Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Educação, política e leitura de jornais

Por Gabriel Perissé em 22/06/2010 na edição 595

O blogue do atual secretário da Educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato Souza, pouco se refere aos temas educacionais. Educação não parece ser mais importante do que as questões políticas, cujo pano de fundo é a campanha presidencial de José Serra.


Nas cinco postagens de junho, Paulo Renato acusou Lula de não ter compromisso com a verdade (14/06), ‘comemorou’ o que ele considera uma derrota diplomática do governo Lula no caso do Irã (10/06), reproduziu texto de FHC publicado no Estadão sobre a política externa brasileira, no mesmo dia, parte de um artigo do economista Luiz Alfredo Raposo favorável ao governo Fernando Henrique (07/06) e manifestou seu otimismo ao ver o apoio que o presidente Alvaro Uribe recebe na Colômbia (02/06).


As nove postagens do mês de maio se voltam para a defesa do presidenciável Serra, para o ataque a Lula e ao PT, para questões de política externa. Das cinco postagens de abril, duas se referem à Educação em São Paulo, desqualificando a greve dos professores e defendendo o que chama de política de valorização docente que, na prática, atribui aos professores a total responsabilidade pelos problemas que a Educação paulista acumulou em quase duas décadas de gestão PSDB. As outras três postagens de abril enaltecem José Serra e FHC.


Secretaria teve que convocar professores ‘reprovados’


Em março, as oito postagens se dividem entre propagandear os feitos de José Serra (31/03), atacar Lula (24/03), reforçar sua postura contrária a negociar com os professores grevistas (17/03), reproduzir artigo de José Serra publicado no Estadão (15/03), comentar a ‘degradação moral da política externa de Lula’ (11/03), reproduzir artigo de FHC publicado no Estadão (08/03), reproduzir parte de seu artigo publicado na Folha defendendo supostas melhorias educacionais em São Paulo (04/03) e elogiar Tancredo Neves, associando-o a José Serra (03/03).


Nos meses de janeiro e fevereiro, do total de 10 postagens, somente uma, em 28 de janeiro, remete à Educação, e o faz para justificar o injustificável: depois de submeter os professores temporários a uma avaliação humilhante, a Secretaria tem de desautorizar-se e convocar professores ‘reprovados’. O problema, na verdade, está no número absurdo de temporários e em não se dar à prática do magistério as condições necessárias para que se torne uma profissão prestigiosa e atraente.


O que terá o convênio a ver com ano de eleições?


Vê-se, portanto, que o secretário de Educação está empenhado é em política partidária. A Educação o preocupa na medida em que estejam em jogo sua imagem e a imagem do PSDB paulista.


Seria de se esperar, no entanto, que Paulo Renato anunciasse e detalhasse melhor, por exemplo, o convênio que a Secretaria de Educação celebrou recentemente, assinando 14 jornais da Associação Paulista de Jornais (APJ) a serem distribuídos nas salas de aula da rede estadual de ensino ao longo do próximo semestre.


Ora, por que investir mais de 700 mil reais por ano nessa iniciativa? No site da APJ mencionam-se os 14 jornais, de cidades importantes do interior de São Paulo, campos de disputa política. Um desses jornais, O Diário de Mogi, foi homenageado em dezembro de 2007 por seus 50 anos de atividade. A ideia partiu do então deputado Marco Bertaiolli, hoje prefeito de Mogi das Cruzes, e do deputado Estevão Galvão, ambos do DEM, principal aliado do PSDB.


A história se repetiu quando outro dos jornais contemplados pelo convênio, O imparcial, recebeu em junho de 2009 uma nada imparcial homenagem pública por seus 70 anos de existência. A homenagem foi organizada pelo deputado estadual Mauro Bragato, pelos vereadores de Presidente Prudente Izaque Silva e Natanael Gonzaga, pelo prefeito de Narandiba (SP), Ênio Magro, e pelo secretário estadual de Transportes Mauro Arce, não por acaso, todos do PSDB.


O Jornal de Limeira – que também se define como imparcial – não poupa Lula e Dilma em artigos opinativos e – o que talvez seja ainda mais contundente (e didático!) – nas charges de Flávio Dealmeida:




Terá sido a generosa assinatura desses jornais a melhor decisão, do ponto de vista pedagógico? Os professores foram consultados a respeito? Não se esconde aí nenhum tipo de politização indevida? O que terá esse convênio a ver com ano de eleições?

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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