Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Imprensa acusada pelas tensões religiosas

Por Thalif Deen em 04/12/2007 na edição 462

Entre as causas que explicam os conflitos internacionais costuma-se mencionar a religião, mas há quem desconsidere essa idéia, argumentando que é fomentada pela imprensa. O primeiro-ministro da Malásia, Abdullah Ahmad Badawi, rebateu na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas o argumento de que a religião seja responsável pelas disputas entre nações. De um ponto de vista político – afirmou – a principal causa dos conflitos entre os países islâmicos e os ocidentais ‘é o repetido uso da força dos poderosos contra os fracos para garantir objetivos estratégicos ou territoriais’.

Outro argumento para compreender as atuais tensões religiosas e culturais é a ‘insensibilidade’ da imprensa e da indústria cinematográfica diante dos valores religiosos e culturais quando se trata de informar e documentar fatos, disse o diretor-executivo do Centro de Mediação Interconfessional na Nigéria, Muhammad Nurayn Ashafa. Em uma reunião sobre compreensão cultural e inter-religiosa no contexto da Assembléia Geral da Nações Unidas, Nurayn citou um rabino segundo o qual ‘a religião é como uma chama que pode ser usada para aquecer ou incendiar o lar’.

A ONU, cuja Aliança das Civilizações pretende melhorar a compreensão religiosa e cultural entre nações e povos, admite que ‘o impacto atual da imprensa em nossa percepção dos outros atingiu um nível sem precedentes’. O direito à liberdade de opinião e expressão também traz responsabilidades. ‘A imprensa deve, de todos os modos, tentar difundir uma visão equilibrada de todas as culturas por meio da abordagem estereótipos e pré-julgamentos e promover a tolerância e a compreensão mútua’, diz um dos documentos-guia do Diálogo de Civilizações.

Parâmetro único

E a imprensa faz isso? Os meios de comunicação foram alvo de ataques por serem considerados responsáveis, com ou sem intenção, de instigar ou provocar tensões religiosas ou étnicas em áreas de conflito ou de emitir julgamentos tendenciosos. Quando do atentado na cidade de Oklahoma, no estado norte-americano de mesmo nome, em abril de 1995, muito antes dos ataques contra Nova York e Washington em setembro de 2001, os primeiros informes da imprensa atribuíram o fato a ‘organizações terroristas do Oriente Médio’.

Entretanto, a bomba fora colocada por um norte-americano veterano da Guerra do Golfo (1990-1991). Sua ação deixou 168 mortos e centenas de feridos. Talvez, a corrida pelo furo jornalístico leve a apressar um julgamento, afirmou um analista do Oriente Médio que mora em Nova York. Após um atentado cometido há dois anos na Europa, um artigo a respeito dizia: ‘Uma voz entrecortada em inglês, com sotaque árabe, assumiu a responsabilidade do atentado’.

Outra notícia sobre uma ameaça de bomba dizia: ‘Um homem telefonou para a base aérea dos Estados Unidos na Alemanha e fez uma advertência. Falava alemão, possivelmente com sotaque russo ou turco’. Essas afirmações, em sua maioria equivocadas, podem ter criado danos irreparáveis a comunidades étnicas ou religiosas ou, ainda, desatado reações violentas, disse o analista. ‘Os fundamentalismos extremamente polarizados, que podem chamar-se islâmicos, cristãos ou judeus, são a verdadeira ameaça à paz e aos direitos humanos’, disse o diretor-executivo do Instituto de Exatidão Pública, Norman Solomon.

Além disso, as tentativas da imprensa para utilizar a fé religiosa para adjetivar a violência costumam ocultar outros interesses além do informativo. Marcam uma direção e se afastam de outras, enquanto encobrem a verdade de que os fundamentalismos radicais não são exclusivos de nenhuma religião. ‘Um padrão único de direitos humanos nada tem a ver com fechar os olhos para alguns fanatismos mortais enquanto se condena outros’, afirmou Solomon. Mas, a imprensa norte-americana, em geral, não parece interessada em um único parâmetro de direitos humanos.

‘Um padrão desse tipo implicaria não apenas condenar a atrocidade dos suicidas islâmicos, mas também os funcionários israelenses que ordenam ataques que causam a morte de palestinos de todas as idades. Também se deveria condenar as altas autoridades do governo dos Estados Unidos que supervisionam tanta perda de vidas humanas no Iraque’, ressaltou Solomon, co-autor de Fontes pouco confiáveis: um guia para detectar notícias tendenciosas.

‘Golpes jornalísticos’

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que ‘chegou a hora de promover a idéia de que a diversidade é uma virtude, não uma ameaça’. Também é tempo de ‘um diálogo construtivo e comprometido, um diálogo entre pessoas, entre comunidades e entre nações’, acrescentou Ban. Um grupo de líderes políticos de alto nível que promove a Aliança de Civilizações pediu urgência aos profissionais da imprensa, em um informe divulgado no ano passado, para que desenvolvam e implementem códigos de conduta voluntários.

O estudo cobra programas de capacitação para ajudar os jornalistas a compreenderem assuntos internacionais importantes, especialmente aqueles onde política e religião se cruzam. Também foi proposto criar um ‘fundo de risco para atenuar as forças do mercado que fomentam a informação sensacionalista e estereotipada na imprensa e em outros níveis culturais’.

Para Solomon, a imprensa deveria evitar campanhas propagandísticas que na verdade vilipendiam uma religião em particular ao vinculá-la com as pessoas destrutivas que alegam ser religiosas. O jornalismo, a imprensa independente e a livre circulação de informação podem ajudar a ver a humanidade como uma, mas a propaganda costuma promover a idéia da crueldade que caracteriza um grupo étnico ou religião em particular. ‘Os freqüentes golpes jornalísticos polarizam em lugar de informar e exacerbam em vez de educar’, concluiu o especialista. [Nova York, 3/12/2007]

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Da agência IPS

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