Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Ética no jornalismo esportivo brasileiro

Por Luis Peazê em 15/06/2010 na edição 594

Na apresentação da TV Manchete da sua programação para a Copa do Mundo de 1990, em Roma, ouvi do próprio João Saldanha uma frase recorrente no mundo da bola seguida de risos saudosos, mas que esconde, ou revela, nas entrelinhas, a fragilidade potencial da deontologia na cobertura setorial do futebol, por jornalistas brasileiros: ‘Jogador não casa com a minha filha’.

Era um almoço, com a presença de Adolfo Bloch, para um grupo seleto de profissionais de mídia, da bola e o time que cobriria a Copa em Roma, por aquela extinta emissora; de repórteres a ex-jogadores, de comentaristas a juiz de futebol; Armando Marques representava esta última categoria, Falcão aqueles outros, e com o saudoso João ‘Sem Medo’ presente, tenho certeza que os demais jornalistas daquele almoço da sede da antiga Manchete não ficarão chateados se eu não os mencionar. Porém, daquele breve convívio, e juntando com outros episódios que presenciei no meio do futebol, carrego a sensação de que a ética, tanto normativa, quanto a ética de um modo geral, é negligenciada com frequência, e impunemente, no jornalismo brasileiro.

A indústria do esporte e a natureza deste, que é uma das atividades humanas mais espetaculares do planeta, são um desafio sem precedente para o jornalista. A visibilidade e dependência cada vez maiores da figura do patrocinador no cenário das quatro linhas, que encerram 23 homens correndo atrás de uma coisa redonda, cada vez mais ligeira, são forças corruptoras muito fortes. O terceiro bico deste triângulo das bermudas, os meios de comunicação, enquanto empresas, completam a pressão aos jornalistas.

Simples esquecimento

Uma declaração de Ezequiel Fernández (jornalista argentino) no Seminário de Periodismo, realizado no final de 2009 em Medelín, às vésperas do campeonato Sul Americano, e repetida no Primeiro Encontro sobre Ética no Jornalismo Esportivo, realizado em Buenos Aires, na Universidade de Palermo (maio último), talvez levante a questão que pode estar ameaçando a ética nas coberturas de futebol, uma questão que não temos discutido aqui no Brasil há algum tempo, pelo menos em evento reunindo profissionais de todo o país:

‘Os mundos do esporte e do jornalismo esportivo se baseiam no resultado, quando o importante são os fatos.’

E ele completa, o que todos nós sabemos, mas que na cobertura diária do futebol não é levado a sério:

‘Informação não se compra nem se vende.. para o jornalista não é necessário mentir, basta omitir…’

A isso eu acrescentaria o que tem sido evidente como nunca, ou como sempre foi, entre os setoristas dos ‘boleiros’, mas que já no início da cobertura desta Copa do Mundo de 2010 na África do Sul tem sido, a meu ver, demasiado: a prática de fabricar notícia pela provocação da polêmica.

Talvez seja a contenda por audiência, entre as equipes de coberturas de veículos concorrentes; talvez seja a diferença de preparação e aparelhamento profissional de umas equipes em relação a outras; talvez seja a vivência longeva dessas duas circunstâncias verídicas dos repórteres e jornalistas de redação, ou estúdio; ou talvez seja o simples esquecimento do que seja a ética normativa, ou ética de um modo geral.

Deslumbramento visível

Com a globalização (mais uma vez esta senhora é a culpada), o esporte consolidou-se como um espetáculo de massa de importância sócio-econômica incomparável, não há dúvida. Diferenciado de outros espetáculos, como o teatro, a música, a dança, a exposição de vacas e o circo… Pelas exigências da FIFA (Federação Internacional das Associações de Futebol), e submissão dos países protagonistas (este detalhe é muito importante e demandaria uma análise à parte), o futebol de longe supera o automobilismo, por exemplo, ainda que este seja multimilionário; superou há muito tempo as corridas de cavalos (cada vez mais elitizadas); facilmente deixa os esportes olímpicos a vários corpos de distância, por ser este fragmentado, de interesse e praticado por grupos menores de pessoas (infelizmente). O goal aqui é lembrar que nenhuma outra atividade esportiva, nenhum outro espetáculo, se arrasta ao longo do calendário civil, e ao longo de uma escalada de níveis de competição (regional, nacional, entre continentes e por fim entre países) como o futebol. Isso explica o interesse político, as demandas complexas de logística e de melhores práticas do mundo moderno e, por fim, a mobilização de toda a cadeia produtiva e comercial. Todos os segmentos da sociedade são afetados, de um jeito ou de outro, pela indústria do futebol; de modo contínuo, escalar e apoteótico.

