Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

O fim metonímico do ditador

Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama em 15/02/2011 na edição 629

A noção revolucionária de revolução na qual a modernidade desembocou se inscreve em movimentos contínuos e concêntricos, se expandindo em círculos e hiperestimulada em seu centro (a capital, centro do território do estado; a praça, centro da capital; mirando seu alvo, a figura do ditador que representa o centro do regime). Revolução, não mais apenas uma cunha aberta no tecido temporal, mas a concepção predominante do próprio tempo. O processo da revolução se pretende permanente, se define como expansivo e trabalha na escala de espécie. Da Tunísia pelas correntezas da internet a revolução transbordou o Nilo. Multidões foram para as ruas dizer: Não.

Dizer Não tem múltipla relevância num contexto de uma revolução. Não a Mubarak se amplificava. Sim ao futuro – sim, qual? O Não não parava enquanto hesitavam, sim, as forças políticas, lhes apresentado um leque de amanhãs mais ou menos possíveis. A negação do plausível se estendia, levando o tempo para além dos marcos quantificáveis, as palavras para além dos signos fixadores. O tempo foi atropelado pelo Não.

Não pressupõe uma pergunta e é aí que o Não se amplifica. Não houve pergunta. O Não não era apenas uma resposta à pergunta presumida e noticiada ‘Mubarak?’ – por 30 anos esquecida, respondida com o silêncio, inscrito nos corpos e nas cerimônias intra e extra- territoriais, extraído dos corpos cirurgicamente e performado alhures e nenhures.

O Não diz respeito ao desrespeito por perguntas antecipadas. Trata de restituir o direito de perguntar – sem esperar respostas.

Ou a revolução se espraia ou perde o fôlego

Ouço e leio que os egípcios (ultimamente despidos do discurso oficial, com iniciais minúsculas) querem se empanturrar de democracia. Como presente que lhes foi, diacronicamente, negado pela inércia de mentes e corpos, malemolentes por dentre os biombos de homens fortes e impérios ensolarados – que lhes conferiam (apesar de ferimentos) a segunda melhor opção, um arremedo de rotina. A dádiva da primeira melhor opção, a democracia vindoura – sabemos nós (e Mauss) – não é imune a transbordamentos. Querer tudo poder e tudo podendo querer, pouco afeitamos as condições de nossa escolha aceitando, na precariedade de nossos engajamentos, o que se nos apresenta como limiar do possível (logo, desejável).

A relação – pressuposta como necessária – entre o passado de negação e a dádiva futura imprensa o presente – esvazia o espaço da ação, ao passo que este se amplia, via negação da pergunta pressuposta. A ação é o objeto da disputa política – o traçar na areia das práticas as condições de possibilidade das práticas futuras. As vozes do Não que a dádiva vem calar impregnam de sutura o paradoxo da ação que se comprime e se expande na mesma coordenada espaço-temporal – é preciso que a ferida desabrida que rasga o planejamento com riscos seja fechada para que a intervenção nunca tenha existido.

Para mudar é preciso sobreviver – a mudança não se produz por si só (isso o DNA moderno progressivamente consagrou no Lugar do progresso, moto-continuo). O desacelerar da transformação espalha e torna inerte o agente. Cada mudança bem-sucedida cai sobre si e relativiza os limites pregressos, recusando-os. Diz não sem ter perguntas. A decadência do pregresso é subentendida. Mubarak anteposto. Mas a recusa das velhas lindes é pressionada pelos que se recusam a reconhecer sua queda – obliquamente dizem ‘Sim’ à pergunta no interdito de outras respostas.

Posto Mubarak, o monoposto permanece simbolicamente vigiado antes que os invasores de mil rostos o soprem com milhares de vozes que pregam hoje no que até ontem era apenas deserto. A revolução ou espraia no desrespeito de suas tradições ou perde o fôlego para salvar os dedos e inventar um hoje no qual o amanhã possa se acomodar. Os dedos que aplaudiram o novo líder egípcio, o ministro da Defesa, membro do Supremo Conselho Militar, no poder desde 1952, se afunilavam nessa ambivalência.

