Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Documentários marcam 50º aniversário da morte de Kennedy

Por Alessandra Stanley em 19/11/2013 na edição 773

A vida antecipou-se naquele dia 22 de novembro de 1963. E a televisão está decidida a captar esse momento de êxtase de forma ininterrupta e com uma atenção total sem precedentes.

O espetáculo em torno dos 50 anos do assassinato de Kennedy é uma última e comovedora comemoração do que se poderia vir a provar tão glorioso – e fútil – quanto um assalto da cavalaria na era dos ataques com drones. A televisão moderna nasceu no dia em que morreu John F. Kennedy.

A atual efusão de matérias especiais, documentários e dramas tanto comemora a televisão quanto o homem. Por conseguinte, a volta a 1963 vem provocando um jogo de poder das gerações: os mandarins da televisão agarram-se aos seus controles remotos para garantir, talvez pela última vez, a prerrogativa de um pico na audiência. Infelizmente, confiam no único recurso que não impressiona seus sucessores, que quase nem o percebem.

A geração X [termo normalmente usado para quem nasceu nas décadas de 60 e 70] e as que se seguiram, principalmente a que antecedeu a virada do milênio, conhecem Kennedy através dos filtros coloridos das aulas de história, da cultura pop e do gênero kitsch. (Muito do que sabem vem de referências ao chapéu de Jackie e citações no seriado The Simpsons.)

“Os Estados Unidos perderam a inocência”

Eles quase nem se lembram de como era ver televisão. Atualmente, nem precisam de seus televisores, assim como não precisam de fios terra. Baixam seletivamente o que querem da internet e podem facilmente – e mesmo sem pensar – transitar ziguezagueando entre aquilo que a CBS, a PBS ou a HBO tentam desesperadamente que vejam.

No entanto, a torrente da programação é inevitável – e não apenas porque a mística Camelot [associada à família Kennedy] permanece viva e vende capas de revistas e imagens de blusas de frio. Aqueles dias em que se assistiu ao desdobramento da tragédia em tempo real foram a experiência que unificou quem nasceu nas décadas de 60 e 70. Para muitos dos filhos do pós-guerra, nenhum acontecimento – a dureza da Depressão, os combates da II Guerra Mundial, o rock n’ roll, a guerra do Vietnã ou a revolução sexual – foi compartilhado de maneira tão unânime. Curiosamente, quem pertence a esse enorme e extremamente importante bando do século 20 não é definido pelo que fez, mas por onde estava no dia 22 de novembro.

Muitas dessas matérias especiais, e são dúzias, preocupam-se tanto com as imagens e a perda de filhos da geração X quanto com o presidente assassinado. “Não existem muitos, entre nós, que cobriram o assassinato de John F. Kennedy, mas somente aqueles, dentre nós, que estavam vivos desde antes daquele fim de semana terrível podem realmente avaliar como ele mudou os Estados Unidos”, foi como o âncora da CBS Bob Schieffer, que era repórter local em Dallas, em 1963, descreveu seus sentimentos no programa Face the Nation, em outubro. E acrescentou: “Foi o fim de semana em que os Estados Unidos perderam sua inocência.”

Um possível homem-bomba em 1960

Isso soa como um exemplo de solipsismo clássico de “minha geração”, a ilusão de que nenhum outro grupo passou por um golpe tão forte, mas é verdade que nenhum outro presidente antes de Kennedy teve uma conexão tão íntima e imediata com o público. Ele não foi o primeiro presidente a ir à televisão, mas foi o primeiro presidente televisivo. As pessoas não se limitavam a achar que conheciam pessoalmente Kennedy; achavam que ele também as conhecia. “O presidente me viu”, diz Linda Rodríguez, que tinha 13 anos e acenou à passagem da limusine presidencial em Dallas, no documentário JFK: The Final Hours, do canal National Geographic.

O ator Bill Paxton é o narrador, principalmente porque, nascido no Texas, ele estava na multidão que dava boas-vindas ao presidente naquela manhã. Nem Paxton nem outros espectadores pode explicar o que aconteceu; só conseguem descrever como ficaram abalados. Eles servem como suplentes dos milhões de outros norte-americanos – incluindo âncoras e executivos das redes de televisão – que também sentiram que compartilharam um breve e radiante momento com aquele presidente.

