Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Imprensa e a legitimação do regime militar

Por João Guilherme Bastos/Agenc em 04/05/2010 na edição 588

Para compreender melhor a atuação dos profissionais da imprensa brasileira em relação ao golpe militar de 1964, o pesquisador João Amado utilizou Os idos de março e a queda em abril, segundo ele, o ‘primeiro livro publicado sobre a história do golpe de 1964, escrito no mês seguinte à queda de Goulart’, tendo por autores nomes como Antonio Callado, Alberto Dines e Carlos Castello Branco. O resultado foi a dissertação Da redação do Jornal do Brasil para as livrarias: os idos de março e a queda em abril, a primeira narrativa do golpe de 1964, defendida por João no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2008.


O estudo aborda toda a história do Jornal do Brasil e mostra como, ao longo do tempo, um veículo que nasceu monarquista tornou-se um periódico ‘popularíssimo’, evoluindo posteriormente para um jornal de prestígio, que valorizava as seções literárias e políticas. Segundo João Amado, o fim da década de 1950 marcou um momento importante da história do jornal pela incorporação de um projeto gráfico inovador, depois do qual, segundo a dissertação, ‘em poucos meses o Jornal do Brasil dobrou a tiragem, bateu o Correio da Manhã e tornou-se o jornal mais influente e discutido do Brasil’.


Concentração dos meios não foi ‘seleção natural’


Com a chegada do jornalista Alberto Dines ao jornal, indicado pelo banqueiro José Luiz Magalhães Lins e com a missão de transformar o periódico em uma empresa, teoricamente imparcial, o JB foi palco de uma modificação que atingiu toda a imprensa brasileira nas décadas seguintes: ‘Em janeiro de 1962, iniciou-se um processo de modernização do jornal, dentro de uma lógica empresarial e, em paralelo, uma inflexão à direita, num ambiente de crescente polarização política que culminou com o golpe de 1964’, diz o autor. Essa modernização teria, segundo ele, afastado muitas pessoas que eram dadas como ‘de esquerda’ da redação do jornal.


A dissertação explica que o apoio expresso do JB à deposição de João Goulart acontecia paralelamente e com igual intensidade à promoção da imagem do banqueiro e governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, como um ‘exemplo de homem público’ e ‘defensor da Constituição’ nas páginas do jornal. No dia em que o golpe se consolidou, o JB publicou, logo na página três, uma breve história da vida de Magalhães Pinto, a ‘emocionante história do banqueiro e governador’.


O processo de concentração dos meios de comunicação avançava consideravelmente. Se ao longo da década de 1950 o Rio de Janeiro contava com 22 jornais diários de diferentes tendências políticas, nos anos 60 esse número caiu para 16 jornais diários, chegando a sete no final da década de 1970. O autor defende que esta concentração foi definida não apenas pela livre concorrência, mas também por fatores políticos. ‘Não se pode, portanto, enxergar este processo de concentração e desaparecimento de periódicos como uma `seleção natural´ pura e simples’, escreve.


Erros e excessos punitivos


Em 1962, uma greve organizada pelos jornalistas do Rio, com participação de figuras como o chefe de reportagem do JB na época, Jaime Negreiros, terminou com a demissão dos jornalistas e um pacto entre os donos de jornais pela não contratação de nenhum dos grevistas. Desta forma estes jornalistas ficariam, a partir de então, marcados em uma ‘lista negra’. Para João Amado, as demissões e a lista negra fizeram com que os jornalistas se submetessem mais rapidamente aos comandos da ‘empresa’ JB.


O pesquisador afirma que embora sofressem cerceamentos internos, alguns profissionais de destaque, como, por exemplo, Antonio Callado, permaneciam atuando no jornal. A censura à matéria ‘Volta o Barril’, de Callado (que era um dos principais redatores do JB), é um exemplo destes cerceamentos, bem como a demissão de Newton Carlos devido à sua atuação pré-golpe. A pesquisa mostra que, segundo Walter Fontoura, ‘Nascimento Brito (proprietário e diretor do impresso na época) tinha sempre a delicadeza de não delegar a Antonio Callado a redação de editoriais que pudessem ferir-lhe a sensibilidade política’.


A matéria ‘Intelectuais de São Paulo crêem que expurgo é inquisição’, que contém a frase ‘a inquisição, cuja presença no Brasil foi sempre intermitente, parece ter voltado’, é outro exemplo mostrado pela dissertação de como alguns casos de dissenso com o regime foram expostos por profissionais do Jornal do Brasil que pareciam não concordar com as perseguições políticas a determinados artistas e intelectuais brasileiros feitas pelo regime militar.


Porém, para o autor, o discurso oficial do jornal seguia na defesa de dois pontos, como exemplificam as seguintes frases do veículo: primeiro, mesmo com ‘todos os erros e excessos punitivos, aliados a uma austera incomunicabilidade, a Revolução deixou o Brasil mais apto a retomar um rumo verdadeiramente democrático’. O outro trecho do JB – ‘a liderança civil do movimento revolucionário que depôs o sr. João Goulart coube indiscutivelmente ao governador Magalhães Pinto’ – reforça, aliado ao anterior, a defesa de João Amado de que ‘seria um equívoco enxergar os jornalistas do jornal de forma monolítica, pois não foram todos os jornalistas do Jornal do Brasil que aplaudiram os atos da ditadura’.


Goulart contava com apoio popular


Com a chegada do AI-5, a discordância com o regime é momentaneamente assumida pelo JB e expressa na capa de 14 de dezembro de 1968, na lendária previsão: ‘Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º em Brasília. Mín.: 5º, nas Laranjeiras’. A capa provocou a prisão do diretor no jornal pelo regime militar. João Amado esclarece que a previsão do tempo aludia ao Ato institucional Complementar n° 38, que decretou o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado, e ao Ato Institucional n° 5, que instituiu ferramentas de radicalização do regime, entre as quais a censura.


O autor questiona através de seu trabalho em que medida a ação dos jornais ‘não foi fundamental para encorajar e/ou legitimar a ação militar’. Para ele, os ‘manifestantes da Marcha (da Família com Deus pela Liberdade) e o JB talvez não representassem a maioria da população, mas sim, a parcela com maior capacidade de mobilização, ou que estavam, no momento do golpe, mais motivadas (e seguras) para ir às ruas’.


Como apontado na dissertação, a afirmação é corroborada por duas pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do movimento militar de 31 de março e, segundo o autor, nunca divulgadas, que mostram que Goulart ‘contava com amplo apoio popular ao ser deposto’. Citada pelo pesquisador, a diretora do Ibope Márcia Cavallari explicou que os critérios aplicados na década de 60 são semelhantes aos utilizados nas pesquisas recentes do instituto e são perfeitamente confiáveis.

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Estudante de Jornalismo da UERJ, editor-aluno da Agência UERJ de Notícias Científicas (Agenc)

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