Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CADERNO DO LEITOR >

Versões e contraversões, verdades e mentiras

Por Sylvio Costa em 01/02/2011 na edição 627

Isto não é um ensaio, talvez não seja sequer um artigo, mas apenas anotações reunidas para estimular a reflexão sobre jornalismo e comunicação na era Lula. O recado é que precisamos tirar o maniqueísmo de cena para analisar a comunicação na era Lula de modo honesto e rigoroso.

Versões: desde a posse, Lula tenta obsessivamente ‘aparelhar os meios de comunicação’ e comete constantes ‘atentados contra a imprensa livre’; o comportamento do PT coloca a democracia e a liberdade de expressão em sério risco; a imprensa brasileira está entre as melhores do mundo, só é criticada por realizar muito bem o seu trabalho.

Contraversões: o mensalão não existiu, foi invenção da mídia conservadora que nunca aceitou na presidência o operário Lula, de origem pobre e com precária formação escolar; as roubalheiras hoje aparecem mais porque nunca se combateu tanto a corrupção; as denúncias contra o governo e aliados são obra do ‘moralismo hipócrita e udenista dos demotucanos’.

Quantas vezes não ouvimos coisas parecidas? Por trás dessas afirmações, duas posições extremas em torno das quais gravitou grande parte do debate sobre comunicação ao longo dos últimos oito anos. Posições opostas, ambas equivocadas.

Ideia autoritária e estúpida

Porque os últimos anos foram de muita radicalização, mas também de certa pobreza na discussão de temas como as relações entre governo e veículos de comunicação e o papel do jornalismo. Meias-verdades e sofismas se disseminaram de um lado e de outro, transformando o exame da questão num cara ou coroa. Ou você acredita na existência do ‘Partido da Imprensa Golpista (PIG)’, ao qual se deve atribuir toda reportagem negativa sobre os métodos políticos usados na era Lula, ou você é feroz inimigo dos ‘petralhas’ e vê na imprensa o grande bastião da resistência democrática contra os mensaleiros manipuladores que tomaram o país de assalto. Que, por sinal, se mantêm no poder apenas porque colhem os frutos das sementes plantadas pelo presidente Fernando Henrique, este, sim, verdadeiro e único artífice das transformações que levam hoje o Brasil a crescer e a desconcentrar renda e oportunidades.

Numa guerra, conforme o clichê, a primeira vítima é a verdade. Por mais gasta que seja a imagem, foi isso o que aconteceu nos últimos anos. No jogo para parecerem mocinhos, de um lado, Lula, o PT e seguidores e do outro, muitos veículos, colunistas e representantes de segmentos da comunicação ignoraram fatos que corroem os fundamentos tanto das ‘versões’ quanto ‘contraversões’ inicialmente citadas. Alguns desses fatos…

O governo protagonizou desde 2003 alguns momentos lamentáveis no trato com a comunicação. O mais grave deles, em maio de 2004, ao anunciar a expulsão de Larry Rother, correspondente do New York Times, por causa de uma matéria que se denunciava pelo título, ‘Hábito de beber do presidente vira preocupação nacional’. A reportagem partia de um fato verdadeiro, o gosto de Lula por bebida, mas era exagerada e mal apurada. Só na cabeça de quem nada entende de comunicação, no entanto, ela poderia dar margem à ideia autoritária e estúpida de cancelar o visto de um jornalista estrangeiro.

Direito de manifestação sonegado

Ficou, do episódio, uma demonstração do tamanho da ignorância de membros do PT sobre o que é o jornalismo numa sociedade democrática e quais as formas de lidar com ele. A comunicação do governo tornou-se mais profissional e competente sob os cuidados do jornalista Franklin Martins, mas petistas e aliados continuaram dando sinais de não compreender (ou fingir não compreender) que uma das funções fundamentais do jornalismo é fiscalizar o poder. Minha hipótese é que o petismo tende a encarar o jornalismo de modo instrumentalizado (só é bom quando é a favor) porque se forjou na cultura do marketing e da propaganda. O PT ainda era um partido pequeno quando começou a fazer bonito no marketing. Preparou-se para ter, e teve, os melhores e mais caros marqueteiros. Não se preparou para enfrentar as notícias negativas sem mentiras, tergiversações ou cinismo.

