Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
Menu

JORNAL DE DEBATES >

Rede Globo vs. Dunga: o azarão da Seleção

Por Cíntia Cerqueira Cunha em 29/06/2010 na edição 596

O embate envolvendo Rede Globo e Dunga, treinador da Seleção brasileira, que descambou no editorial ridículo encenado por Tadeu Schmidt no último domingo, começou bem antes. Essa forma desairosa e descabida de a Rede Globo desmoralizar personalidades, tentando levar ao chão a reputação de pessoas de bem, é um ‘padrão global’ e não devemos cair na inocência de que ‘(…) a preocupação do jornalismo da Rede Globo sempre foi a de levar a melhor informação a você, telespectador’.

A bola da vez – desde que saiu a convocação para a Copa do Mundo – da campanha de desmoralização é o Dunga e a Globo não vai poupar esforços de, nas entrelinhas ou aos gritos mesmo, falar mal do rapaz até que ele desmorone do cargo que ocupa ou seja o único culpado de um eventual fracasso da nossa Seleção Canarinho na Copa do Mundo 2010.

Em Jornalismo Especializado, quando estudávamos o Jornalismo Esportivo, fiz a comparação – com meus alunos – da postura de dois jornalistas: um, Arnaldo Jabor que, do alto de sua empáfia, acha que pode falar em nome de todos os brasileiros; o outro, o jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho, estudioso da área que assina artigos na Folha de S.Paulo. Todos dois opinam e criticam, porém, um só informa: o PVC.

No meu entendimento, como professora, a crítica deve ser respeitosa, o que não acontece com alguns produtos ‘jornalísticos’ elaborados por colunistas da Rede Globo. Compare a coluna de Arnaldo Jabor e o artigo de PVC sobre a convocação de Dunga.

A teimosia do técnico do Brasil

Coluna de Arnaldo Jabor – Jornal da Globo – edição 11/05/2010 – duração 1´08´´

‘Eu não diria burrice, mas o teimoso pertinaz, o cabeça-dura acha que ser inteligente é ser contra a opinião geral. Se todo mundo quer uma coisa, ele nega. Acha que isso lhe confere uma certa originalidade ao avesso. Eu não diria burrice, mas o testa curta que morre e não muda (soco na mão) de opinião ama o já sabido, odeia os riscos e, portanto, odeia o talento. A juventude, o novo, o imprevisível dá-lhe medo. Os, digamos, conservadores radicais admiram mais a obediência, a caretice dos certinhos do que os gols de bicicleta, as fintas milagrosas, as pedaladas das peladas poéticas. Eles preferem as defesas burocráticas contra a invenção e o improviso. Nem que fosse no banco! Como ignorar o clamor geral pelos meninos geniais?! Só fica a nossa decepção. Nós, os burros, (risos) os idiotas, nós que não entendemos as razões profundas dos cabeçudos, nós não sabemos nada. Aí, dá pra pensar: `Ainda bem que o Dunga não era o técnico da Seleção em 58, senão Pelé não tinha sido convocado. Nem Garrincha!!!´’

Os erros dos outros

Paulo Vinícius Coelho – Folha – 16/05/2010

‘Cada um sabe onde o calo aperta. Daí, os italianos estarem bravos com Lippi, os argentinos com Maradona…

A revista argentina El Gráfico publicará, em sua edição de junho, enquete com jornalistas do mundo inteiro sobre os favoritos para a Copa. A pesquisa ainda não está encerrada, mas Brasil e Espanha dividem a preferência. Em terceiro lugar, bem longe, a Argentina. O colégio eleitoral está espalhado pelo mundo, mas o sentimento argentino é semelhante. `Podemos vencer, mas houve muitas reclamações sobre a convocação de Maradona´, relata o jornalista Elias Perugino, coordenador da enquete.

Todas as colunas de opinião fizeram críticas à convocação de Dunga, nesta semana. Na Argentina também. E na Holanda, na Espanha, na Alemanha… `Na Itália, o esporte preferido é criticar´, diz o jornalista da Mediaset Enzo Palladini. Cada técnico tem o seu pecado. Na Itália, Totti deixou claro que estava à disposição de Marcello Lippi e não foi chamado. O técnico campeão do mundo em 2006 é acusado de convocar por gratidão. `Dizem que Lippi só gosta dos velhos´, afirma Palladini, em referência aos 11 vencedores de 2006 contemplados na lista da última terça-feira.

