Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Greenwald e Keller erram ao falar sobre objetividade

Por John B. Judis em 19/11/2013 na edição 773

Um intenso debate vem sendo travado há 50 anos, ou mais, sobre se os jornalistas deveriam tentar ser “objetivos” ao relatarem eventos ou descreverem controvérsias. Ele se reacendeu recentemente numa troca de e-mails no New York Times entre o ex-editor-executivo Bill Keller e o super-jornalista Glenn Greenwald. E, embora estivesse a milhares de quilômetros de distância, não pude evitá-lo.

Numa conferência sobre mídia – patrocinada pelo Centro de Estudos da Universidade de Sydney – de que participava esta semana, perguntaram-me diversas vezes se eu achava que os jornalistas deveriam se esforçar para ser “objetivos”. Tenho uma resposta simples para essa pergunta: sim. E isso porque recuso as suposições que muitas pessoas fazem quando a perguntam.

Atualmente, a resposta da moda é de que não existe objetividade. Greenwald, por exemplo, escreve: “Os seres humanos não são máquinas dirigidas pela objetividade. Todos compreendemos e processamos o mundo, intrinsecamente, através de prismas subjetivos.” Keller também recusa a objetividade enquanto modelo. “Evito a palavra ‘objetivo’, que sugere um estado mítico da verdade”, escreve ele. Keller prefere a imparcialidade como modelo.

Pergunta metafísica e irrelevante

Existe uma velha falácia filosófica aqui que remete lá atrás, aos trabalhos do filósofo irlandês George Berkeley no século 18. Os participantes transportam termos que têm significados compreensíveis para um reino metafísico, onde não o têm. Se você diz que a objetividade não existe porque “processamos o mundo através de prismas subjetivos”, você só pode saber disto se pode comparar a realidade objetiva com aquilo que você apreende através de seu prisma subjetivo, mas não o pode saber porque, pela sua própria formulação, a realidade objetiva não é possível de ser conhecida. Isto não é apenas um quebra-cabeça ou um paradoxo, mas uma indicação de que a própria afirmativa não faz sentido algum.

Se você sai do reino da metafísica e usa o termo “objetivo” do jeito que, fora das salas de aula, é normalmente usado, então faz sentido absoluto falar de opiniões ou percepções, ou descrições, sendo mais ou menos objetivas do que outras. Isso indica, de saída, que “objetivo” significa alguma coisa. Uma opinião mais objetiva é aquela que é menos formada pelos preconceitos, esperanças, medos ou desejos de alguém, e vice-versa para aquela que é menos objetiva. Todo jornalista tem exemplos a seu alcance. São especialmente mais fáceis para quem cobre política.

Quando eu fazia entrevistas de rua para avaliar quem estaria liderando uma disputa, muitas vezes tinha que admitir posteriormente que tinha feito as perguntas e escolhido pessoas para entrevistar que iriam confirmar minhas esperanças de que o Partido Democrata iria ganhar. Acontece a toda hora, mas também não é inevitável. Você aprende a questionar suas suposições; escreve dois ou três rascunhos; escuta a entrevista no gravador de novo; os editores fazem perguntas, assim como o pessoal que checa os dados. E às vezes, em consequência disso, você consegue escrever coisas que são exatas – e, nesse sentido, objetivas –, mesmo se não estão de acordo com suas esperanças e desejos. Serão “perfeitamente objetivas”? Essa é uma pergunta metafísica que deixou de ser relevante. É comparável a perguntar a alguém se um círculo desenhado num papel para resolver um problema de geometria é “perfeitamente redondo”.

O jornalismo envolve opiniões analíticas

E a insistência de Keller de que a imparcialidade é um padrão melhor do que a objetividade? Tal como sugere Greenwald, esse tipo de padrão pode levar a um jornalismo enganoso. Ser imparcial quase sempre significa não assumir posições numa discussão entre opiniões opostas. Isso é ótimo quando há provas sólidas de ambos os lados, ou quando o leitor não está muito interessado no que pensa o repórter ou o pesquisador. Mas existem casos nos quais a aceitação de descobertas científicas está em jogo, ou os repórteres, ou pesquisadores, estão numa posição que lhes permite saber que um dos lados da discussão é falso. Nesse caso, um repórter pode prestar um desserviço ao sugerir que os argumentos contra e a favor da influência humana nas mudanças climáticas ou de Barack Obama ter nascido nos Estados Unidos têm o mesmo peso. Em outras palavras, há uma diferença entre ser objetivo e ser imparcial.

