Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Helen Thomas, aposentadoria forçada

Por Valério Cruz Brittos e Diego Costa em 22/06/2010 na edição 595

Helen Thomas é uma jornalista estadunidense nascida em 4 de agosto de 1920. Tem mais de 50 anos de carreira e era repórter dedicada à cobertura da Casa Branca desde 1961, quando se iniciou o governo John F. Kennedy. Ganhou fama por ser uma pessoa implacável, exigente e questionadora, atributos que lhe renderam muitos conflitos, mas também grande admiração. Possuía cadeira cativa no saguão de entrevistas da Casa Branca e tinha o direito de ser sempre a primeira jornalista a realizar perguntas.

Aos 89 anos, Thomas já havia passado por muitas histórias. Uma das mais interessantes foi quando questionou o presidente George W. Bush sobre as vidas de jovens norte-americanos perdidas durante a guerra do Iraque e do Afeganistão e quais eram seus reais interesses sobre o petróleo da região. Porém, mesmo com a sua inabalável energia de uma jornalista à moda antiga, que sempre busca a veracidade dos fatos, nenhuma punição lhe fora atribuída até então.

No entanto, o fato ocorrido em 7 de junho de 2010 custou mais de 50 anos de uma carreira brilhante. Em um minuto e três segundos, uma declaração de Thomas a respeito da embarcação em missão de paz interceptada e atacada por Israel, matando diversos palestinos, fez com que o governo dos EUA imediatamente forçasse sua demissão.

Perguntada sobre o caso, Helen Thomas, que é filha de libaneses, emitiu para o site Rabbilive.com a seguinte declaração: ‘Os israelenses deveriam dar o fora da Palestina e ir para a Alemanha, a Polônia ou os Estados Unidos.’ A interpretação é que Thomas entendia serem os campos de concentração o lugar dos judeus e que de fato os donos do território conhecido como Faixa de Gaza deveriam ser os palestinos.

Caráter de término de carreira

Helen demonstra um erro crucial ao se pronunciar com os ânimos aflorados por razões pessoais. Além do mais, e principalmente, apoiar o extermínio de judeus é uma tamanha selvageria e ignorância que soa absurdo que uma pessoa com o nível cultural e a trajetória de Helen Thomas se identifique e alimente este tipo de ideologia no século 21. Ao perceber a declaração bombástica que acabara de dar, ela retratou-se, mas não foi o suficiente. O governo norte-americano não a perdoou e forçou a agência de notícias Hearst Corporation a assinar sua aposentadoria antecipada.

O que é necessário ressaltar em tudo isto é a fúria com que o governo dos EUA reagiu. As relações entre Israel e Estados Unidos são por demais estreitas e promíscuas, sendo redundante delongar-se sobre este problema. Mas o intrigante é uma figura de extrema influência como Helen sofrer uma punição que implica em mordaça e denota autoritarismo (ao lado de uma enorme capacidade de influência) sobre a imprensa, incompatível com qualquer projeto que sustente liberdades. O erro cometido não justifica o modo como ela foi punida.

Por todo o seu passado e presente, Helen Thomas sai de cena como uma pessoa que comete erros, como todos os seres humanos, mas também como uma jornalista que não se enverga diante do poder e nem de governos que querem calar a verdade dos fatos. O que está em jogo aqui não é o seu erro, lamentável e digno de repúdio, e sim, a punição que lhe foi atribuída, com um caráter pretensamente terminativo de carreira.

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Respectivamente, professor titular no programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e graduando do Curso de Comunicação Social – Jornalismo da mesma instituição

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