Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Nem tudo mudou em 50 anos

Por Dorrit Harazim em 26/11/2013 na edição 774

Encerra-se hoje [domingo, 24/11] a temporada de overdose permitida para relembrar o assassinato ocorrido em Dallas 50 anos atrás. Houve a esperada enxurrada de livros novos; brotaram vídeos, fotografias e gravações espetaculares, até então inéditos; artigos, seminários, exposições e eventos se multiplicaram ao longo dos últimos meses.

Do cinquentenário escapou apenas o tailleur cor de melancia manchado com o sangue do marido usado por Jacqueline Kennedy no dia 22 de novembro de 1963. Este continua guardado num dos prédios do Arquivo Nacional, dentro de um cofre de temperatura controlada. Jamais teve as manchas removidas.

Por determinação da família, o tailleur que a viúva insistiu em manter no corpo durante o restante do fatídico dia – inclusive na caótica cerimônia de posse do vice-presidente Lyndon Johnson – só poderá ser aberto à exibição pública em 2063, decorridos cem anos do atentado que marcou a História do século 20.

Um livro dessa safra recente, JFK’s Last Hundred Days: The Transformation of a Man and his Presidency, de Thurston Clarke, tem algum mérito por elencar a frequência com que Kennedy aventava a possibilidade da própria morte.

“O que você acha da coincidência de nos últimos cem anos todo presidente dos Estados Unidos eleito em ano divisível por 20 ter morrido enquanto estava no poder?”, perguntou o ocupante da Casa Branca a um casal de amigos semanas antes de seguir para Dallas.

Ele fora eleito, justamente, num ano com essa característica (1960) e referia-se às mortes de Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley, Warren Harding e Franklin D. Roosevelt.

“Como você acha que Lyndon Johnson se sairia se me matassem?”, quis saber de outra amiga, participante de um passeio a bordo do iate presidencial Honey Fitz, também em 1963. Kennedy sempre dizia não ver perigo nas multidões, mas admitia ter medo de “algum sujeito instalado em algum telhado com um rifle nas mãos. Não há como evitar alguém ser assassinado”.

Cães farejadores

Clint Hill, imortalizado no atentado de Dallas como o agente que fez a dramática escalada pela traseira do Lincoln conversível ao ouvir o primeiro disparo, narrou seu horror ao ver a primeira-dama coberta de sangue e de miolos do marido procurando escapar do assento.

Com o carro já em alta velocidade, segurou-a pelo braço e empurrou-a de volta para dentro. Hoje, aos 81 anos, Hill continua inconformado com a impossibilidade de ter salvado um presidente e uma presidência no tempo de seis segundos entre o primeiro e o terceiro tiros.

Mas aqueles eram outros tempos e o Serviço Secreto lidava pela primeira vez com um estadista-celebridade, um ocupante da Casa Branca que gostava de circular por toda parte em carros abertos, com o torso e a cabeça expostos. Ninguém à época fazia qualquer varredura nos imóveis ao longo da rota presidencial.

Desde então tudo mudou, é claro. Se em Dallas havia 28 agentes acompanhando a viagem de Kennedy e o orçamento da agência era de US$ 5,5 milhões, em 2008, quando Barack Obama sequer ainda tinha sido eleito, 60 agentes já faziam a sua segurança como candidato. E o orçamento do Serviço Secreto ultrapassava US$ 1,6 bilhão.

Hoje a agência foi acrescida de unidades de contra-atiradores de elite e de equipes de assalto. E a limusine presidencial Cadillac One ganhou uma blindagem tão impenetrável que mais se assemelha a um tanque sobre rodas – é resistente a explosões e disparos de bazuca.

Graças ao trabalho do jornalista Marc Ambinder alguns detalhes operacionais se tornaram conhecidos recentemente. Ambinder é o único repórter até hoje que obteve autorização para acompanhar em tempo real uma megaoperação do Serviço Secreto: a proteção à centena de chefes de Estado desembarcados em Nova York para a Assembleia Geral da ONU de 2011. Seu relato consta do livro Inside the Government Secret Industry – Deep State, ainda sem edição no Brasil.

Apesar do seu gigantismo e complexidade, contudo, uma Assembleia Geral da ONU não consta da lista de eventos de dificuldade máxima (NSSE, da sigla em inglês) da agência. A cerimônia de posse de Obama e as convenções partidárias para a escolha dos presidenciáveis, sim.

Qualquer percurso de dez minutos a ser percorrido pela caravana presidencial, aliás, é precedido pela elaboração de um manual de instruções de 60 a 70 páginas sobre contingências, eventuais rotas alternativas, o que fazer em caso de ataque químico, entre outros.

Quando os deslocamentos são de porte o serviço pode dispor de 130 equipes de cães farejadores, e a primeira varredura dos futuros aposentos pode incluir a instalação de sensores químicos, biológicos ou radiológicos.

Bolha de segurança

Ninguém que porventura se encontrar na rota presidencial estará dispensado de participar.

Que o diga um cidadão carioca de fino trato que em junho passado estava aquietado no Adlon Kempinski de Berlim – um dos grandes hotéis de berço da Velha Europa. Inaugurado pelo Kaiser, frequentado pela realeza no início do século XX, festejado nos anos dourados e destruído em 1945, o cinco estrelas Adlon continua a abrigar freguesia seleta depois de reconstruído. A localização privilegiada, com uma das faces escancarada para o Portão de Brandenburgo, sempre foi um de seus atrativos.

“Prezados hóspedes”, começava o comunicado redigido em alemão e inglês que o brasileiro guardou como memento, “[…] solicitamos manter janelas e cortinas fechadas no dia 19 de junho entre 14h e 18h. Solicitamos evitar que olhem pela janela ou ali façam qualquer movimento. A polícia e o Serviço Secreto terão unidades de elite posicionadas nos telhados da área e estarão observando a fachada do hotel e as janelas. Se necessário, a polícia e a gerência precisarão ter acesso a quartos e suítes […]”.

Era Barack Obama, em sua primeira visita-relâmpago por Berlim como presidente dos Estados Unidos. A frase dita por JFK meio século atrás, porém, continua valendo: não há como evitar em 100% um assassinato. Mesmo deslocando o presidente dentro de uma bolha de segurança cada vez mais fechada.

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Dorrit Harazim é jornalista

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