Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Cumpriu a profecia de que seria o maior humorista do país

Por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho em 27/03/2012 na edição 687

Conheci o Chico Anysio na rádio Mayrink Veiga, no final dos anos 50. Na época não sabia direito quem era o Chico, mas o Haroldo Barbosa me disse que ele seria, em pouco tempo, inevitavelmente, o maior humorista do Brasil.

Redator, ator, locutor, dublador, comentarista esportivo, compositor e artista plástico, o Chico era mesmo completo. A velha história “se o Chico tivesse nascido nos Estados Unidos seria um dos maiores do mundo” pode ser repetida à exaustão, por ser absolutamente verdadeira.

O Chico entrou no rádio por causa de um tênis. O time de futebol dele ia jogar no Fluminense, que alugava o campo. Lá era obrigatório jogar descalço para não estragar a grama. Na última hora mudaram para o Aliança, de terra, onde era preciso usar tênis. Chico foi buscar o calçado e deu com sua irmã, Lupe Gigliotti, saindo para um teste na rádio Guanabara.

Desistiu do jogo e foi com a irmã. Fez o teste e passou como ator e locutor. Depois descobriram que ele era um grande imitador de vozes e, de galã de radionovelas, virou humorista. Haroldo Barbosa, primeiro a acreditar nele, levou a sua descoberta para a rádio Mayrink Veiga, onde ele passou a criar tipos e escrever textos humorísticos.

Em 1957, o Haroldo levou o Chico para a TV Rio, para interpretar um tio nordestino da Ema D'Ávila em “Aí Vem Dona Isaura”. Em 1959, Castro Barbosa, parceiro do Lauro Borges em “PRK-30”, criou na TV Rio o “Só Tem Tantã”, que se passava em um hospício. Mas, como só tinha mesmo o Chico Anysio, o programa virou “Chico Total”.

Revolução na TV

Em 1960, o Chico Anysio fez uma revolução na TV com o “Chico Anysio Show”. Carlos Manga, tarimbado diretor de cinema, aplicou a técnica de montagem de filmes, cortando, pela primeira vez no Brasil, as fitas de vídeo e possibilitando o encontro entre diversos personagens do Chico e, também, do próprio Chico com seus personagens. O programa estourou em todo o país, fazendo daquelas noites um momento quase obrigatório diante da TV.

Em 1966, ele me indicou para ser diretor-geral do Telecentro da TV Tupi. Nessa época, o Chico se separou, e eu também. Com o [redator de TV] Robertinho Silveira, montamos uma república na rua Gustavo Sampaio, no Leme, e moramos juntos, os três solteirões, por um ano. Todo o cuidado era pouco para evitar o encontro entre nossas namoradas, pois, às vezes, poderiam ser as mesmas.

Na Globo

Em 1967, fui para a Globo, que estava quase falida, visto que o [grupo] Time-Life havia fechado a torneirinha do dinheiro. Em 1968, pensamos no Chico Anysio para 1969, mas ele estava comprometido com o teatro no Rio e com turnês por todo o Brasil, e não tínhamos dinheiro para montar um elenco de apoio.

No final de 1969, ele me procurou com um diretor do supermercado Disco. O cliente queria fazer com ele um especial mensal, a partir de março de 1970. Eu disse ao Disco que não poderia haver troca com espaço comercial.

A Globo, mesmo torcendo o nariz, aceitou a contratação do Chico por intermédio do Disco e foi criado o “Chico Anysio Especial”, um formato bolado por ele mesmo, no qual aparecia de cara limpa, em externas, em vários lugares do Rio, e inventava piadas na hora. A direção era do Daniel Filho e depois do Marlos Andreucci. Quando vi o primeiro programa, disse ao Chico: “Você vai inovar de novo”.

O programa era moderno e conquistou boa audiência, mas o trabalho era muito, e Chico tinha compromissos agendados antes. Só pudemos fazer sete episódios.

Em um domingo, 3 de dezembro de 1972, briguei com o Chacrinha. Ele deixou a Globo, e eu fiquei com verba para realizar dois novos programas semanais. Um seria, obviamente, o Chico Anysio. Logo na segunda-feira liguei para ele, que estava fora cumprindo sua agenda de shows.

Na quarta, 6 de dezembro de 1972, ele chegou com o projeto do “Chico City”, uma cidade nordestina onde caberiam todos os seus tipos e mais os que ele viria a criar.

Imbatível

Os personagens do Chico são mais de 200. Um não tem nada a ver com o outro, em carne, osso e alma. E, mesmo sem fazer tipo, se apresentando de cara limpa, com sua voz bem colocada e com um ritmo de narração perfeito, Chico Anysio era imbatível.

Quando precisei dele no “Fantástico”, o Chico tornou-se a principal atração do programa, narrando as aventuras do Azambuja.

Não é preciso narrar a trajetória de sucesso do Chico na Globo e em outras emissoras, mas vale lembrar o curioso programa “Linguinha x Mr. Yes” (transmitido após o “Jornal Nacional”, dava mais audiência que o próprio jornal) e a eterna “Escolinha do Professor Raimundo”, que tive a ideia de colocar no ar de segunda a sexta, e, de forma surpreendente, levantou os índices do horário.

O Chico ia muito à minha sala para fazer sugestões sobre toda a programação da Globo e para pedir muitas coisas, jamais para ele, sempre para os colegas. Foi ele quem, em 1972, enviou uma carta ao Caetano Veloso e ao Gilberto Gil convocando-os a retornar do exílio em Londres.

Chico Anysio foi um marco na minha vida, pela inteligência, sensibilidade e talento. Aos 80, após enfrentar galhardamente quatro meses de hospital, saiu direto para o estúdio de gravação. O Chico Anysio era um show.

***

[José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, 76, foi executivo da Globo e é hoje diretor-presidente da TV Vanguarda]

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