Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Imprensa brasileira finge que não vê

Por Alberto Dines em 17/05/2010 na edição 589

Nem uma linha impressa na grande imprensa, difícil monitorar todo o noticiário de rádio e TV, mas certamente a mídia eletrônica seguiu o ditado da mídia impressa e também se omitiu. Os porteiros das redações brasileiras continuam se achando os donos da verdade, senhores absolutos da atualidade.


Na sexta-feira (14/5), a Espanha foi dramaticamente remetida ao passado quando o destemido juiz Baltasar Garzón foi suspenso das suas funções na Audiência Nacional por abrir uma investigação sobre os crimes cometidos durante a ditadura do general Francisco Franco.


Não foi um desfecho inesperado, o caso arrastada-se há meses, os principais jornais do mundo acompanham os desdobramentos apaixonadamente porque Garzón é herói no Chile, na Argentina, Itália, França.


Garzón não teme os torturadores, narcotraficantes e corruptos. Não foi suspenso apenas porque contrariou a Lei de Anistia, mas porque está investigando o mega-escândalo no qual está envolvida a alta direção do partido espanhol de direita, o Partido Popular. E a direita espanhola não se confina aos seus limites territoriais, tem conexões internacionais, é fortemente apoiada pela igreja, pela Opus Dei e por suas maiores empresas multinacionais.


Lá e cá


Ao ignorar a vasta cobertura dada por El País no sábado (15), nossa imprensa reconhece sua incompetência. O silêncio que se seguiu à inominável injustiça praticada pelo judiciário espanhol tem algo de suspeito e cumplicidade nesta omissão.


Garzón é um magistrado exemplar, sua independência não pode ser celebrada, sua coragem e desprendimento não devem ser valorizados. Incentivar a investigação dos crimes do franquismo equivale a passar ao largo do acordo que permitiu a aprovação do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos na semana passada, graças a um pacto entre governo, igreja, mídia e o lobby dos ruralistas, verdadeira caricatura do texto original.


Uma nova Guernica foi pintada na Espanha e nós estamos olhando para o outro lado.


 


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Matérias do El País sobre o caso — (em espahol)

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