Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Luzes sobre o caso Rubens Paiva

Por Lilia Diniz em 17/03/2012 na edição 685

 

Deputado cassado pela ditadura militar, o engenheiro Rubens Paiva desapareceu na manhã do dia 20 de janeiro de 1971, quando um grupo de militares armados com metralhadoras, sem qualquer respaldo oficial, invadiu sua casa. Nos dias seguintes, Rubens passaria pelos porões do Exército e da Marinha, onde foi brutalmente torturado. A mulher e a filha mais velha do deputado também foram presas e interrogadas.

Integrantes do governo militar acreditavam que Rubens Paiva poderia revelar o paradeiro de Carlos Lamarca, líder do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), mas o deputado não tinha ligações com o grupo clandestino nem conhecia Lamarca.

Mais de quatro décadas depois do desaparecimento, mesmo com inúmeras provas de que o deputado fora morto por militares após sessões de tortura, o caso continua sem desfecho. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (13/3) pela TV Brasil debateu a reportagem especial “Uma história inacabada, o caso Rubens Paiva”, apresentada pela jornalista Miriam Leitão na GloboNews. Entre as entrevistas mostradas no programa, um tocante depoimento de Eliana Paiva, filha do deputado, que conversou com a imprensa sobre o assunto pela primeira vez em 41 anos.

Famílias de 183 desaparecidos políticos – inclusive a de Rubens Paiva – aguardam que a Comissão da Verdade, criada em 2011 pelo governo federal para apurar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, investigue o paradeiro de seus parentes. Setores das forças armadas manifestaram-se incomodados com a futura composição da Comissão e passaram a temer possíveis punições para militares.

Anistia em pauta

Outra questão que provoca polêmica é o alcance da Lei da Anistia, promulgada em 1979. Em algumas semanas, deverá ser votado no Supremo Tribunal Federal (STF) um recurso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que contesta a anistia para os que cometeram crimes políticos durante a ditadura militar. De acordo com a OAB, as Nações Unidas e o Tribunal Penal Internacional (TPI) entendem que os crimes contra a humanidade cometidos por autoridades estatais não podem ser anistiados por leis nacionais.

Miriam Leitão é jornalista há quatro décadas. Tem uma coluna diária no jornal O Globo, é comentarista da rádio CBN e do telejornal Bom Dia Brasil, tem um programa de entrevistas na GloboNews e um blog e um perfil no Twitter com 440 mil seguidores. Miriam recebeu em 2005 o Maria Moors Cabot Prize, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo, concedido pela Escola de Jornalismo da Universidade Columbia a profissionais de imprensa dos Estados Unidos e da América Latina.

No editorial que precede o debate ao vivo, Alberto Dines sublinhou que a atividade de observação da imprensa é composta por denúncias sobre os problemas da mídia, mas também por celebrações: “Se o objetivo é buscar a excelência no Jornalismo e promover um maior rigor nos padrões de exigência, o louvor pode ser mais efetivo e duradouro do que as reprovações. Estamos hoje aqui para saudar uma façanha jornalística, não obstante seu teor acabrunhante, doloroso”.

Reconciliação com a sociedade

A reportagem exibida antes na discussão no estúdio entrevistou o jornalista Flávio Tavares, que foi preso e torturado no mesmo quartel da Polícia do Exército para onde Rubens Paiva foi levado anos depois. “Conheci bem os labirintos, os meandros do horror por onde Rubens Paiva passou. O Rubens Paiva foi morto em um daqueles ‘acidentes’ e por isso desapareceu. A tortura não é para destruir a pessoa, para matá-la. É para aniquilá-la, o que é pior do que a morte”. Tavares defendeu que as forças armadas venham a público para mostrar que os excessos cometidos durante a ditadura foram promovidos por um grupo minoritário de “facínoras”.

O jornalista Claudio Renato, que trabalhou com Miriam no programa especial da GloboNews, revelou que perguntou para Eliana Paiva os motivos que a levaram a só falar sobre o assunto mais de quatro décadas depois do desaparecimento de seu pai: “Ela falou duas coisas, uma emocionante e uma preocupante. Ela disse: ‘Olha, talvez seja uma questão de eu ter esperado quarenta anos por você e pela Miriam’. E a segunda questão que ela levantou foi: ‘Talvez porque ninguém tenha perguntado’”.

Para Clarice Herzog, viúva de Vladimir Herzog, jornalista morto pela ditadura militar em 1975, a Comissão da Verdade poderá esclarecer muitos casos ocorridos no “tenebroso” passado recente do país. Na avaliação do jornalista Chico Otavio, repórter da editoria “O País” do jornal O Globo, os primeiros momentos do debate em torno da comissão foram decepcionantes: “As opiniões foram extremamente radicais, um tiroteio pesado entre os dois lados. Às vezes até dá a impressão de que para certas pessoas a luta armada no Brasil e a ditadura ainda não terminaram. E essas pessoas se retraíram. Algumas das minhas fontes pularam de volta para dentro da trincheira e estão recarregando a munição para recomeçar o tiroteio. Isso é péssimo para quem realmente busca a verdade”.

Uma testemunha esquecida

No debate ao vivo, Dines comentou que a declaração de Eliana Paiva sobre o seu longo silêncio mostra que parte da imprensa optou por esquecer os anos de chumbo. Miriam Leitão explicou que pouco depois do desaparecimento de Rubens Paiva foi instalado um Inquérito Policial Militar (IPM) “fajuto” no qual Eliana não foi ouvida. “Ela é uma testemunha. Ela ouviu coisas, viu coisas. Então, ela teria que ter sido ouvida pelas autoridades também”, comentou Miriam. Passados 27 anos do início da democracia, outros casos marcantes ainda não foram examinados pela imprensa e pelo poder público. Miriam acredita que mesmo depois de tanto tempo não é tarde demais para investigar esses assuntos.

