Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Susana Singer

10/01/2012 na edição 676

No impreciso e subjetivo mundo em que se move o jornalismo, números são tentadores. Eles conferem uma aura de cientificidade, passam a impressão de que aquela reportagem diz a verdade, que não se baseia em declarações ou opiniões.

As cifras se espalham pela Folha, muitas vezes, maltratadas. Na segunda-feira passada, a manchete dizia: ‘PF apurou desvios de R$ 3,2 bilhões em 2011’. O título interno informava que era um recorde.

O leitor entendeu que o ano passado foi marcado pela corrupção, mas não era isso. O montante inclui somas descobertas em investigações anteriores, isto é, a malversação pode ter acontecido em 2010, 2009… Esse detalhe está perdido no texto, sem destaque.

No dia seguinte ao Natal, outra manchete brandia um número cheio de zeros: ‘País perde R$ 15 bi com acidentes em estradas neste ano’. A reportagem principal, de apenas 14 parágrafos, tinha 15 dados.

A explicação sobre como os especialistas calculam o prejuízo com as vítimas do trânsito (os gastos no atendimento e quanto a pessoa deixa de produzir) ficou socada em poucas linhas, incompreensível.

Para evitar ‘pecados matemáticos’, a Folha poderia adotar alguns mandamentos:

1. Não divulgarás números sem contextualizá-los

É impossível saber se ‘os 308 consultórios de rua para tratar dependentes de crack no Brasil’, a serem criados pelo governo federal, são suficientes se o jornal não informa quantos são os viciados e quantos postos desse tipo o país tem (8/12).

Da mesma forma, não faz sentido relatar que, com a crise na Europa, ‘saíram 76,4 mil pessoas’ da Irlanda, sem citar a população total do país (26/11).

2. Não repetirás números sem questioná-los

Alguns dados, de tão repisados, ganham ares de verdade. Em maio, o Twitter anunciou ter chegado aos 139 milhões de usuários e virou praxe falar dos ‘mais de 100 milhões de tuiteiros no mundo’.

No último dia 10, uma coluna da ‘Ilustrada’ citava artigo da ‘New York’ que lançava dúvidas sobre esse dado. Descontadas as contas inativas e duplicadas, seriam 50 milhões em todo o planeta.

Não adiantou. Cinco dias depois, a Folha voltava aos ‘100 milhões’ de usuários do Twitter.

3. Duvidarás das fontes

É um erro engolir estatísticas sem olhar onde elas nasceram. No último dia 14, uma reportagem sobre investimentos de sites de empregos informava que quase um terço dos internautas no Brasil acessam páginas de recrutamento. Quem calculou isso? Uma consultoria. Com que metodologia e a pedido de quem? Não sabemos.

4. Não te precipitarás

Bastou uma segunda-feira de audiência menor para que a seção ‘Outro Canal’ concluísse que a apresentadora Patrícia Poeta fez mal ao ‘Jornal Nacional’. A coluna do último dia 14 começava perguntando ao leitor se ‘já bateu saudade de Fátima Bernardes’ e contava que o telejornal tinha registrado sua pior segunda-feira no ano.

Para constatar uma tendência, é preciso esperar, não adianta sacar uma conclusão com base no número mais recente.

5. Serás comedido

Por incompreensão ou falta de cuidado, recheia-se o noticiário com tanto número que ele se torna indigesto. Talvez o mandamento mais importante seja resistir à tentação e fazer uma dieta de números. Início de ano novo é um bom momento para isso.

***

Ainda o caso dos juízes

No domingo passado, em um artigo de réplica, a colunista Mônica Bergamo me acusou de usar dados incompletos na crítica que fiz à manchete ‘Ministro do STF deu liminar que o beneficia’.

A colunista argumenta que as inspeções feitas pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) podem ‘esbarrar’ em pagamentos para ministros do STF. E daí?

Para fazer a acusação -grave- de que a liminar dada por Ricardo Lewandowski o beneficia, a Folha precisa ter provas de que ele recebeu pagamentos de forma indevida. Se a reportagem tem isso, que se publique logo.”

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