Apesar disso, é impróprio concluir que Lula investiu sistematicamente contra a liberdade de imprensa. De modo geral, ele e seu governo respeitaram as regras do jogo democrático. A democracia e a liberdade de expressão não foram colocadas em risco pelo PT e por Lula. Nessa área, os sinais mais preocupantes vieram do Judiciário, que, dentre outros absurdos, impôs censura prévia a diversos jornalistas, empresas de comunicação e blogueiros, impedindo-os de fazer referência a determinados assuntos ou pessoas. O Congresso foi outro a pisar na bola, ao engessar demais as emissoras de rádio e TV e tornar virtualmente proibido o humor na lei que regulou as eleições de 2010.

Também não se pode aceitar, por outro lado, que a imprensa esteja imune a críticas. Há bons e péssimos exemplos a citar em relação à atuação dos veículos jornalísticos nos últimos anos. É fato notório que nas eleições presidenciais das duas últimas décadas muitos deles favoreceram os candidatos do PSDB e até Collor, em prejuízo dos postulantes petistas (Lula ou Dilma). Alguns veículos reagem mal às críticas, ou mesmo não admitem ser criticados. Certas redações ainda sonegam aos seus públicos ou a pessoas e instituições citadas em suas matérias o direito de manifestação sobre assunto que lhes dizem respeito.

Atos abusivos

E quem vai negar que vários profissionais e veículos de comunicação influentes conservam preconceitos contra Lula e o PT? Ou que costumam ser surdos e cegos para desvios éticos da oposição ao mesmo tempo em que exibem fúria contra as – diga-se, frequentes – bandalheiras do governo? E, muitas vezes, recusaram-se a dar crédito ao governo por méritos que títulos internacionais de grande prestígio, como a revista The Economist e o jornal Financial Times, reconheceram antes de certos veículos nacionais.

Loucura, porém, é inferir que o mensalão não existiu. Entendido não no sentido estrito de mesada a parlamentares, mas de pagamentos diversos a membros da base do governo no Congresso, o mensalão foi mais do que provado. Por provas testemunhais e materiais, como extratos bancários, contas telefônicas, registros em agências bancárias etc. Bobagem acreditar, igualmente, em ‘mídia conservadora’, no singular. Os grandes veículos guardam diferenças entre eles, possuem contradições internas e externas e não podem ser vistos como uma coisa só.

Mais grave é o cinismo contido nas tentativas de desqualificar qualquer investigação contra o governo e na lenda de que o governo combate a corrupção de modo excepcional e inédito. Ok, a Polícia Federal e órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU) têm aumentado a eficiência no combate a crimes contra a administração pública. Mas, inúmeras vezes, Lula em pessoa saiu em defesa de aliados flagrados em atos abusivos ou suspeitos. Foi assim com Renan, lembram? E, segundo ele, Sarney não poderia ser tratado como uma pessoa qualquer.

Desafios no campo da comunicação

‘Udenismo’ virou um álibi para não dar explicações que o PT cobrava quando estava na oposição e se apresentava como o partido da ética. O combate à corrupção já foi trampolim para muitos políticos oportunistas, da direita e também da esquerda. A campanha pela Lei da Ficha Limpa mostrou que o assunto mobiliza agora a sociedade, que assume o papel de protagonista. Precisamos mesmo reagir contra o roubo ao dinheiro público. Os prejuízos vão além dos muitos bilhões de dólares sequestrados do conjunto da população para serem apropriados por uns poucos gatunos – caso inegável de apropriação privada de bens coletivos, algo que deveria horrorizar esquerdistas de todos os matizes. Mas, pior, a corrupção é oxigênio para reprodução e ampliação de toda aquela cultura da esperteza, da farinha pouca, meu pirão primeiro, que sempre atrapalhou o Brasil a encontrar o caminho da igualdade social, da democracia e da solidariedade.

Vão muito além as mistificações em circulação. Sem afastá-las, será impossível compreender plenamente nossos desafios no campo da comunicação, que abrangem a inclusão digital, a urgente melhora da infraestrutura de internet (tanto em velocidade de banda quanto na ampliação da rede) e a democratização do acesso à informação.

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Jornalista, mestre em Comunicações pela Universidade de Westminster, criador e diretor do site Congresso em Foco

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