Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

O impacto tecnológico no jornalismo-arte

Por Lilia Diniz em 08/03/2012 na edição 684

 

Em um momento em que o cinema se renova com o apelo visual das produções em 3D, os dois filmes de maior destaque do Oscar 2012, entregue em 26/02 nos Estados Unidos, tiveram como temática justamente os primeiros passos da sétima arte. Ganhadores de cinco estatuetas cada um, O Artista, dirigido por Michel Hazanavicius, e A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, homenagearam a centenária fábrica de sonhos. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (06/03) pela TV Brasil discutiu o impacto das novas ferramentas tecnológicas nas manifestações artísticas e no Jornalismo.

Mudo e em preto e branco, O Artista conta a história de um ator de sucesso amedrontado pela chegada do cinema sonoro, em 1927. A Invenção de Hugo Cabret¸ rodado em 3D,relembra os primórdios do cinema através da trajetória de Georges Méliès, pioneiro da narrativa cinematográfica e dos efeitos especiais, e da aventura de um menino órfão que busca reconstruir os laços afetivos com seu pai através de um autômato. No pano de fundo das duas obras, uma metáfora sobre a perenidade da Arte.

Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o escritor Affonso Romano de Sant’Anna e o jornalista Rodrigo Fonseca. Poeta, ensaísta e cronista, Affonso Romano foi diretor da Fundação Biblioteca Nacional por seis anos e tem cerca de 50 livros publicados. Rodrigo Fonseca é repórter do Segundo Caderno do jornal O Globo. Crítico de cinema, jornalista e escritor, Fonseca trabalhou no Jornal do Brasil e nas revistas Veredas e Set. Em São Paulo, o programa contou com a presença de Inácio Araújo, crítico de cinema da Folha de S.Paulo. Araújo escreveu dois livros sobre cinema e foi montador e roteirista em diversas produções cinematográficas. Participa como membro convidado do grupo de Humanidades do Centro de Estudos Avançados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Progresso vs. Arte

Em editorial, Dines sublinhou que, quando a obra de arte é autêntica, ela supera todos os desafios impostos pelo progresso. “O jornalismo-arte também está sendo ameaçado pela tecnologia e pelo jorro informativo produzido pela internet, mas, ao contrário da indústria cinematográfica, a indústria jornalística não tem auto-estima. Não gosta do que faz. E não vê outra saída a não ser prever o fim de si mesma ou do veículo que a glorificou ao longo de mais de quatro séculos, o jornal impresso”, comparou. Para Dines, a imprensa precisa ser mais valorizada por todos, dos repórteres aos empresários.

A reportagem exibida pelo programa mostrou diversas opiniões sobre estes filmes. O cineasta Cacá Diegues destacou que as películas abordam o cinema enquanto sonho em uma época em que o realismo toma conta das telas dos cinemas. “O filme padrão do cinema internacional hoje é A Separação, são os filmes argentinos. É interessante a gente ver dois filmes de grande sucesso falando ao contrário, falando do cinema enquanto imaginação”, avaliou o cineasta.

Diegues comentou que, quando o cinema foi inventado, o teatro não desapareceu, da mesma forma que, quando a televisão se popularizou, o cinema não morreu. De acordo com esta linha de pensamento, a internet também não destruirá as plataformas anteriores. “Todos os produtos culturais encontram espaço nas novas tecnologias”, defendeu.

