Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Quem formula (e decide) a agenda

Por Valério Cruz Brittos e Denis Gerson Simões em 08/06/2010 na edição 593

O evento recente que trouxe novamente à pauta a Lei da Anistia, mantida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), fez mais do que simplesmente renovar a lembrança sobre o que o regime militar queria deixar esquecido: colocou novamente à mostra a necessidade da própria sociedade se posicionar sobre temas de relevância nacional.

A apatia do brasileiro frente às questões políticas, sociais, econômicas e culturais acaba por dilatar a força de atuação das minorias hegemônicas e amplificar o potencial representativo das mídias que, ilusoriamente, se apresentam como porta-vozes das massas, enfatizando o potencial da agenda setting. Atrás da imagem-clichê de nação do samba e do futebol, do povo pacífico e hospitaleiro, o brasileiro, por seu turno, não assume plenamente a responsabilidade por seu próprio destino e deixa à vontade de poucos o futuro de milhões.

Perante tantas decisões complexas no cenário político e social do país, o posicionamento da sociedade civil é tímido. Sem as vozes da massa, ecoam os versos dos meios de comunicação e os sussurros dos personagens hegemônicos, projetados como opinião da maioria, por falta de contrapontos.

Esvaziar pressão sobre os governantes

Mas não é realmente concreta a informação que o brasileiro historicamente está desconectado de interesses sobre a governabilidade do seu país. Mesmo que dentro de alguns aspectos a sociedade tenha sido condicionada a determinados limites de atuação pública, isso não quer dizer que sempre foi omissa ante os acontecimentos nacionais.

Não se pode ignorar as ações da sociedade civil em períodos como os dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek de Oliveira e João Goulart, para citar somente três casos. Protestos e manifestações de grande porte eram recorrentes, de apoio ou repúdio aos acontecimentos pautados na nação. Passeatas e greves eram normais, em meio a uma sociedade que vivia em uma forte propaganda ideológica e que tinha no proletário, no camponês e na classe média bases do próprio confronto político. Mesmo que minoritária no poder decisório, a população constituía-se como instrumento de pressão.

Um dado que ganha destaque outra vez, com o debate sobre a Lei da Anistia, é a remanescente vitória do regime militar, tanto em conseguir conter a oposição, no passado, quanto em colocar a população num novo status, passivo, frente às posições políticas, o que permanece hoje. Depois de 1964 foram pontuais os grandes movimentos da sociedade civil que, após um longo período de repressão, acomodou-se a pouco agir e assumiu seu papel de motor do país, e não também de timoneiro. Brasília, agora cinqüentenária, inacessível geograficamente à maioria dos brasileiros, contribuiu para esvaziar grande parte da pressão que a população podia fazer sobre os governantes, refugiados em uma ilha no centro do país, para comandá-lo com baixa intervenção pública.

Programas popularescos e merchandising social

Um desenho de reação por parte da sociedade foi esboçado a partir do final dos anos 1970, o que redundou no fim do regime militar, em 1985. Contudo, esses movimentos não cresceram em dimensão e acabaram atenuando-se na redemocratização. Isso se coaduna com a dinâmica global do mundo, onde o descrédito com a política tradicional leva a uma mudança de postura do cidadão. As lutas por questões gerais transformam-se em pequenas ações de forte cunho midiático, com o auxílio da internet, geralmente ligadas a demandas de grupos sociais específicos, desconectadas entre si e sem remeter aos problemas totais do sistema, os quais atingem a todos os trabalhadores, indistintamente.

A ausência de atuação social firme também se faz esvaziada pela ação dos meios de comunicação que, passados mais de 30 anos da queda da ditadura militar, ainda fazem uso de estruturas ali forjadas. Não por acaso o poder público é um grande anunciante das emissoras de rádio e televisão do país. Entretanto, a relação é mais profunda: um desajuste de opiniões entre Estado e mídia representa, mais do que um afronte político, um desalinhamento no âmbito do sistema, o que não implica uma conexão direta entre governo e meios de comunicação (os ataques ao governo Luiz Inácio Lula da Silva demonstram isso).

A acomodação e o esquecimento dos fatos nacionais dão força para grupos minoritários se manterem liderando os principais espaços de poder da nação, mesmo atuando contrariamente aos interesses majoritários da sociedade ou cometendo ações ilícitas. Na apontada retomada da discussão da Lei de Anistia, por exemplo, a discussão efetiva não ocorreu. O Brasil segue aceitando o famoso legislar em causa própria e nada faz contra isso.

Em meio às odes que cantam e ressaltam a beleza do brasileiro pacífico, carece um pouco de indignação. Fica evidente que, em meio a tantas problemáticas que o indivíduo precisa enfrentar, ele optou por não estar entre suas prioridades o debate sobre o destino do país. Isso é sinônimo de individualismo, assim como de uma crise de auto-estima, fortalecida e cultivada com o passar de décadas e que ainda engessa a sociedade civil, não pela repressão, mas pelo fomento à apatia. A mídia contribui para essa desmobilização em resolver os problemas do mundo e do país, ao oferecer-se como ‘solucionadora do mundo’, com seus programas popularescos de embate privado e com seu merchandising social.

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Respectivamente, professor titular no programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e mestrando em Ciências da Comunicação na mesma instituição

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