do atrito, que seria a recusa do intransigente e inflexível gauchão à negociata de bastidores entre o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e a Globo, para que esta tivesse três entrevistas exclusivas durante o Fantástico, após a vitória sobre os marfinenses. Dunga tem demonstrado que não é nenhuma rainha da Inglaterra e isso o povão, que gosta de futebol e quer ver o Brasil ser campeão, não esquecerá.

Silêncio sobre ‘violência’ contra jornalista

A deterioração das relações de Dunga com a emissora remete a maio de 2008, quando o Brasil fez um amistoso com a Venezuela em Boston. Na ocasião, o técnico vetou a participação de Diego e Robinho em programa. A aparição no JN teria sido uma trégua, rompida depois que Robinho foi entrevistado por Mauro Naves em um restaurante, durante um dia de folga dos jogadores. Nas Olimpíadas de Pequim (China), Dunga teria pedido a cabeça do jornalista Mário Jorge Guimarães, um dos primeiros repórteres do Globo Esporte (ao lado de Luiz Fernando Lima, Isabella Scalabrini, Raul Quadros e Marcelo Matte) e do primeiro time da emissora na cobertura da Seleção. O profissional acabou transferido para um cargo executivo no SporTV, canal esportivo por assinatura da Globo que Dunga criticou abertamente no ano passado por sua cobertura da Seleção.

Entretanto, percebeu que, nos portais da internet, colunas e blogs, a repercussão foi favorável a Dunga, com seu trabalho de resultados, sejam eles assegurados por uma estrela que carrega, pela arte de alguns jogadores ou por vitórias com a marca da sorte amarelinha e da incompetência alheia. As campanhas para calar a boca do locutor Galvão Bueno, justamente o maior centroavante do ufanismo brasileiro, e do jornalista Tadeu Schmidt, estão na rede mundial de computadores para quem quiser ver. Com todos os comentários críticos e impropérios para serem conferidos. Assim, a Globo, temendo uma crise maior, preferiu ficar de fora, pois em caso de fracasso fatalmente teria que arcar com o rótulo de vilã.

A História ensinou: melhor pegar carona nas Diretas Já. Hoje, a emissora, quando fala do passado recente do Brasil, passa ao largo de sua ‘amnésia’ e até parece que esteve erguendo tal bandeira desde o primeiro momento.

A Associação Brasileira de Imprensa emitiu nota oficial contra a atitude de Dunga, mas a Globo nunca mais tocou no assunto. Estranhamente, outras emissoras de canal aberto também nada falaram sobre a ‘violência’ contra Alex Escobar. Um silêncio constrangedor. Aliás, como também nada havia reverberado sobre a queda de Mário Jorge Guimarães, agora exposta pelos jornais e portais de internet.

De outro lado, após os panos quentes, Dunga retornou mais afável na coletiva antes do jogo contra Portugal. Até pediu desculpas. Mas ao povo brasileiro.

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Jornalista, Juiz de Fora, MG

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