Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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JORNALISMO CIENTíFICO > Tendências

Ciência e tecnologia como um mosaico penumbroso no Brasil: a importância do jornalismo científico

Por Caroline Marques Maia e Vinícius Nunes Alves em 18/12/2019 na edição 1068

(Foto: Unsplash – AbsolutVision)

Divulgar adequadamente o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico é fundamental para que se compreenda melhor a importância do investimento em ciência e tecnologia para lidar com questões que afligem a sociedade. Um problema de saúde pública, tal como as superbactérias que apresentam taxas alarmantes no Brasil e no mundo [1]; a morte em massa das abelhas [2], que, a longo prazo, pode levar a sérias consequências na produção de alimento; a questão das mudanças climáticas antropogênicas, que devem afetar o bem-estar humano e os ecossistemas terrestres [3] são problemas que demandam ações urgentes, com as quais tanto ciência quanto tecnologia podem contribuir amplamente. Contudo, é evidente que muitas pessoas ainda não percebem ou não aceitam a gravidade desses problemas.

Embora tenha suas limitações, a ciência é uma forma de abordar os fenômenos que nos cercam no universo através da construção de generalizações pautadas nas melhores interpretações construídas a partir de sólidas evidências empíricas. O corpo de conhecimento que vai sendo constituído a partir do método científico é moldado ao longo do tempo conforme novas evidências vão surgindo, sendo, portanto, provisório [4]. Tal conhecimento se torna, de fato, científico, quando passa a ser consistentemente usado por outros cientistas de qualquer parte do mundo em um debate estabelecido em nível internacional.

E nessa história, onde entra a tecnologia? Ela se mistura com o corpo de conhecimento científico de diferentes formas. Considerando a visão mais simples, uma lâmpada, um instrumento cirúrgico ou um aparelho de comunicação são tecnologias desenvolvidas a partir de conhecimento científico, que na prática facilitam e podem até mesmo salvar vidas. Mas o desenvolvimento de novas tecnologias não está limitado a esse sentido único, pois pode ocorrer de outras formas, conforme aponta o cientista político Donald E. Stokes no livro O quadrante de Pasteur: a ciência básica e a inovação tecnológica. Um dos exemplos que essa obra traz é a série de tentativas de melhorar a máquina a vapor – uma tecnologia que ganhou destaque na I Revolução Industrial – que propiciou grandes avanços na teoria da termodinâmica da física. Ou seja, uma tecnologia gerou novos conhecimentos teóricos. Mais do que isso, as fronteiras entre aplicações práticas e o corpo de conhecimento não são claramente definidas. Um exemplo foi a descoberta do raio laser, por volta de 1960. Quando do seu surgimento, não tinha uma aplicação prática prevista, e ficou conhecido como uma solução em busca de um problema [5].

Entretanto, mesmo com a evidente importância tanto da ciência quanto da tecnologia para o desenvolvimento e o progresso da sociedade, a percepção pública sobre esses benefícios de C&T não é uma unanimidade. A falta de informação, os recortes frequentemente enviesados da mídia, uma mentalidade mais fechada ou mesmo uma postura negacionista das pessoas sobre a ciência são fatores associados a tais problemas de percepção.

No Brasil, uma pesquisa recente do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência (INCT-CPCT) constatou que a maioria da população jovem no Brasil não consegue citar o nome de uma instituição nacional de pesquisa nem de algum cientista brasileiro [6]. Em alguns casos, a divulgação científica também pode atrapalhar a percepção sobre ciência. Por exemplo, em um estudo publicado em 2013, Almeida e colaboradores demonstraram que um famoso veículo brasileiro de notícias – o Jornal Nacional – veio divulgando descobertas científicas relacionadas aos tratamentos com células-tronco embrionárias de forma a privilegiar os benefícios em detrimento dos riscos [7]. Isso acaba enviesando a percepção das pessoas sobre tais novidades científicas.

Além disso, a falta de tempo, o excesso de informações e a deficiência na formação de uma mentalidade mais crítica propiciam um cenário em que, mesmo sem checar evidências ou buscar aprofundamento no assunto, as pessoas passam quaisquer informações adiante. Nesse contexto, há um crescimento tanto de pseudociências, que não possuem as devidas evidências científicas para corroborar adequadamente suas ideias, quanto de fake news, que são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais [8]. O crescimento das fake news também afeta a ciência, sendo que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) abordou essa questão em evento recente [9].

