Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

O silêncio da telepauta

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 20/12/2011 na edição 673

Na segunda-feira (12/12), o jornalista Bob Fernandes fez um comentário bastante relevante no Jornal da Gazeta. Referiu-se às graves denúncias feitas no livro de Amaury Ribeiro Jr (questão já discutida neste OI) e sugeriu que a omissão da mídia televisiva em relação à questão seria uma eloquente demonstração de partidarismo. Segundo Fernandes, o incidente, que envolve as principais lideranças da oposição (FHC e José Serra), está sendo tratado de maneira diametralmente oposta à atenção que foi dada pelas redes de TV às denúncias contra o governo, nem sempre fundadas ou formuladas por pessoas com credibilidade.

Fiquei curioso e assisti aos subsequentes Jornal da Band, Jornal da Globo e Jornal da Cultura para ver se algum deles tocaria no assunto ou daria uma resposta a Bob Fernandes. Nada. Nenhum telejornal daquela segunda-feira, 12/12/2011, tocou no assunto. Ponto para Gazeta, que furou os concorrentes, inclusive acusando-os com propriedade de omissão e partidarismo. Bob Fernandes cantou com antecedência a pauta omissa dos outros telejornais. Pelo tom enfático e pelas escolhas que fez ao tratar o assunto, os telespectadores ficaram com a impressão que ele sabia que os concorrentes do Jornal da Gazeta não tocariam no assunto. Impecável trabalho jornalístico, a merecer destaque e aplausos.

E os outros telejornais? Bem, num contexto de liberdade de imprensa ninguém pode querer definir a pauta dos concorrentes. Certamente eles não estão obrigados a tratar do mesmo assunto. A liberdade conferida aos jornalistas e aos veículos de comunicação não garante só diversidade, mas a possibilidade de fazer escolhas.

Fenômeno editorial

No dia 12/12/2011, oJornal da Band preferiu requentar as denúncias contra o ministro Fernando Pimentel, mas este assunto não foi abordado no Jornal Nacional. O Jornal da Cultura noticiou a entrega dos restos mortais de uma vítima da ditadura aos seus parentes pela ministra Maria do Rosário, mas isto não foi notícia nos outros telejornais. Apenas as mortes violentas, acidentes graves de trânsito e o Santos FC foram temas tratados por todos os telejornais de 12/12/2011, com especial destaque para Neymar.

A acusação de omissão feita por Bob Fernandes, entretanto, perdura e tem fundamento. Apesar da liberdade da imprensa, os veículos de comunicação têm o dever de proporcionar aos cidadãos as informações úteis e necessárias ao exercício da cidadania. Isto justifica as denúncias contra o governo, assim como aquelas feitas contra a oposição. Nenhum telejornal deixou de reverberar as graves acusações contra o governo Lula e contra ministros de Dilma. Portanto, nada justifica que alguns telejornais deem tratamento distinto às acusações que foram feitas à oposição por Amaury Ribeiro Jr. Como foi bem ressaltado por Bob Fernandes no Jornal da Gazeta, a credibilidade do autor de A privataria tucana não é menor que a do PM criminoso que acusou o ex-ministro Orlando Silva de corrupção.

Note-se, ademais, que o livro em questão vendeu 15 mil cópias num único dia. Portanto, além de seu conteúdo trazer graves acusações contra homens públicos que comandaram a República no passado, o livro é fenômeno editorial e como tal mereceria alguma atenção da mídia televisada (que sempre incensou os autores de best sellers, mesmo que o conteúdo destes não tivesse qualquer relevância política).

Omissão pautada

O mais interessante, entretanto, é que neste caso o fenômeno referido por Pierre Bourdieu em seu Sobre a televisãose confirmou por uma via oblíqua. Ao abordar o trabalho do jornalista, Bourdieu nos deu um panorama bastante interessante sobre a circulação circular da informação.

“Para os jornalistas, a leitura dos jornais é uma atividade indispensável e o clipping, um instrumento de trabalho para saber o que os outros disseram. Esse é um dos mecanismos pelos quais se gera a homogeneidade dos produtos propostos.”

Ainda segundo o prestigiado teórico francês:

“…equipes de redação, passa-se uma parte considerável do tempo falando de outros jornais e, em particular, do que ‘eles fizeram e nós não fizemos’ (‘deixamos escapar isso!’) e que deveriam ter feito – sem discussão – porque eles fizeram.”

Segundo Bourdieu, esta atitude faria com que os jornalistas fiquem submetidos a um verdadeiro “…fechamento mental”. Neste caso, o fechamento mental não ocorreu por causa da repetição do mesmo tema, mas por causa da omissão em relação ao tema referido por Bob Fernandes.

O primeiro telejornal do dia 12/12/2011 tratou das denúncias relevantes contra as principais lideranças da oposição e acusou os outros telejornais de omissão suspeita. Todos os outros telejornais daquele dia preferiram manter silêncio sobre a questão. Portanto, a omissão sobre as denúncias de Amaury Ribeiro Jr. parece ter sido pautado pelo Jornal da Band, Jornal da Globo e Jornal da Cultura.

“Jornalismo deformativo”

O procedimento dos telejornais no dia 12/12/2011 foi bastante questionável. Tudo se passou como se houvesse uma espécie de Manual do Telejornal utilizado por algumas redes de TV no qual estivesse escrito uma regra de ouro: “Quando as denúncias são contra o governo, as mesmas são reverberadas ainda que o autor destas não tenha lá muita credibilidade. Quando as denúncias são contra a oposição, silêncio jornalístico absoluto.” Felizmente, o louvável Jornal da Gazeta e seu comentarista Bob Fernandes não seguem este manual.

Infelizmente, porém, a fatia de audiência do Jornal da Gazeta é bem menor que a dos seus concorrentes. Para a esmagadora maioria dos telespectadores em 12/12/2011, o silêncio do Jornal da Band, Jornal da Globo e Jornal da Cultura sobre as graves acusações contra a oposição formou a opinião pública. Formou não, deformou. O “jornalismo deformativo”, neste caso, foi o contraponto ao jornalismo investigativo de Amaury Ribeiro Jr.?

***

[Fábio de Oliveira Ribeiro é advogado, Osasco, SP]

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