Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Os riscos corridos pelos freelancers em zonas de conflito

26/11/2013 na edição 774

Uma reunião de pauta do programaThe World at One, da Radio 4, da BBC, em agosto de 1995, ficou marcada para sempre na memória do jornalista Sian Williams. Enquanto discutiam que notícias iriam ao ar, chegou a informação de que soldados croatas haviam matado John Shofield, repórter do programa The World Tonight – amigo e colega de trabalho de Williams.

Shofield tinha 29 anos e sua morte impactou a indústria midiática, fazendo com que organizações como a BBC focassem na proteção dos profissionais enviados a zonas de guerra. Foram criados programas de treinamento e profissionais passaram a ser orientados sobre como agir quando atacados ou sequestrados.

Quase duas décadas depois, ainda há riscos significativos. Alguns profissionais de mídia alegam que, na realidade, eles são ainda maiores, devido ao crescimento na demanda dos veículos e ao aumento no número de freelancers. Um workshop sobre como trabalhar em ambientes hostis, realizado pela Academia de Jornalismo da BBC, apresentou a freelancers informações sobre como se preparar para uma pauta, noções de primeiros socorros em um campo de guerra e como lidar com trauma.

Jeremy Bowen, correspondente da BBC que cobre zonas de conflito há 25 anos e que foi um dos palestrantes do workshop, alega que a situação atual é mais perigosa do que antes. “Em 1989, estive nas intensas lutas em El Salvador, balançando uma bandeira branca, desprotegido por coletes ou equipes de segurança, que fazem parte da cobertura de guerra de hoje. Mas agora, somos os alvos. Em alguns países, a mídia ocidental é vista como inimiga, é atacada ou levada como refém. A guerra é sempre perigosa e imprevisível, mas os riscos para os que cobrem intensificaram-se”, opinou.

Riscos físicos e psicológicos

O cenário não é restrito às áreas de conflito, mas também aos lugares afetados por desastres naturais. Jornalistas enviados para as Filipinas não apenas testemunharam o sofrimento das vítimas do tufão que atingiu o país em novembro deste ano, como também correm riscos – físicos, de contrair doenças, e psicológicos. Williams cobriu o tsunami na Ásia e o terremoto no Paquistão e até hoje, anos depois, lhe vêm à mente imagens de corpos e trechos de depoimentos. “Como observadores do estresse de outros, geralmente achamos que não temos o direito de sermos emocionalmente afetados, mas há pouca dúvida de que medo, culpa e exposição aos horrores mais viscerais nos impactam”, disse.

Muitas organizações oferecem apoio psicológico. Williams é treinado em assessoria de traumas em um sistema conhecido como TriM (Gestão de Risco de Trauma), que também é usado no exército e em serviços de emergência. Uma equipe conversa com colegas de trabalho que retornam de pautas difíceis para ver se eles estão sofrendo com flashbacks, insônia, abuso de álcool – reações que são normais no início, mas que se não forem cuidadas podem se transformar em estresse pós-traumático.

Há uma preocupação, no entanto, de que o número cada vez maior de freelancers trabalhando em ambientes hostis impossibilite o mesmo nível de proteção que têm profissionais contratados. O produtor da BBC Stuart Hughes sofreu uma explosão em uma mina no Curdistão iraquianano e perdeu o pé. Mesmo com treinamento, ele sabe que há riscos que não são controláveis em uma guerra e acredita que com freelancers sem treinamento os riscos são ainda maiores. “Eles têm muito menos experiência e nem sequer sabemos seus nomes. São os anônimos que abastecem um canal no YouTube ou uma página no Facebook”, disse.

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