Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

José Queirós

27/03/2012 na edição 687

“Terça-feira, 20. Ben­fica e FC Porto dis­pu­tam uma das meias-finais da Taça da Liga. O PÚBLICO dedica duas pági­nas à ante­ci­pa­ção do encon­tro. Plan­téis pro­vá­veis, esta­tís­ti­cas, decla­ra­ções dos trei­na­do­res, a ali­men­tar o inte­resse dos que não dis­pen­sam o espaço que o jor­nal dedica ao futebol.

Quarta-feira, 21. Ganhou o Ben­fica. Os lei­to­res que gos­tam de fute­bol já o sabem, mas que­rem conhe­cer o olhar dos jor­na­lis­tas sobre as inci­dên­cias do jogo, ver ou rever as decla­ra­ções dos pro­ta­go­nis­tas, pon­de­rar a aná­lise crí­tica dos espe­ci­a­lis­tas. Duas pági­nas intei­ras e a foto­gra­fia prin­ci­pal da capa.

Quinta-feira, 22. Falta saber quem será o outro fina­lista da com­pe­ti­ção. A res­posta será dada em Bar­ce­los, onde o Gil Vicente recebe o Spor­ting de Braga na segunda meia-final. Nem uma linha no jor­nal. Quem não sou­ber que nessa data se conhe­cerá o adver­sá­rio do Ben­fica na final não o ficará a saber pelas pági­nas de Des­porto do PÚBLICO.

Sexta-feira, 23. Ganha­ram os de Bar­ce­los. Será a pri­meira final do Gil Vicente numa com­pe­ti­ção naci­o­nal. Feito iné­dito, por­tanto. O jogo não foi banal, teve revi­ra­volta nos últi­mos minu­tos e foi deci­dido com recurso a gran­des pena­li­da­des. Quem não o viu encon­trou no jor­nal um curto relato — nada de reac­ções, nada de aná­lise crí­tica — pagi­nado a duas colu­nas na segunda página do Des­porto (a pri­meira era dedi­cada a um joga­dor do Ben­fica). Na capa, nem uma referência.

A desi­gual­dade de tra­ta­mento entre as duas meias-finais dis­pu­ta­das esta semana foi gri­tante. A dife­rença de peso — em cur­rí­culo, recur­sos, adep­tos — entre os clu­bes envol­vi­dos em cada um dos jogos não pode justificá-la. Tratava-se de emba­tes com idên­tica impor­tân­cia para o apu­ra­mento dos fina­lis­tas de uma com­pe­ti­ção nacional.

O lei­tor Miguel Ângelo de Almeida cri­ti­cou, com razão, o cri­té­rio edi­to­rial seguido. Espe­ci­al­mente no jor­nal de quinta-feira. Declara o seu “espanto” por não ter encon­trado, “nem na ver­são em papel nem online’, qual­quer ‘refe­rên­cia’, ‘nos mol­des que o Público tem por hábito fazer’, à dis­puta, nesse dia, ‘da meia-final da Taça da Liga entre o Gil Vicente e o Spor­ting de Braga’.

Alarga a crí­tica e situa-a no âmbito da recente mudança grá­fica do PÚBLICO, queixando-se de que o jor­nal ‘dei­xou de refe­rir cer­tos jogos de fute­bol que se rea­li­zam quer à sexta-feira quer à segunda-feira’, quando entre as equi­pas que os dis­pu­tam “não estão o Porto, Ben­fica e Spor­ting’. Fala de ‘sone­ga­ção de infor­ma­ção’ e ques­ti­ona se o PÚBLICO con­si­dera acei­tá­vel essa dis­cri­mi­na­ção posi­tiva “dos cha­ma­dos três gran­des’. Pede que seja cla­ri­fi­cada a ori­en­ta­ção do jor­nal nesta matéria.

