Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

O público não é estúpido

Por Venício A. de Lima em 09/06/2010 na edição 593

Robert Fisk, premiado jornalista inglês, correspondente no Oriente Médio do The Independent, em discurso no V Fórum Anual da emissora árabe de televisão Al Jazeera (publicado originalmente no site Vi o Mundo e também na Carta Maior) recoloca uma questão fundamental: como jornalistas incorporam acriticamente o que ele chama de ‘palavras do poder’, isto é, palavras e expressões deliberadamente criadas nos laboratórios do poder hegemônico para falsear a realidade que aparentam significar.


O tema, por óbvio, não é novo. No clássico 1984, de George Orwell, a edição que estava sendo preparada do Dicionário da Novilíngua daria à língua a sua forma final não pela invenção de novas palavras, mas, sobretudo, pela destruição de palavras existentes.


Estudos sobre a difusão mundial da idéia de globalização no final do século 20, por exemplo, apontaram para a ‘violência simbólica’ praticada pela introdução de palavras/expressões como flexibilização, governabilidade, nova economia, fragmentação, tolerância zero paralelamente à desqualificação sistemática de conceitos como capitalismo, classe social, dominação, exploração, desigualdade, dentre outros.


O famoso consultor do Partido Republicano e ex-assessor do presidente Bush, Frank I. Luntz, explicou publicamente, em 2003, a eficiência da substituição de palavras/expressões nas campanhas eleitorais e na sustentação da imagem positiva de governos, nos Estados Unidos: ‘aquecimento global’ vira ‘mudança climática’; um ‘programa de desmatamento’ vira ‘florestas sustentáveis’; ‘privatizar’ vira ‘personalizar’; ‘invasão’ vira ‘guerra contra o terrorismo’ – e assim por diante.


Fisk e as palavras do poder


O que o assustador discurso de Fisk constata é como a relação de jornalistas com o poder mundial hegemônico está contaminada pela adoção acrítica de um vocabulário que serve de importante instrumento na construção de uma falsa visão do que ocorre hoje no mundo. Diz ele:




‘No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras – é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.’


Os exemplos que apresenta estão, sobretudo, relacionados com a política externa e as ações americana e inglesa no Oriente Médio e incluem expressões como processo de paz, a paz dos bravos, pico de violência, narrativas que competem ou a substituição, sem mais, de ocupação por disputa; de muro por barreira de segurança, de colonização por acampamentos ou postos.


Um estudo sobre a cobertura que a grande mídia nativa tem oferecido da política externa brasileira, sobretudo das recentes tentativas, ao lado do governo turco, de mediar um acordo com o Irã sobre o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, certamente revelaria um processo equivalente de adoção acrítica da narrativa do poder mundial hegemônico. Ou não seria isso exatamente o que faz, por exemplo, o jornal O Globo quando chama a atual política externa de ‘suicídio diplomático’?


Abreviando seu próprio fim


Fisk em seu discurso, todavia, traz uma reflexão fundamental. Diz ele:




‘O lado mais perigoso de nosso (jornalistas) uso da semântica de guerra, nosso uso das palavras do poder – embora não seja uma guerra, já que nós nos rendemos – é que isso nos isola de nossos telespectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem as palavras e, em muitos casos – temo – melhor que nós. Eles sabem que estamos afogando nosso vocabulário na linguagem dos generais e presidentes, das assim-chamadas elites, na arrogância dos experts do Brookings Institute, ou daqueles da Rand Corporation ou o que eu chamo de think tanks.’


Talvez seja essa mais uma das razões a explicar a crise continuada da velha mídia, não só entre nós, mas no mundo: nossos telespectadores e leitores não são estúpidos.


A partidarização como estratégia de sobrevivência e a adoção acrítica da narrativa do poder estão acelerando a desconstrução de modelos superados de jornalismo e, inclusive, de modelos de negócios. Insistir neste caminho significa, para a grande mídia, abreviar seu próprio fim.

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Professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher,2010

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