Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Mídia, religião e ódio

Por Alberto Dines em 13/01/2011 na edição 624

Sarah Palin não é a única responsável pela reativação da histeria política nos EUA. Nem os seus fiéis seguidores do Tea Party & adjacências. A mídia, especialmente as emissoras de rádio dominadas pelos evangélicos de diversas origens, é a vocalizadora desse novo delírio americano.


Palin, Tea Party e a mídia religiosa fundamentalista são francamente direitistas. Quase fascistas. Não defendem golpes de Estado, querem eleições para chegar ao poder, não estão preocupados em manter a sociedade tolerante que empolgou os patriarcas da independência. Refugiam-se nas aparências da Constituição, mas não se preocupam em respeitar os seus fundamentos.


Tal como Hitler e Goebbels, 80 anos atrás, apostam todas as fichas no poder do rádio como propagador de chavões, simplificações e fanatismo. As emissoras de TV regionais entraram no jogo. Ódio segura audiências. Ódio e religião mais ainda. O mix audiovisual é imbatível em matéria de rancor.


A mídia liberal, progressista ou apenas analítica, é impressa. E ao assumir-se como moribunda, em vias de extinção ante o avanço digital, torna-se ainda mais frágil, perde convicções, veemência e credibilidade.


Universo desvairado


Nos EUA e na Europa, a esquerda, majoritariamente social-democrata, raramente aciona o discurso do ressentimento. Seus venerandos compromissos humanistas e sua intensa impregnação democrática são claros demais para permitir desvios e equívocos.


O que não acontece na América Latina, onde uma pretensa esquerda, tomada pela mesma xenofobia e o mesmo reducionismo que atacam os Estados Unidos, adota uma retórica intolerante, raivosa. Um ‘revolucionarismo’ mal resolvido reforça a estratégia do vale-tudo.


Esse ódio pseudo-esquerdista ainda não consegue infiltrar-se em nosso sistema de rádio, nem na mídia impressa que aqui, ao contrário do que acontece no mundo civilizado, prefere os confortos do conservadorismo. Mas está muito presente na blogosfera.


Quando, em fevereiro de 2009, Mino Carta encerrou o seu blog e desistiu de defender a extradição do ex-guerrilheiro Cesare Battisti – que corajosamente assumiu apesar de apoiar o governo Lula –, estava apenas sinalizando para um clima de terror gestado nas pseudo-vanguardas abrigadas sob o guarda-chuva do PT. O linguajar, a irreflexão e a intolerância da direita norte-americana não diferem muito do universo desvairado e perverso que se abriga em certos grupos de discussão, sites, blogs e desvãos das nossas redes sociais.


O mundo melhor começa quando a injúria é substituída pela persuasão.

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