A essa ques­tão res­ponde Jorge Miguel Matias, edi­tor do Des­porto, infor­mando que, “de facto, a alte­ra­ção grá­fica do jor­nal obriga os dife­ren­tes edi­to­res a apos­tar em deter­mi­na­dos temas em detri­mento de outros’, com a inten­ção de que ‘o jor­nal desen­volva com mais pro­fun­di­dade dois ou três temas por dia, em vez de ofe­re­cer uma mul­ti­pli­ci­dade de assun­tos tra­ta­dos mui­tas vezes de forma ligeira, em notí­cias com uma dimen­são média ou redu­zida’. Trata-se pois de uma alte­ra­ção de fundo, a que valerá pena vol­tar em outra oca­sião, já que os cri­té­rios de selec­ção temá­tica resul­tan­tes do novo figu­rino edi­to­rial e grá­fico têm levado alguns lei­to­res a colo­car dúvi­das ou objec­ções que mere­cem ser analisadas.

Ficando hoje pelo Des­porto, devo sali­en­tar que o edi­tor não ins­creve no âmbito dessa alte­ra­ção o caso da omis­são noti­ci­osa do jogo de Bar­ce­los, acerca do qual reco­nhece que ‘a não publi­ca­ção de nenhuma infor­ma­ção (no papel e no online) foi um erro de edi­ção’, pelo qual apre­senta des­cul­pas aos lei­to­res. ‘A sec­ção de Des­porto’, escreve, ‘deve­ria ter publi­cado alguma infor­ma­ção, mesmo que pequena’, pois ‘tratava-se de uma meia-final de uma com­pe­ti­ção ofi­cial e, por­tanto, a rele­vân­cia era inequívoca’.

Afir­mando que se man­tém ‘a polí­tica de não limi­tar o acom­pa­nha­mento noti­ci­oso aos cha­ma­dos três gran­des’, Jorge Miguel Matias alega que ‘prova disso mesmo é o facto de, pre­ci­sa­mente pelo facto de o Sp. Braga estar na luta pelo título de cam­peão naci­o­nal, ter­mos pas­sado a publi­car um texto de ante­ci­pa­ção dos seus jogos’.

É com­pre­en­sí­vel que moti­vos de rele­vân­cia e audi­ên­cia levem o PÚBLICO, como aliás toda a imprensa, a pri­vi­le­giar o espaço con­ce­dido aos jogos e às notí­cias dos mai­o­res clu­bes. Mas não é acei­tá­vel — qual­quer que seja o modelo grá­fico ou o espaço dis­po­ní­vel — que essa dife­rença ultra­passe os limi­tes exi­gi­dos pela isen­ção no acom­pa­nha­mento de com­pe­ti­ções nas quais todos os par­ti­ci­pan­tes estão, à par­tida, em situ­a­ção de igual­dade for­mal. E muito menos que o dese­qui­lí­brio possa che­gar a assu­mir a forma de omis­são. Sendo isto válido para qual­quer das edi­ções do jor­nal, é de espe­rar que o esforço por uma abor­da­gem mais equi­li­brada seja maior no Público Online, em que não exis­tem os cons­tran­gi­men­tos de espaço pró­prios da edi­ção impressa.

O PÚBLICO não deve esque­cer que têm lei­to­res em todo o país e que se con­tam entre eles adep­tos de clu­bes como o Spor­ting de Braga ou o Gil Vicente. Que exis­tem ainda os que se inte­res­sam por fute­bol à mar­gem das pai­xões clu­bís­ti­cas. E que os últi­mos anos têm mos­trado que a tríade dos ‘gran­des’ não está fixada para a eternidade.

Pro­tes­tos diplomáticos

Nos últi­mos meses foram publi­ca­das neste jor­nal várias notí­cias sobre o caso de um ex-vice-cônsul de Por­tu­gal em Porto Ale­gre, que é pro­cu­rado pelas auto­ri­da­des bra­si­lei­ras no âmbito de uma acu­sa­ção de burla, e que entre­tanto per­deu, por des­pe­di­mento, o esta­tuto de fun­ci­o­ná­rio do Minis­té­rio dos Negó­cios Estran­gei­ros (MNE).

