Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNAL DE DEBATES >

Uma concordata antiga. E mofada

Por Alberto Dines em 27/03/2012 na edição 687

O veterano repórter José Maria Mayrink, do Estado de S.Paulo, um dos nossos maiores especialistas em questões religiosas, com um impecável trabalho junto à igreja católica desde os tempos da ditadura, não conseguiu o visto para entrar em Cuba e acompanhar a visita do papa Bento 16. Esta seria a sua quinta viagem à ilha. A embaixada cubana em Brasília recorreu à velha fórmula stalinista para impedir sua entrada no país: não negou o visto, simplesmente não respondeu à solicitação (feita em 16 de janeiro).

Também o correspondente do El País em Roma – por tradição um expert em questões vaticanas –, o não menos experiente Pablo Ordaz, teve o seu visto negado pelas autoridades cubanas. O mais importante jornal em língua espanhola do mundo cobriu a viagem do sumo pontífice a partir de Roma (pelo mesmo Pablo Ordaz) e pelos enviados ao México, primeira e única escala antes de arribar à ilha dos irmãos Castro. Fidel e Raul não apreciam a imprensa progressista: em setembro de 2011 retiraram as credenciais e com isso expulsaram do país o correspondente Maurício Vincent, do El País.

Grande repórter, Ordaz publicou na segunda (26/3), arrasadora denúncia contra o périplo pontifical: “Setores da Cúria duvidam da idoneidade da visita à ilha” (veja a íntegra aqui). Maurício Vincent, em Madri, não ficou atrás e desancou a estratégia do Vaticano: “A agenda de Ratzinger está mais voltada para consolidar o papel da hierarquia católica local como ator político do que forçar mudanças a curto prazo na ilha”.

Nas páginas seguintes, Andrés Oppenheimer, que cobriu diversas ditaduras militares na América Latina, revela a opinião do encarregado das Américas do Human Rights Watch, José Maria Vivanco: “Nunca vi algo parecido…[esta viagem] é resultado de uma óbvia subordinação da hierarquia eclesiástica ao regime cubano”.

Contra a violência

Em 1977 e 1978, centenas de familiares dos desaparecidos buscaram refúgio nas igrejas chilenas para chamar a atenção da opinião pública internacional. “A nenhum bispo chileno ocorreu a ideia de chamar a polícia para desalojá-los. O cardeal chileno Raul Silva Henriquez dizia que a Igreja deveria dar voz aos que não tinham voz. A igreja jamais permitiu que os órgãos de segurança do tirano Pinochet sequer se aproximassem dos templos.”

Em Cuba, 38 anos depois, o arcebispo de Havana chama a polícia para desalojar os dissidentes refugiados na igreja de Santa Rita alegando que “ninguém tem o direito de converter os templos em trincheiras políticas… Ninguém tem o direito de perturbar as celebrações dos fiéis cubanos que aguardam com júbilo e esperança a visita do Santo Padre”.

Na segunda-feira (26), a Folha de S. Paulo noticiou com destaque a prisão de 70 dissidentes cubanos, entre eles 20 mulheres do grupo Damas de Branco, em Santiago de Cuba, onde o papa desembarcou na terça. A cobertura do Estadão restringiu-se ao sermão de Bento 16 no dia anterior em León, México, apelando contra a violência. Aceitou o veto cubano.

Acordo com o fascismo

Como avaliar a ostensiva recusa do Vaticano em continuar o seu papel histórico na luta contra o despotismo latino-americano? Será, porventura, uma retribuição à concordata segundo a qual Havana concede à igreja católica uma série de privilégios e a coloca no patamar de religião oficial? Não seria esta uma disfarçada “opção laica” para enganar os ingênuos e confrontar os evangélicos na região do Caribe?

De qualquer forma, é bom recordar a grande concordata de 1929, o famoso Tratado de Latrão, assinado por Benito Mussolini e o Papa Pio 11, que deu status de Estado ao Vaticano e em troca ofereceu as bênçãos dos católicos ao fascismo italiano.

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Toulouse não é longe – Alberto Dines

Benedicto XVI, el cocodrilo y Cuba –Yoani Sánchez (El País, em espanhol)

 

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