Quarta-feira, 27 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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No aniversário de Alberto Dines

Por Isabel Lustosa em 06/03/2012 na edição 684

Não pude participar dos festejos pelo aniversário de 80 anos de Alberto Dines, completados no último dia 19 de fevereiro. Fora do Brasil, recebo ecos das comemorações a partir de mensagens de amigos do Observatório da Imprensa, do antigo Jornal do Brasil, de amigos que se interessam pela obra de Stefan Zweig, de outros que pesquisam a Inquisição, do pessoal da TV Brasil que trabalha com ele, enfim, das tantas dimensões em que esse notável brasileiro tem se distinguido.

Nenhuma delas me agradou tanto quanto o artigo de Mauro Santayana publicado no site do Jornal do Brasil. O artigo do Santayana era a homenagem de um antigo companheiro de imprensa, da mesma idade do Dines, que registrava as qualidades desse que, dos 80 anos vividos, há pouco mais de dez é também meu amigo.

Santayana relembra os veículos em que trabalharam juntos: a revista Manchete, o Jornal do Brasil e a Folha de S.Paulo; e outros tantos em que Dines também atuou, como as revistas Cena Muda e Fatos e Fotos, o Última Hora, o Diário da Noite e a sucursal da Editora Abril em Lisboa. Destaca, e hoje isto já é história, como, na direção da redação do Jornal do Brasil, Dines demonstrou coragem e inteligência em vários episódios em que conseguiu driblar a censura do regime militar.

Respeito às diferenças

Hoje, é no Observatório da Imprensa, esse espaço único e privilegiado de análise do jornalismo contemporâneo, que Alberto Dines exerce seu jornalismo crítico. Ali ele produz um programa, de caráter também jornalístico, pois, mesmo seu profundo amor pela história não o afasta da vocação intrínseca de jornalista. O Observatório, como qualquer jornal, é obrigado por seu editor a alterar sua pauta, diante de acontecimentos extraordinários para analisar o comportamento que a imprensa adotou diante do fato.

Santayana destaca algumas qualidades de Alberto Dines que, entre muitas outras, o fazem-me admirá-lo e respeitá-lo: independência de julgamento e o profundo respeito às ideias alheias. Dines, a seu ver, pertence “ao clube dos que só são intolerantes com a intolerância”, dos que “acham natural que outros pensem de forma diferente”. E tem ainda a generosidade de “reconhecer o talento e a capacidade de trabalho dos colegas, ajudá-los na carreira, sem qualquer preocupação a não ser com o desempenho da equipe”.

Dou aqui o meu testemunho que comprova o de Santayana, da experiência de cooperação que venho tendo com Alberto Dines. Ela teve início depois do lançamento de meu livro Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência. Lançado pela Companhia das Letras, em 2000, meu livro tem em Dines um leitor entusiasmado. E isto já bastaria para fazer toda a sua glória. Foi a partir desse livro que começaram os convites para participar do programa Observatório da Imprensa, na hoje TV Brasil.

E assim conheci Alberto Dines, cuja presença elegante, simpática e charmosa cativa ao primeiro contato. É um homem dos salões, das reuniões amáveis, da boa conversa. No trabalho, está cercado por uma equipe de gente à qual ele trata com carinho, respeito e amizade. Sempre curioso, interessado, disposto a aprender com quem quer que seja e da geração que seja, Dines é capaz de se surpreender e de demonstrar, sem qualquer máscara, sua admiração e reconhecimento pelo trabalho dos outros.

Também sou testemunha desse respeito pelas opiniões diversas das suas, pois, mesmo nunca tendo discutido política um com o outro – a política que ocupa nossos debates é a do começo do século 19 –, sabemos, intuímos que pensamos diferente e isto nunca foi motivo de qualquer rusga ou estranhamento entre nós. Ao contrário, até faz com que vejamos essa diferença com aquele carinho que a gente tem com relação à excentricidade de um filho, irmão ou amigo, acompanhados de um balançar de cabeça e de um sorriso terno.

Capacidade de indignação

Hoje, me orgulho de ter em meu Currículo Lattes, como uma das realizações mais importantes de minha carreira, o fato de ter editado, junto com Alberto Dines, toda a coleção do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa. Quando ele me convidou eu não quis aceitar. Achei, sinceramente, que ele não conseguiria. Quem é que ia querer publicar uma coleção de 29 volumes volumosos de um jornal do começo do século 19? Em conseguindo a editora – a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo –, como faríamos para tratar todo esse material e escrever notas, enfim, dar um tratamento que justificasse o empreendimento?

Ele conseguiu. Me convenceu e, durante dois anos, trabalhamos em equipe, com a ajuda de Patrícia de Sousa Lima, no fichamento dos volumes e na produção de notas de abertura para quase todos eles. Mas isto não foi tudo, Dines também se dispôs a produzir dois volumes extras. Um reunindo textos de autores que contemplassem vários aspectos relacionados ao jornal e ao seu editor e, outro, reunindo informações sobre obras e documentos disponíveis para os que se dedicassem ao estudo da vida e da obra de Hipólito da Costa.

Concebemos juntos esse projeto e reunimos um elenco de grandes especialistas que produziram análises do Correio Braziliense, da trajetória de Hipólito da Costa e do contexto em que viveu. Editados junto com a coleção, esses dois volumes hoje são, junto com a mesma, obra que vejo, com orgulho, sempre citada nos trabalhos de colegas que se debruçam sobre esse objeto.

Não posso deixar de registrar sua indignação com o silêncio da imprensa e da academia quando, durante as comemorações dos 200 da imprensa brasileira, pouca gente falou sobre Hipólito da Costa. Brinquei com ele durante um programa do Observatório, pois sua reação era tão apaixonada, como se Hipólito fosse um velho companheiro de lutas que estivesse sendo privado das honras que seu esforço mereceria. Fiquei querendo ainda mais bem a Alberto Dines por vê-lo, a essa altura da vida, ser capaz de um sentimento de indignação tão genuíno, vivo e vibrante.

***

[Isabel Lustosa é historiadora]

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