Parte dos arquivos do regime militar pode ter sido preservada pelo Estado ou estar em poder de indivíduos, o que possibilitaria a investigação de desaparecimentos ocorridos durante a ditadura. A jornalista enfatizou que as instituições militares devem à sociedade a informação sobre os documentos daquele período: “Pelo menos as forças armadas têm que dizer quem mandou destruir e quando, porque é da natureza das forças armadas a organização, a disciplina e a hierarquia. Ninguém destrói por destruir”. Miriam destacou que é preciso construir para as próximas gerações uma história do regime militar mais próxima da verdade dos fatos.

Para a jornalista, os debates em torno da Comissão da Verdade naturalmente tendem a ser acalorados. “Foi uma luta. O país se dividiu de fato. Você não pode revisitar esse passado e achar que todo o mundo está amigo. Até porque você nunca curou essas feridas, nunca expôs essas feridas.” Miriam afirmou que mesmo que se reconheça o papel estratégico forças armadas no Brasil de hoje, a cúpula militar precisa admitir que permitiu que ocorressem fatos intoleráveis do ponto de vista institucional durante a ditadura: “Se as forças armadas não atualizarem o seu pensamento nós vamos produzir outras gerações que pensam assim. Aí o país vai estar correndo o risco de repetir o erro. Não é para humilhar as forças armadas, pelo contrário, é para que elas voltem à sua tradição e reconheçam que aquilo foi um desvio, um momento triste na história da instituição”.

Embate necessário

Na opinião de Miriam, o clima da Comissão não será de concórdia, mas dela podem decorrer importantes avanços: “Você não faz uma Comissão da Verdade para todo o mundo concordar – ‘Somos todos amigos de infância…’. Houve um conflito, pessoas foram mortas, torturadas; se transformou quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em centros de tortura”. Portanto, na avaliação da jornalista, não é possível tratar este capítulo da história com “doçura”.

Um dos pontos mais polêmicos da reportagem de Miriam Leitão foi a entrevista com o general Rocha Paiva, que duvidou da responsabilidade das forças armadas em casos notórios ocorridos durante a ditadura militar, como a morte de Vladimir Herzog e a tortura sofrida pela presidente Dilma Rousseff. Do ponto de vista jornalístico, Miriam acredita que o mais importante no depoimento de Rocha Paiva é a representatividade deste discurso dentro das forças armadas hoje: “A vantagem dele como entrevistado é que ele disse o que ele pensa. Se a gente concorda ou não concorda é um detalhe que nós, como jornalistas, não temos que discutir neste momento. Ao dizer o que ele pensa, ele mostrou que não é um ponto fora da curva”, ressaltou Miriam.

Durante a juventude, Miriam ficou presa durante meses, mas a jornalista garante que sua história pessoal não foi determinante para a escolha desta pauta. “Jornalista gosta de uma boa história”, disse.

Das sombras aos holofotes

Miriam contou que depois da exibição do programa especial, muitas pessoas procuraram a produção para contar as suas histórias e oferecer seus depoimentos pessoais. Mas nem todos os comentários foram positivos. Parte dos telespectadores criticou fortemente o programa, sobretudo por meio de mensagens postadas no blog da jornalista.

Dines perguntou a opinião de Miriam sobre o futuro das discussões em torno da ditadura no Brasil: “A gente pode se sair bem, mas a nossa História não nos recomenda. Nós somos um país que não gosta de olhar para trás e ver os próprios defeitos”, lamentou a jornalista. Mais de um século depois do fim da escravidão, o país não encarou o genocídio dos negros e ainda não erradicou suas consequências. Na avaliação de Miriam, o Brasil deve “se olhar no espelho” e encarar seus próprios erros sem vingança ou ressentimento.

Leia também

Miriam Leitão mostra um caminho – Mauro Malin

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Reportagem necessária

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 630, exibido em 13/3/2012

 

A observação da imprensa compreende críticas, denúncias e compreende também celebrações. Se o objetivo é buscar a excelência no jornalismo e promover um maior rigor nos padrões de exigência, o louvor pode ser mais efetivo e duradouro do que as reprovações.

Estamos hoje aqui para saudar uma façanha jornalística, não obstante seu teor acabrunhante, doloroso. Estamos acostumados: as imagens mais ousadas, os relatos mais comoventes e as edições mais tocantes são geralmente as mais arrasadoras. O jornalista, por mais perfeito que seja, não é responsável pelo estado do mundo, seu papel limita-se a descrevê-lo, chorar suas mazelas.

Miriam Leitão é uma das mais conhecidas jornalistas brasileiras. Imparável: de manhãzinha está no Bom Dia, Brasil, logo em seguida na rede CBN, na hora do almoço apresenta outro boletim na mesma CBN, à tarde escreve o seu artigo diário no Globo e ainda apresenta semanalmente o GloboNews Miriam Leitão. Sua especialidade seria árida não fosse ela uma personalidade mercurial, criativa, surpreendente.

Na noite de sexta-feira, 2 de março, Miriam Leitão sacudiu o país com um documento arrepiante: “O caso Rubens Paiva”. Com o repórter Cláudio Renato, do jornal O Globo, Miriam reconstituiu o episódio do sequestro do ex-deputado de 41 anos por agentes do regime militar, o mais notório dos 183 desaparecidos cujos paradeiros serão examinados pela Comissão da Verdade.

Com jornalismo deste quilate não existem histórias inacabadas.

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