Hora de reinvenção

Crítica de cinema do jornal O Globo, Suzana Schild ressaltou que o cinema atual apoia-se em refinados efeitos digitais e na velocidade das narrativas, enquanto O Artista faz sucesso sem usar cores ou sons. E a ação segue um ritmo mais lento se comparado com as produções que alcançam altas bilheterias. A crítica comparou as questões abordadas nos dois filmes com o momento vivido pelo jornalismo com as mudanças causadas pelas novas ferramentas de comunicação. “Existe um paralelo, que é como lidar com épocas de transformação. Assim como a transição do cinema mudo para o cinema falado provocou uma transição onde várias carreiras foram ceifadas, mas outras surgiram, essa transformação tecnológica da imprensa também está provocando transformações que estão em curso e não param. Uma coisa nós sabemos: já perdemos o bonde”.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do jornal O Estado de S.Paulo, ressaltou que a discussão em torno do impacto das inovações tecnológicas é antiga. “A tecnologia é assustadora sempre. Eu lembro que, em um determinado momento, há dez ou onze anos, o pessoal [do festival] de Cannes fez um grande debate sobre as novas tecnologias, sobre o mundo digital. E a pergunta que todo o mundo se fazia era essa: ‘Se mudar o suporte, se acabar a película – e está acabando realmente, a Kodak está pedindo concordata – e a gente tiver um outro suporte, ainda vai ser cinema? A gente vai continuar chamando de cinema?’ Isso é apenas uma pontinha, um detalhe do iceberg”.

Apatia diante do novo

Merten sublinhou que a tecnologia está sempre mudando e exigindo que os profissionais se reciclem e, principalmente, tirem partido dela. Para o crítico, o cinema e a imprensa ainda têm um papel importante na sociedade; no entanto, precisam de uma reinvenção para sobreviver. Na avaliação do fotógrafo Leonardo Aversa, as novas tecnologias se sobrepõem às antigas e não destroem o que foi feito anteriormente. Os bons artistas sobrevivem independentemente da plataforma.

João Cândido Portinari, filho do pintor Cândido Portinari e fundador do Projeto Portinari, contou que seu pai, nos anos 1950, desencantou-se com o rumo das artes no Brasil e chegou a afirmar que a pintura iria acabar, tese que depois abandonou. Para João Cândido, é complicado fazer prognósticos sobre o futuro de produtos culturais como cinema e jornal impresso. “O tempo é o senhor da razão”, lembra. O professor comentou que é assinante de um jornal em papel, mas em algumas ocasiões prefere ler as notícias em plataforma digital, por conta das ferramentas de busca.

No debate ao vivo, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna explicou que estes dois filmes são uma ilustração dos contos de fadas e comentou suas impressões ao assistir a O Artista. “Eu entrei nesse filme e saí mudo. Sobretudo porque o cinema de hoje é uma barulheira tão grande que você se confunde com a mensagem. De repente, um filme que não está fazendo barulho nenhum te põe para raciocinar. Esse é o grande milagre do cinema, que consegue através da imagem dizer coisas que às vezes as palavras não conseguem dizer”, contou o escritor.

Jornalismo-arte

Dines questionou se o Jornalismo pode ser considerado uma forma de Arte. “Uma das grandes mentiras da humanidade é a de que todo mundo é artista. Você não pode dizer que todo mundo é jornalista. Há jornalistas melhores, jornalistas piores. Com a Arte é a mesma coisa”, respondeu Affonso Romano de Sant’Anna. Para ser jornalista, é preciso ter vocação, empenho e um bom texto. “Estes dois filmes estão dizendo uma coisa para a gente: Arte é uma coisa complicadíssima, e só pessoas muito competentes podem fazer. Não é para qualquer um, não. Há gente que é bom artista, há artistas geniais e há gente que não é artista mesmo”, enfatizou o escritor.

O crítico de cinema da Folha de S.Paulo, Inácio Araújo, comentou a afirmação de Dines de que a indústria cinematográfica “gosta de si mesma”, enquanto o Jornalismo não se valoriza. Araújo acredita que a imprensa gosta do que faz, tanto que os jornalistas acabam falando de trabalho nos encontros sociais. E defendeu a elegância na imprensa. O crítico explicou que a Arte tem relação com o “bom viver”, com a abertura de possibilidades para a convivência e para a troca de ideias. Neste sentido, cinema, teatro, literatura e jornalismo se engrandecem quando procuram aprimorar o bem-estar porque isso leva à cidadania.

