Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Os bandidos no poder. Sem ponto de exclamação

Por Nelson Hoineff em 03/01/2007 na edição 414

Entre os personagens recorrentes de Nelson Rodrigues, o ‘copidesque do Jornal do Brasil‘ (dos bons tempos, é claro) traz muitas lições atuais. Uma de suas características é que, se pudesse, reescreveria Marcel Proust para ficar mais palatável ao leitor. Outra: se uma bomba atômica caísse na redação do jornal, ele escreveria: ‘Caiu uma bomba atômica’. E não acrescentaria à frase ‘um mísero ponto de exclamação’.


Quando o presidente da República, no seu discurso de posse, afirma que o banditismo do Rio é terrorismo, está fazendo o que se espera de um presidente. Exceto pelo fato de que sua constatação vem com um atraso de alguns anos. Uma das razões desse atraso é que faltam pontos de exclamação na mídia.


Não pontos de exclamação literais, é claro. Muito menos manchetes apocalípticas em caixa alta. Mas exclamação de verdade: a capacidade de despertar a indignação do leitor. Despertar e manter.


Nos jornais, a chacina contundente da véspera é substituída pelo escândalo do dia seguinte. A reportagem do telejornal sobre a selvageria urbana é atenuada três minutos depois pela matéria de encerramento, sobre a chegada da primavera. Essa é uma norma, herdada da pior tradição da TV brasileira: a de perfumar a informação, escamotear o ruim – porque não é sua própria desgraça que o povo quer ver na hora do jantar.


Próximo passo


Não foi queimando famílias vivas no ônibus da Viação Itapemirim que a bandidagem tomou o Rio de Janeiro. O poder no Estado já foi de fato assumido pelo tráfico há bastante tempo. É a lei do bandido que vigora há anos em todas as favelas do Rio – e agora também no asfalto. A população resignou-se à idéia de ter se transformado em caça. Cada volta para casa é uma vitória improvável do cidadão. Trata-se de uma situação única fora de estados de guerra.


Isso não aconteceu da noite para o dia. É fruto de uma longa gestação. Nesse tempo todo, os jornais e revistas – e muito especialmente a televisão – não tiveram a capacidade de despertar a indignação da população para o que estava acontecendo no estado. Talvez tenham tido sucesso em revoltá-la contra o bandido do dia. Não contra os políticos que os produziram.


Tratar cada ação criminosa como um fato circunstancial faz da mídia uma cúmplice do que aconteceu. Só a mídia – e ninguém senão ela – teria a capacidade para criar um estado de indignação na sociedade ante a guerra civil da qual o tráfico saiu vitorioso. Não há muita coisa que uma população revoltada possa fazer com legitimidade. Votar a cada quatro anos é uma delas. Estatisticamente, 78% da sociedade brasileira são informados primariamente pela televisão. Pois o que fez a televisão brasileira nesse tempo todo para deixar o povo revoltado contra os fabricantes de bandidos?


Os dois últimos governos do Rio de Janeiro, por exemplo, aparentemente não foram informados sobre o que acontecia no estado. A outra hipótese é que tivessem sido coniventes, mas o povo não votaria em governantes coniventes com a tomada do Rio pelos grupos que são capazes de queimar vivas as suas famílias.


O presidente da República, depois de um primeiro mandato de quatro anos, foi informado da tomada do Rio de Janeiro pelos terroristas. Antes tarde do que nunca. O próximo passo é saber como se pode desalojá-los do poder que de fato eles mantêm. O novo governador de direito sinalizou sua disposição de participar dessa tarefa (até porque o poder que foi usurpado é seu). Mas nada poderá ser feito sem que a mídia tenha a capacidade de ajudar a sociedade a exercer a cidadania.


Sob a batuta do crime


O papel do telejornalismo nisso tudo é essencial. Informar o espectador sobre a ocorrência de um crime significa quase nada, se ele não é sacudido para entender as circunstâncias em que a lei está sendo quebrada, por quem, e o que ele pode fazer em defesa dos seus direitos. Uma população inteira subjugada pelo crime comum, patrocinado pela omissão do Estado, é um dos quadros mais tristes que se pode imaginar para qualquer país.


As novelas vistas toda noite por mais de 80 milhões de brasileiros manipulam as emoções e estabelecem relações tão estreitas quanto absurdas entre o cidadão e o personagem ficcional. Colocam todos os pontos de exclamação banais, estúpidos, que são legítimos na dramaturgia.


Pois informar convenientemente e despertar consciências não é apenas legítimo – é obrigatório no exercício do jornalismo. A televisão brasileira, no que ela chama de jornalismo, oscila entre os tablóides sensacionalistas que estimulam ainda mais a violência e a omissão travestida de grandes reportagens sobre bichinhos em extinção. Difícil saber o que é pior.


Um e outro ajudaram a que se instalasse no Rio de Janeiro uma das piores qualidades de vida do mundo e um estado regido pela criminalidade. Se a mídia estava esperando que caísse uma bomba atômica para colocar um ponto de exclamação virtual sobre esse estado de coisas, não há mais o que esperar.

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