Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

O presidente no centro do debate

Por Tulio Muniz em 08/06/2010 na edição 593

Candidato às eleições presidenciais de Portugal, o poeta e ex-deputado socialista Manuel Alegre pôs Lula no centro do debate em entrevista ao programa Grande Entrevista, da TV portuguesa RTP1, na quarta-feira (2/6). Alegre usou do sucesso da política econômica adotada por Lula no Brasil para se contrapor ao seu adversário potencial, o atual presidente Cavaco Silva, do PSD (centro-direita). Cinco anos atrás, ambos se enfrentaram em disputa pelo mesmo cargo e Cavaco usava e abusava da condição de economista nos debates e propostas públicas para se distinguir de seus adversários. Levou a melhor sobre Alegre (que, à época, saiu como independente e ficou em segundo lugar) e Mário Soares, candidato oficial dos socialistas.


Agora, Alegre lembrou que ‘o presidente Lula não é economista’, mas tem sido notável na condução da economia e dos programas sociais do Brasil. Na sequência, o português tocou em outro ponto importante: seu país não pode negligenciar quanto às relações atlânticas, sobretudo com Brasil (reforçou ele) e Angola, e não pode se fechar dentro do sonho europeu, atualmente convertido em pesadelo.


Maniqueísmos antidemocráticos


O cargo de presidente em Portugal pode ser uma função do tipo ‘rainha da Inglaterra’, e Cavaco bem cumpre esse papel, evitando tomar posições públicas condizentes com sua posição de centro-direita e quando tem que tomar uma que lhe desagrada o faz cheio de dedos, como foi a promulgação do casamento gay mês passado. O governo é exercido pelo primeiro-ministro (José Sócrates, do PS, o atual) e ao presidente cabe, entre poucos outros atos, a representação internacional do país e a destituição do governo em caso de ruptura institucional. Alegre defende um protagonismo maior para a função e bem pode ter razão diante da conivência generalizada que governos de esquerda e direita vêm tendo tem no contexto europeu com a crise atual, onde as famílias vêem seus impostos aumentados e seus rendimentos reduzidos enquanto os bancos passam ilesos. Daí, Alegre recorrer à referência externa, Lula, como modelo alternativo.


Outro ponto importante: Alegre realça o papel cada vez mais importante de Lula e da imagem do Brasil hoje no exterior e, sobretudo, na imprensa europeia (Le Monde, El País etc.). Nos últimos dois anos e meio que tenho vivido em Portugal, não houve um momento sequer em que Lula fosse tratado com descaso ou falta de admiração pela comunicação social, a portuguesa em particular. E no Brasil, até quando a ‘grande’ mídia insistirá nos maniqueísmos antidemocráticos que vem adotando na disputa eleitoral nacional? Não bastaram as lições históricas do golpe militar e da eleição de Fernando Collor?

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Jornalista, historiador e doutorando em Pós-Colonialismo e Cidadania Global na Universidade de Coimbra, Portugal

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