“Eu acho que nós nos preocupamos com a questão do fim do papel, com as transformações que acontecem e com a chegada de um meio como a internet, que pode ser tão traumática quanto essa passagem do cinema mudo para o sonoro”. Na opinião de Araújo, a imprensa também se transforma, mas até a popularização da internet as mudanças ficavam restritas aos limites da página impressa, nunca houve uma revolução na forma de apresentar a notícia.

Há espaço para todas as plataformas?

Entre as mudanças tecnológicas enfrentadas pela mídia ao longo da história, o momento mais sensível foi a chegada da televisão, na década de 1950, que implantou o “jornalismo-show”. E a junção entre notícia e espetáculo acabou marcando também a imprensa escrita. Inácio Araújo comentou que, hoje, a internet possibilitou o “incômodo” contato entre o leitor e o autor, que muitas vezes se confundem. “Há uma fricção e os profissionais de imprensa vão ter que se resolver”.

O cinema vive um momento singular onde o barateamento das tecnologias permitiu a produção de filmes com baixo custo. Alguns são feitos até com câmeras de telefones celulares. Para Rodrigo Fonseca, este aumento de produção não levou a uma melhora na qualidade dos filmes. “Você pega o bojo dessas produções e são poucos os que se destacam”, opinou o jornalista. Esta situação, na avaliação de Fonseca, se reflete no Jornalismo. “Acabou a ideia do postulado da crítica. Hoje muita gente acha que, por fazer blogs, o blog já é um pensamento crítico. Pode conter um olhar crítico, mas não é. E isso faz diferença”.

O imaginário que o cinema ajudou a construir sobre o Jornalismo também foi discutido no programa. Rodrigo Fonseca explicou que, enquanto alguns filmes alegorizam o Jornalismo de forma depreciativa, como A Montanha dos Sete Abutres, outros mostram a figura do jornalista com uma postura heroica, como Z, de Costa Gavras, e Um dia muito especial, de Ettore Scola. Outro exemplo citado por Fonseca como um retrato do jornalismo romântico no cinema, mas que é pouco lembrado, foi o grande sucesso de público Superman, lançado em 1978.

 

***

“O Jornalista”

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 629, exibido em 6/3/2012

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Os cinco Oscars recebidos pelo filme O Artista e os outros cinco pelo filme Hugo Cabret não podem ser vistos apenas como homenagens da indústria do cinema a si mesma.

As duas películas têm um valor adicional que não pode ser minimizado. O Artista, especialmente, é uma inspirada alegoria à perenidade da arte, de todas as artes, sobretudo quando ameaçadas pelas inovações tecnológicas.

A história gira em torno de um consagrado ator do cinema mudo que não consegue adaptar-se ao cinema sonoro. O inevitável final feliz chega através da dança (que era outra das habilidades do ator). A mensagem é clara: quando a obra de arte é autêntica, ela supera todos os desafios impostos pelo progresso.

O jornalismo-arte também está sendo ameaçado pela tecnologia e pelo jorro informativo produzido pela internet, mas, ao contrário da indústria cinematográfica, a indústria jornalística não tem auto-estima. Não gosta do que faz. E não vê outra saída a não ser prever o fim de si mesma ou do veículo que a glorificou ao longo de mais de quatro séculos: o jornal impresso.

O Artistaé uma produção francesa com direção e elenco franceses sobre uma indústria cujo nascimento na França é retratado pelo outro premiado Hugo Cabret, porém realizado com todos os recursos tecnológicos de última geração americanos.

A verdade é que o cinema gosta de si mesmo e por isso agrada há tanto tempo nos quatro cantos da terra. O jornalismo, a imprensa, precisa ser mais gostada, mais venerada e, sobretudo, mais cuidada por todos os que estão nela envolvidos – dos repórteres aos empresários.

Quando a imprensa puder gabar-se do que faz, então teremos obras parecidas com O Artista, mas com outro título – “O Jornalista”.

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