Um processo aberto de ação

A noção de que a transição deve ser rápida e retomar a estabilidade para evitar o possível caos (expressa por diversos governos no dia de ontem 11/02/2011 e pelo Nobel da Paz e postulante à Presidência Mohammed El Baradei) coloca um pé nos rostos que se fizeram ver nas ruas; cala as vozes dos últimos desaparecidos da estabilidade de três décadas de Mubarak e de 59 anos de homens fortes da nação. O pé no freio da transformação mimetiza as formas dos últimos muxoxos da ditadura – ao usurpar aos que disseram Não a criação de perguntas – e legitima, em vestes de sacrifício transicional, a violência dos estertores do regime, como uma mão alheia estendida para apascentar a cólera intermitente do sistema solar civil-militar no seio do qual Mubarak pode orbitar durante 30 anos. A resposta de bate-pronto é a chancela do trono vazio mas sempre preenchido (ilusão moderna que não vê a si mesma, diria Agnes Heller) pelas línguas e olhos a serviço da fixação do soberano (diria Émile de la Boetie).

A busca pelo alívio imediato da transformação via produção da estabilidade retoma a noção pré-revolucionária de revolução. No discurso de El Baradei e das chancelarias da sociedade internacional a revolução dos egípcios se torna um retorno, a conduzir o Egito de volta para o status quo ante, em prol do bem dos egípcios (agora como portadores da responsabilidade perante a ordem interestatal, como destinatários de um presente). A ameaça anarquista que grassa no Não sem pergunta é respondida com o silenciamento em tempo real da revolução nas frequências que veiculam a presença sempre presente das soberanias.

O movimento pacífico que levou à queda de um das mais longevas e toleradas ditaduras contemporâneas é enquadrado como uma perturbação necessária, transicional, momentânea que, no longo prazo, reitera a estabilidade da comunidade política. Canalizando os frutos da Modernidade, uma temporalidade cíclica, naturalista, necessária é postulada, uma cosmovisão metabólica das formas políticas que se sucedem e reproduzem, como um ciclo de imanência e necessidade, de fragilidade natural… O tempo teria um conteúdo próprio, uma essência que resistiria às práticas humanas, fechado em si mesmo, repetitivo, incessante. A marcha inexorável desse tempo torna-se um mantra repetido suavemente contra o pano de fundo branco dos rostos e das vozes que resolveram dizer: Não. A revolução, dantes associada com um movimento espontâneo, necessário, de reequilíbrio, torna-se um movimento mais instável, uma ruptura, um processo aberto de ação (no sentido Arendtiano).

O descolamento do real se torna real

A busca de um ‘balanceador’ que, no tempo, realiza o ‘retorno’ à estabilidade torna, performaticamente, metonímica a queda de Mubarak – fundindo, nas imagens, o corpo desaparecido e mumificado do ditador (em resorts de luxo e numa clínica de saúde perto da Viena de El Baradei) e o conteúdo da transformação ‘possível’. Mas imagens são atritadas e fraturadas por Não-dizeres em tempo real – que sangram na Praça, que queimam por conta própria e respondendo ao fogo ‘amigo’, imagens que se imaginam, que transbordam, progressivamente borrando e contaminando outras imagens.

A concepção do tempo ‘cíclico e naturalista’ depende de uma visão estática do espaço (fechado e autossuficiente). O retorno era inteligível quando, no tempo, as partes se rearranjavam dentro do espaço fechado de uma mesma sociedade. É imprecisamente esta concepção da vida social que as revoluções canalizadas pela internet – a despeito de, e incidindo sobre as, fronteiras territoriais – colocaram em questionamento. A resposta do tempo cíclico perdeu sua pergunta. A sociedade internacional flutua na anarquia fixadora ao passo que os egípcios contemplam as próprias lacunas. O descolamento do real se torna real.

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Professor de Relações Internacionais (IRI/PUC-Rio)

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