Maradona tinha convocado 103 jogadores para 18 partidas de sua gestão até a semana passada, quando chamou cinco novatos para o amistoso contra o Haiti. Ariel Garcé, zagueiro de área, jogou como lateral-direito. Foi bem e entrou na lista final dos 30. `A maior crítica é ter convocado muitos zagueiros de área e nenhum lateral, a não ser Clemente Rodríguez´, diz Perugino.

A Espanha incluiu cinco goleiros na lista dos 30, enviada à Fifa, sem se dar conta de uma contradição no regulamento. É preciso relacionar os 23 para a Copa a partir da lista de 30, mas incluir três goleiros necessariamente. Ora, se entre os 30 só houver três arqueiros, como no caso do Brasil, e um deles se machucar, a escolha de um 31º nome é obrigatória.

Para que, então, relacionar cinco goleiros na primeira lista? Os espanhóis não criticam, mas lamentam as lesões de Fabregas, Iniesta e Fernando Torres, que só terão condição de voltar aos gramados em junho.

Não é verdade, portanto, que só a seleção brasileira tem convocados em má fase técnica ou física.

Cada um sabe onde o calo aperta.

Até quando tem que continuar aguentando?

Daí, os argentinos estarem bravos com Maradona, os italianos com Marcello Lippi, os franceses com Raymond Domenech, o Brasil com Dunga. O pecado da lista brasileira é incluir Kleberson e Ramires, em vez de Ganso ou Ronaldinho. Preferencialmente Paulo Henrique Ganso, sobre quem Dunga cometeu o pecado mortal de dizer que foi reserva no Mundial sub-20 – ele foi titular do primeiro ao último jogo. Para não convocar, também é preciso saber tudo sobre o atleta.

Mesmo assim, é inegável que o Brasil trabalhou melhor, nos últimos quatro anos, do que vários rivais pelo título. A Argentina convocou 108 jogadores nos 19 jogos de Maradona. Itália, Holanda, Inglaterra e até mesmo a Espanha mudaram de treinador no meio do caminho. O trabalho com começo meio e fim não é garantia de vitória na Copa, como mostram os títulos do Brasil, em 2002, e da Itália, em 2006. Mas é melhor do que contar com a sorte na reta de chegada. Esse erro, o Brasil não cometeu.’

Sobre o PVC, aplaudo o artigo pontual, informativo e com críticas certeiras, responsáveis e respeitosas. Quanto ao Arnaldo Jabor, eu preciso falar mais alguma coisa? Depois de ser chamado de burro, teimoso pertinaz, testa curta (ou seja: burro de novo), medroso, conservador radical, cabeçudo de forma direta na coluna do Jabor e de ser criticado nas entrelinhas em outras matérias mais amenas da emissora e até mesmo nos gracejos engraçadinhos de Tiago Leifert durante a Central da Copa, Dunga tem que continuar aguentando tudo?

Jornalismo cruel e antiético

Não concordo com atitudes disparatadas, mas ter sangue de barata até quando?

O que o Tadeu chama de xingamento gratuito, eu chamo de desabafo e quando ele fala que o Dunga teve a imprensa como alvo, eu digo: a imprensa, não, somente o ‘jornalismo’ da Rede Globo, pois os demais jornalistas do Brasil e do mundo parecem não ter nada a reclamar do comportamento do treinador nas coletivas de imprensa.

O que acontece agora com Dunga não é novidade. Foi assim com Zagallo (lembra da frase ‘Vocês vão ter que me engolir’?), foi assim com Nelson Piquet (que, durante anos, se negou a dar entrevistas para a Rede Globo) e acredito que ainda teremos muitos atletas e dirigentes esportivos indignados com a postura do jornalismo global.

Penso que se o Dunga foi nomeado para o cargo que ocupa, cabe a nós, torcedores ou jornalistas, respeitar suas escolhas e dar apoio em suas deliberações. Afinal, picuinhas como essas podem não só tirar o técnico do sério, como desestruturar psicologicamente uma equipe inteira. E uma equipe nervosa em campo descamba em fracasso. Depois, de quem é culpa? Da Globo? Certamente que não. É sempre do treinador. E assim, mais uma vez, vence o jornalismo de campanha, cruel e antiético. Triste isso.

******

Jornalista e professora de Comunicação Social da Uniube, Uberaba, MG

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem