Domingo, 07 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Ecologia e lucros

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 20/03/2012 na edição 686

Os cientistas demostraram que parte da energia solar é absorvida pela Terra e parte dela é refletida (ver aqui). A parcela da energia solar refletida pode voltar para o espaço ou ficar presa na atmosfera produzindo o que eles chamam de efeito-estufa. O aumento do efeito-estufa provocado pelas emissões de carbono provocou o aquecimento global (ver aqui).

O aquecimento global provocou uma diminuição da calota polar e, portanto, da superfície de reflexão dos raios solares. Menos raios solares refletidos, menos efeito-estufa, certo? Errado. De acordo com os cientistas, a redução da calota polar acarreta um aumento, e não uma diminuição do efeito. A maior absorção de energia solar provoca mais evaporação dos oceanos e, portanto, um aumento do efeito-estufa.

O que ocorreria se nós aumentássemos artificialmente a reflexão dos raios solares? Isto poderia acarretar uma redução do efeito-estufa e o resfriamento do clima. Mas isto somente ocorreria se não continuássemos a produzir efeito-estufa mediante emissões de carbono. Aumentar artificialmente a reflexão do Sol e preservar os mesmos níveis de emissão de carbono é algo como tapar o sol com uma peneira, uma boa intenção que não produz necessariamente resultados satisfatórios.

Propaganda enganosa

Mas e se o resultado satisfatório não for necessariamente ecológico? Neste caso a linguagem ecológica pode produzir bons lucros. No programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios levado ao ar no domingo (18/3), foi apresentada uma nova espécie de tinta de uso externo que proporciona uma maior reflexão raios solares. Produzida com minerais e microesferas de vidro, a tinta funciona como uma espécie de isolante térmico e, segundo seu fabricante e os responsáveis pelo programa, a tinta é ecológica e sustentável porque reduz o consumo de energia com sistemas de condicionamento de ar.

Mas neste caso ecologia e sustentabilidade não têm nada a ver com os benefícios que a tinta produziria para a sociedade. E sim, com os lucros que a linguagem ecológica produzirá para o fabricante. De fato, a produção desta nova tinta acarreta consumo de energia no processo industrial e emissões de carbono durante o transporte dos insumos para a fábrica e do produto industrializado até os locais de distribuição e utilização. Portanto, mesmo que o uso desta tinta provoque redução na produção e consumo de tintas concorrentes (não ecológicas), o aumento do efeito-estufa resultante deste novo processo industrial anulará os supostos benefícios proporcionados pelo uso da tinta.

No caso analisado, linguagem, propaganda e ciência parecem não se ajustar muito bem. O caso analisado parece confirmar a tese de Pierre Bourdieu de que “…hoje, cada vez mais, o mercado é reconhecido como instância legítima de legitimação” (Sobre a televisão, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997. O mercado pode até legitimar o discurso ecológico do fabricante da nova tinta e do programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios de 18/03/2012. Mas isto não tem nada a ver com ecologia, e sim, com os lucros. Citei este exemplo, mas muitos outros casos semelhantes poderiam ser analisados e discutidos. De fato “ecologia” e “sustentabilidade” parecem estar sendo transformadas em verdadeiros mantras por industriais, agências de propaganda e programas de TV orientados pelos e para os negócios.

Em nome da maximização dos lucros, os industriais e a mídia preferem ignorar o rigor científico na hora de fazer propaganda? Bem… propaganda enganosa, meus caros, pode e deve ser coibida na forma do Código de Defesa do Consumidor.

***

[Fábio de Oliveira Ribeiro é advogado, Osasco, SP]

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