E a defesa que Greenwald faz do jornalismo “ativista”? Ele escreve: “Todo jornalismo é uma forma de ativismo. Qualquer opção jornalística necessariamente adota suposições altamente subjetivas – culturais, políticas ou nacionalistas – e serve aos interesses de uma facção ou de outra.” Greenwald quer que os jornalistas divulguem suas “suposições subjetivas e valores políticos” ao relatar as notícias – sendo a suposição aquilo que o leitor irá ter condições de opinar melhor sobre a exatidão da matérias.

Para avaliar a posição de Greenwald, você tem que fazer a distinção entre opiniões normativas sobre o que deveria ser feito e opiniões analíticas sobre o que provavelmente irá acontecer ou ainda o que, considerando finalidades aceitas, seria uma maneira viável de consegui-las. Quase todo jornalismo – a menos que consista em publicar transcrições ou citar valores do mercado de capitais – envolve opiniões analíticas. A questão, no entanto, é se todo jornalismo, implícita ou explicitamente, envolve defender uma posição, e, quando o faz, se as posições do autor deveriam ser divulgadas.

Às vezes é supérfluo divulgar a causa que se defende

Eu diria aqui algo diferente de Greenwald. Sim, os jornalistas (ou especialistas em política) normalmente têm um interesse arraigado por aquilo sobre o que escrevem, mas não é preciso dar forma ao que escrevem. Essa é a grande questão sobre objetividade – e o papel dos editores e copidesques. Também num plano psicológico um jornalista poderia querer ver Al Gore vencer a eleição, mas ele ou ela também poderia querer manter a reputação enquanto jornalista cujo trabalho pode ser confiado por republicanos e democratas. Uma esperança pode anular a outra. É disso que trata o profissionalismo.

No que se refere a redatores ou repórteres de televisão revelarem seus valores políticos, acho que isso depende se falamos de um repórter trabalhando para um grande jornal ou rede jornalística ou de um jornalista quase-independente, como eu ou Greenwald. Num jornal como o New York Times, a credibilidade de sua cobertura repousa, em última instância, na reputação da publicação pela objetividade, e não na reputação de autores individuais. Seria maçante e enganoso, por exemplo, se os repórteres políticos começassem cada matéria sobre uma eleição dizendo em quem iriam votar.

Jornalistas políticos que são mais conhecidos por seu nome do que pela publicação em que trabalham têm que construir a confiança, em grande parte, por esforço próprio. Nesses casos, às vezes é supérfluo divulgar a causa que defendem, pois suas opiniões políticas geralmente são conhecidas. A maioria das pessoas que me leem sabe que eu ficaria feliz se um terço, ou mais, dos trabalhadores norte-americanos fosse filiado a sindicatos, mas se pensa que tudo o que escrevo sobre sindicatos terá como objetivo reforçar essa convicção, terei falhado como jornalista e serei visto simplesmente como um “ativista” ou “lobista” de uma causa. Portanto, terei que estar disposto a escrever que o movimento sindical está em apuros. Eu até assumo, vez por outra, e digo num artigo “Gostaria de ver X acontecer, mas é mais provável que aconteça Y.” Isso, supostamente, demonstra a minha objetividade.

Busca por objetividade deve ser preservada

Caso não seja óbvio, o que defendo aqui – com reservas sobre o uso da palavra “imparcialidade” por Bill Keller – é o tipo de jornalismo que é praticado pelo New York Times e pela Rádio Pública Nacional. Não é uma defesa da Fox News, que poluiu as águas do jornalismo americano ao evitar a objetividade. Os padrões de objetividade tornaram-se comuns, escreveu o historiador Michael Schudson em resposta à ascensão das relações públicas na década de 1920 e ao desenvolvimento do jornalismo como profissão. Ao impor este padrão, os jornalistas tentavam fazer uma distinção entre o seu trabalho e o dos lobistas e do pessoal de relações públicas.

Boa parte desses mesmos padrões também se refere a organizações de elaboração de políticas – agora, muitas vezes chamadas de fábricas de pensamento [think tanks] – e ao trabalho de comissões do executivo ou do Congresso, assim como agências independentes. Seu trabalho supostamente seria objetivo – ou seja, não determinado por uma facção, um partido ou um interesse. O trabalho da instituição Brookings é supostamente diferente daquele de grupos como o Centro para o Progresso Americano ou a Fundação Heritage, que são vinculados a causas políticas ou partidos, ou ainda o Instituto de Empreendimento Americano, que é dirigido por seus financiadores empresariais.

A busca por objetividade era uma tentativa de forjar uma área de informação pública e opinião na qual o público (que pode não ter intimidade com ruas egípcias ou os detalhes de um acordo comercial) pudesse confiar. E vale muito a pena preservá-la, num momento em que é bombardeada pela esquerda e pela direita.

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John B. Judis é editor sênior da revista The New Republic

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