Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

O dono do buraco

Por Gabriel Perissé em 23/01/2007 na edição 417

Os cariocas conhecem o Buraco do Lacerda, passagem de nível que liga a rua Bráulio Cordeiro à avenida D. Helder Câmara. Foi obra de Carlos Lacerda, na década de 1960, e os moradores do bairro não têm dúvida: o buraco é mesmo do então governador da Guanabara. Um tanto ou quanto assustador atravessá-lo, conforme foto recente, especialmente em dias de chuva.


Em São Paulo, um pouco antes, na década de 1950, no Vale do Anhangabaú, surgiu o Buraco do Adhemar, passagem sob a Av. São João que os paulistanos assim batizaram em homenagem ao prefeito da época: Adhemar de Barros. Ampliado na gestão da prefeita Luiza Erundina, década de 1990, o Buraco mudou de proprietário e tornou-se obviamente o Buraco da Erundina.


Conotações catastróficas


O Buraco da Marta é o túnel Rebouças, que deu trabalho para o prefeito Serra… que agora, como governador, também tem o seu buraco, um buraco infeliz, que atraiu o olhar da mídia nacional, não para cobrir festa de inauguração, mas constatar a tragédia. O Buraco do Serra, cartão-postal da cidade de São Paulo nestes últimos dias. Há quem prefira chamá-lo Buraco do Alckmin, ou até Buraco da Odebrecht.


Assumir um buraco dessas dimensões não é agradável. Vários jornalistas preferiram usar, na ausência de melhor sinônimo, ‘cratera’, dando conotações catastróficas ao acidente. ‘Buraco do metrô’ não tem dono, é mais um buraco negro no qual, com o tempo, tudo o que entra pouco rastro deixará na memória; é como buraco na camada de ozônio, pertence a todos e a ninguém.


Ninguém assume autoria


Buracos genéricos existem pelo Brasil afora. Há cidades em que encontramos o Buraco do Padre, o Buraco do Prefeito, mas o buraco que se abriu agora, na zona oeste da cidade de São Paulo, está pedindo um genitivo explícito, se possível com nome e sobrenome. Só faltaria alguém dizer que este é o Buraco da chuva…


Gilberto Kassab, antecipando-se ao governador Serra, encarou microfones e câmeras. No próprio dia 12 de janeiro, algumas horas depois do acidente, vimos o prefeito na TV, sem graça, explicar que a prefeitura não estava diretamente ligada ao caso, mas que se sentia na obrigação de prestar solidariedade ao cidadão paulistano.


No dia 15, na Rede TV, imagens do governador e do prefeito escapando da mídia e dos parentes das vítimas. Não querem assumir a autoria do Buraco.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br 

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