No entanto, parece que a pauta dos homens das ‘latinhas’, da ‘telinha’, das antigas ‘pretinhas’ e hoje em dia do ‘ratinho,’ tem estado presa ao espetáculo jogo de futebol e ao potencial de entretenimento. Como diriam os intelectuais aborrecidos, à anestesia social, à alienação, ao consumismo a qualquer preço. Sem dúvida, as utopias e paixões ficaram lá no tempo das chuteiras de travas de couro e prego.

Daí, enquanto o jogo não começa, durante a semana, em torno dos treinos, os setoristas se comportam como meros paparazzi, caçadores de gafes, ou de possíveis intrigas que lhes dariam a foto e a manchete de primeira página. Patético, para uma profissão, a de jornalista, que tem à mão as ferramentas e o manancial de material informativo e profusão de fatos para comunicar como nunca se viu na história do jornalismo.

No caso do Brasil, em que meninos oriundos de comunidades carentes alcançam a fama internacional, e ganhos multimilionários, numa mesma temporada de estréia no futebol profissional, ainda no fim da sua puberdade, talvez esteja na hora de cercar a cobertura e formato de entrevistas (em especial) com mais criatividade e aparelhamento por parte dos jornalistas. Há inúmeras alternativas de pautas dentro da pauta, mas o jornalista que cobre um certo clube parece contentar-se com uma espécie de onanismo informativo. Sem falar do visível deslumbramento de muitos profissionais por este e aquele jogador em particular. Sem falar do jabá. Isso existe? Quem puder provar que não, por favor envie e-mails para este observador.

Jornais mais gordinhos

De qualquer forma segue uma sugestão de leitura: Jaba – Journal of Applied Behaviour Analysis (vá direto ao artigo ‘Os efeitos do treinamento de deslocamento de atenção sobre a execução das habilidades no futebol, uma análise preliminar‘). A propósito, um cliente, de Chicago, desenvolveu e comercializa um software de análise de uma partida de futebol com tantos parâmetros que eu não imaginaria poder existir quando fiz a preliminar de Internacional e Corinthians na decisão do Campeonato Brasileiro de 1976. A concentração durante o jogo era tão grande, daquele menino apelidado de centro-médio e que jogava de centro-médio, a energia que vinha da torcida, ensandecida aguardando o jogo de fundo, 100 mil pagantes no Gigante da Beira Rio, que ao final da partida eu não lembrava de nada, só que havíamos ganho e de algumas poucas jogadas, parecia que tudo ocorrera em poucos segundos, ou que durara uma vida inteira, eu perdera cinco quilos de líquidos que recuperaria até o dia seguinte.

Falando em perder quilos, tenho um cliente na Austrália, ligado ao ramo gastronômico, que faz durante a Copa de Futebol 2010 promoção semelhante à de restaurantes de Belo Horizonte, assim como conheço cervejarias do norte da Califórnia que repetem o mesmo tipo de promoção: no jogo de uma seleção (país) contra outra, o menu e as gratuidades para estimular o consumo são em torno das bandeiras nacionais. A hipnose ou mobilização é mesmo global, até pela boca.

Por fim, um recado aos emburradinhos jornalistas que criaram manchetes tais como ‘os jogadores estão comendo na mão do Dunga’ e que reclamam dos treinos fechados da seleção brasileira: ensinem aos demais jornalistas a sua capacidade (ou truque) de memorização de escalações, escores de partidas de futebol e fichas pessoais de jogadores (não há banco de dados melhor do que um jornalista com esse tipo de memória); passem também a vontade de penetrar e arrancar imagens dos treinos e horas de privacidade da seleção, para os jornalistas de outras áreas praticarem na política, na indústria, e especialmente nos laboratórios de pesquisa acadêmica e industrial. Os jornais voltariam a ficar mais gordinhos. E a ética? 

Talvez seja necessário e oportuno realizar um seminário sobre ética no jornalismo esportivo brasileiro, após a Copa 2010. Quem se interessar, estou à disposição para organizá-lo.

******

Escritor e jornalista

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