“Uma semana de reflexão” é como a ABC descreve sua vigília de sete dias dedicada ao aniversário do evento. A CBS e a NBC também têm uma cobertura exaustiva chegando, enquanto a rede pública PBS e redes a cabo voltadas para a história relembram passagens da tradição da família Kennedy. O canal Smithsonian traz um documentário totalmente dedicado a Richard Pavlick, um possível homem-bomba que teria tentado matar o presidente eleito em dezembro de 1960.

“Naquele dia, ele foi nosso papai”

Talvez a oferta mais curiosa seja JFK Assassination: The Definitive Guide, na sexta-feira (22/11) no History Channel. Não é um guia do que aconteceu; é uma pesquisa, sombriamente narrada, do que cinco mil norte-americanos pensam que realmente aconteceu (29% dos pesquisados acreditam que Lee Harvey Oswald agiu sozinho), incluindo minúcias (73% não sabiam que uma multiplicidade de testes havia provado que o rifle de Oswald poderia ter disparado os tiros). O guia parece menos uma aula cívica do que uma revista de hotel de anúncios de viagem.

Passados cinquenta anos, os norte-americanos continuam chocados com a maneira pela qual Kennedy foi morto, mas sobram poucas ilusões de como ele viveu. Killing Kennedy, no canal National Geographic, é um caso desses: um drama feito para a televisão sobre Kennedy e Oswald, baseado no livro de Bill O’Reilly e Martin Dugard e com o ator Rob Lowe como Kennedy. Esta interpretação também é bastante reveladora, embora menos por dor do que pela aceitação. É uma história sucinta, e até simpática, dos triunfos públicos e das transgressões privadas de Kennedy. A crise dos mísseis em Cuba está lá, assim como está Judith Exner [que reivindicava ter sido amante do presidente] e festas com pessoas nuas na piscina da Casa Branca. O History Channel também havia encomendado, e depois desistiu, uma minissérie também não enfeitada, The Kennedys, com Greg Kinnear no papel principal; acabou sendo passada no canal a cabo Reelz. No caso de Killing Kennedy, não houve controvérsias desse tipo.

Hoje em dia, a autoestima do jornalismo está quase tão baixa quanto a política, mas neste aniversário os repórteres que cobriram o assassinato são considerados heróis. JFK: One PM Central Standard Time, que passa na rede pública PBS, é um retrato carinhoso de Walter Cronkite, âncora da CBS, narrado pelo ator George Clooney, e inclui a dramática reconstrução do momento, com os repórteres às voltas com a matéria em primeira mão. Brian Williams, âncora da NBC que, à época, tinha quatro anos, solenemente diz de Cronkite: “Naquele dia, ele foi nosso papai.”

Momento único

O pavor de uma extinção iminente incentivou o pessoal da geração X a ocupar um lugar mais central na tragédia. Isso não era tão comum 25 anos atrás. A HBO está reprisando um documentário de 1988, JFK: In His Own Words, feito para o aniversário dos 25 anos. Assim como outros tributos dessa época, é notável como há pouco sobre outras pessoas sem ser Kennedy – nada de atores-narradores da atualidade, testemunhas, peritos em balística ou adeptos da teoria da conspiração: só a voz do presidente e as encantadoras imagens de Choate, Palm Beach, Hyannis e o Salão Oval. É comovedor, respeitoso e discreto de uma maneira que só um membro da família Kennedy poderia esperar.

Os tributos concluem que nunca mais haverá coisa que se pareça à presidência de Kennedy. E também estão obcecados com o fim da TV tal como era vista naquela época – e por tanto tempo depois. “Houve um momento único na história da nossa cultura”, diz, em The Assassination of President Kennedy, na CNN, Lawrence Wright, autor de The Looming Tower: Al Qaeda and the Road to 9/11. “De repente, nos demos conta de que o que tínhamos que fazer era ligar a televisão.”

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Alessandra Stanley é crítica de TV do New York Times

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