Quando, a 30 de Janeiro pas­sado, a notí­cia do seu afas­ta­mento foi publi­cada na edi­ção on line sob o título ‘Ex-diplomata por­tu­guês no Bra­sil des­pe­dido com justa causa’, o lei­tor Ber­nardo Ribeiro da Cunha, identificando-se como diplo­mata, enviou-me um pedido de rec­ti­fi­ca­ção (que trans­miti à direc­ção do jor­nal), ale­gando que esse título ‘revela um pro­fundo erro’, já que a pes­soa a que diz res­peito ‘não inte­gra a cate­go­ria dos diplo­ma­tas por­tu­gue­sas’. Na mesma data, mas na edi­ção impressa, a qua­li­fi­ca­ção em causa não figu­rava no título, mas apa­re­cia na aber­tura da peça, que refe­ria o ‘diplo­mata envol­vido no desa­pa­re­ci­mento de mais de um milhão de euros’ que lhe teriam sido con­fi­a­dos pela arqui­di­o­cese de Porto Alegre.

A 2 de Feve­reiro, a Asso­ci­a­ção Sin­di­cal dos Diplo­ma­tas Por­tu­gue­ses (ASDP) deu-me conta de um comu­ni­cado envi­ado à direc­tora do PÚBLICO, em que se lia: ‘Urge cla­ri­fi­car que a pes­soa refe­rida nesta notí­cia não inte­gra o Ser­viço Diplo­má­tico, ao qual ape­nas pode­rão ace­der os cida­dãos que obte­nham apro­va­ção em con­curso público espe­cí­fico e que é regido por esta­tuto pro­fis­si­o­nal pró­prio’. Acres­cen­tava a pro­pó­sito a asso­ci­a­ção sin­di­cal que as fun­ções de vice-cônsul, para as quais ‘o ele­mento refe­rido na notí­cia’ fora nome­ado são regu­la­das por um diploma sobre o qual emi­tira um pare­cer nega­tivo, ‘desig­na­da­mente pelo grau de dis­cri­ci­o­na­ri­e­dade e ausên­cia de trans­pa­rên­cia no pro­cesso de sele­ção dos vice-cônsules’.

Uma semana depois, nova notí­cia sobre o caso de Porto Ale­gre insis­tia no qua­li­fi­ca­tivo ‘ex-diplomata’ para refe­rir o ex-funcionário do MNE, dando ori­gem a nova recla­ma­ção da ASDP, em que se refe­ria que ‘a repe­ti­ção do erro é da auto­ria da mesma jor­na­lista’. Não é assim. Essa jor­na­lista, Mari­ana Oli­veira, que tem con­ti­nu­ado a acom­pa­nhar o caso (ver nome­a­da­mente as notí­cias de 7 e 14 deste mês) informou-me no pas­sado dia 12 de que pedira aos edi­to­res do jor­nal que não colo­cas­sem a pala­vra ‘diplo­mata’ nos títu­los e aber­tu­ras das suas notí­cias sobre a ale­gada burla, o que ela pró­pria dei­xara de fazer após a pri­meira recla­ma­ção. Terá sido ouvida, por­que, e pela pri­meira vez, o termo desa­pa­re­ceu na notí­cia publi­cada dois dias depois.

Haverá quem, defen­dendo o uso do termo diplo­mata num vago sen­tido lato, possa ver algum laivo de cor­po­ra­ti­vismo nos pro­tes­tos rece­bi­dos, mas são pro­tes­tos jus­ti­fi­ca­dos. O ex-funcionário do MNE nunca per­ten­ceu de facto ao Ser­viço Diplo­má­tico, e é natu­ral que os que o inte­gram não gos­tem de ver a diplo­ma­cia por­tu­guesa asso­ci­ada a acu­sa­ções criminais.

Ao longo de várias sema­nas, per­gun­tei à direc­ção do jor­nal se con­cor­dava com o teor das recla­ma­ções e se iria ser feita uma cor­rec­ção. Não tendo rece­bido res­posta, nem tendo sido publi­cada qual­quer rec­ti­fi­ca­ção, não estou em con­di­ções de asse­gu­rar que o erro não se repetirá.”

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