O desconhecimento do público em geral sobre o método científico agrava ainda mais essa situação. Como aponta Carl Sagan, astrônomo e divulgador científico, no livro O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro, as notícias científicas mal popularizam o método crítico da ciência. Uma teoria científica não é apenas uma teoria. Ciência não é questão de opinião, mas sim de argumentos lógicos desenvolvidos com base em claras evidências empíricas. Negar a ciência e o desenvolvimento tecnológico é negar muitas das coisas que nos cercam. Carros, computadores, telefones celulares e tantos outros exemplos são frutos de muito conhecimento científico e tecnológico. Não podemos simplesmente negar a ciência de acordo com nossos interesses ou convicções pessoais.

É nesse contexto que cresce a importância de uma divulgação científica de qualidade. O jornalismo científico tem o papel não apenas de divulgar ciência e tecnologia, mas também de propiciar reflexões, contribuindo para a construção de uma visão mais crítica das pessoas sobre a ciência, como propõe Wilson C. Bueno, expoente jornalista científico brasileiro [10]. Assim, o jornalismo científico tem a função de provocar questionamentos no público a respeito das notícias de ciência e tecnologia. Se, por um lado, o jornalismo científico mal feito, seja por desleixo ou por intenções escusas, pode piorar esse quadro de percepção pública com reportagens sensacionalistas, sobre trabalhos ainda não aceitos para publicação científica ou com algum tipo de viés, por outro, o jornalismo científico de qualidade pode ser uma das melhores pontes entre o meio científico e a sociedade. Além disso, o jornalismo de ciência tem potencial social para atingir públicos cada vez mais amplos e heterogêneos através de exposições de ciências, revistas e jornais de divulgação científica, programas de TV e outros meios [11].

Nesse contexto, precisamos lutar para superar os principais desafios [12] em nosso país para atingir uma comunicação eficaz nas mídias tanto sobre resultados de pesquisas científicas quanto do próprio processo de “fazer ciência” associado a tais resultados. O jornalismo científico é de fundamental importância para divulgar adequadamente as novidades científicas e tecnológicas, e também para incentivar o público a ter uma percepção mais crítica e aprofundada sobre o que exatamente significa “fazer ciência” – e, consequentemente, sobre o papel da ciência e da tecnologia para a sociedade. Há evidentes motivos para o jornalismo científico se fortalecer no Brasil, estimulando a união de forças entre pesquisadores e jornalistas nessa empreitada. Cada um de nós pode fazer a sua parte “acendendo uma vela”, ou seja, estimulando uma percepção mais crítica e reflexiva acerca das notícias de ciência e tecnologia – que, para muitos, não passam ainda de um mosaico penumbroso.

REFERÊNCIAS

1- Guimarães, K. Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo. BBC News Brasil. 2017.
2- Grigori, P. Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses. Pública – Agência de Jornalismo Investigativo. 2019.
3- Johnson, C. N.; et al., Biodiversity losses and conservation responses in the Anthropocene. Science, 356:270-275, 2017.
4- Volpato, G. Ciência: da Filosofia à Publicação. Edição 7ª. Editora: Best Writing. 2019.
5- JN. Laser foi inventado há 50 anos. Jornal de Notícias. 2019.
6- INCT-CPCT. O que os jovens brasileiros pensam da ciência e da tecnologia? Agência Fiocruz de Notícias. 2019.
7- Almeida, C.; Dal’Col, F. L.; Massarani, L. Scientific controversies in Brazilian television journalism: the coverage of stem cell research on Jornal Nacional. História Ciências Saúde-Manguinhos, 20:1203-1223, 2013.
8- Campos, L. V. O que são fake news? Brasil Escola. 2019.
9- Arantes, J. T. Fake news na ciência. Agência Fapesp. 2019.
10- Bueno, W. C. A formação do jornalista científico deve incorporar uma perspectiva crítica. Diálogos & Ciência, 2012.
11- Vogt, C. The spiral of scientific culture and cultural well-being: Brazil and Ibero-America. Public Understanding of Science, 21:4-16, 2012.
12- Carvalho, B.G. Cinco visões sobre o jornalismo científico no país. Jornal da Unicamp. 2018.

***

Caroline Marques Maia é bióloga, mestre e doutora em zoologia na área de comportamento e bem-estar animal pela Unesp (campus de Botucatu – SP). É gestora-diretora do Clube Ciência do IGVEC (Instituto GilsonVolpato de Educação Científica), presidente da Iniciativa Consciência Animal e criadora do blog ConsCIÊNCIA Animal. Atualmente, é pós-graduanda no curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/UNICAMP.

Vinícius Nunes Alves é biólogo pela Unesp (campus de Botucatu – SP), com mestrado em ecologia e conservação de recursos naturais pela UFU. É professor de ciências e biologia na rede pública básica de ensino, além de colunista no site Notícias.Botucatu. Atualmente, é pós-graduando no curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/UNICAMP.

Agradecemos a Patrícia Mariuzzo, editora da revista Ciência e Cultura da SBPC, pela leitura e sugestões ao texto.

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