Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A Globo como colonizadora da ordem de batalha

Por Luís Eustáquio Soares em 13/03/2012 na edição 685

De Em defesa da sociedade (1997), livro que apresenta cursos ministrados pelo filósofo francês Michel Foucault no Collège de France, de 1975 a 1976, destaco, para os fins deste artigo, o seguinte trecho: “Desde quando, como e por que se imaginou que uma espécie de combate ininterrupto perturba a paz e que, finalmente, a ordem civil – em seu fundo – em sua essência, em seus mecanismos essenciais – é uma ordem de batalha?” (FOUCAULT, 2005, p.54).

Em diálogo com o trecho acima, pergunto: “O futebol – mas não apenas – não se constituirá como uma civil ordem de batalha? Não será, em essência, a lama da guerra que agita no suor das paixões corporais dos jogadores? E agita não como representação ou teatro de guerra, mas como um momento esportivo da guerra permanente, inscrita e cravada no coração do cotidiano, em todas as relações humanas, neste sistema, o capitalista, ele mesmo a guerra-mor, total, cujo objetivo não apenas é a rendição dos povos, mas principalmente o roubo belicamente orquestrado da produção coletiva e planetária da riqueza comum?

Se assim for, guerra total, a paz não será simplesmente uma estratégica guerra administrada pelo Estado, pelos meios de comunicação de massa, pelas multinacionais, pelas classes dominantes, enfim, que tomaram belicamente para si as armas de guerra que são as instituições, tanto mais eficientes quanto mais se apresentam como sérias, louváveis e desejáveis?

O saber, nesse sentido, é uma ordem de batalha? A família também, assim como a jurisprudência e igualmente os meios de comunicação de massa?

O sutil dispositivo do Esporte Espetacular

Tudo, no fundo e no raso, não passará, tendo em vista o nosso opressivo modelo de sociedade, de uma ordem de batalha – e vale o paradoxo – abertamente camuflada? O amor ou isso que chamamos de amor é também uma ordem de batalha?

Mudando um pouco o foco ou mais precisamente escolhendo como foco uma ordem de batalha específica, o “divertido” e despojado Esporte Espetacular, programa dominical da TV Globo, não seria ou será ou é uma sutil e às vezes evidente ordem de batalha a serviço do imperialismo americano – antes de tudo?

Minha resposta a essa última pergunta é um flamante – para ficar no mesmo campo semântico – sim: o Esporte Espetacular da TV Globo é uma ordem de batalha produzida para, muito especialmente, envolver e implicar, na imperialista guerra do capital, os cidadãos comuns, os quais, doravante, e mesmo antes e durante, devem se alistar, como inscientes soldados sem fardas, para a guerra de espectro total da oligarquia planetária contra os pobres do mundo, a partir da regência do imperialismo americano.

Tal ordem de batalha, antes que pensem que sou um louco varrido, fica patente se considerarmos, por exemplo, o sutil dispositivo ao mesmo tempo tático e estratégico que o Esporte Espetacular utiliza para envolver-nos na guerra imperialista que varre, consome, massacra, submete e mata a vida na Terra, qual seja: a inserção, como quem não quer nada, no interior de sua programação, de reportagens produzidas belicosamente com o objetivo de impor-nos, ainda que esportivamente, a versão – na verdade uma aversão – da guerra do imperialismo americano contra o mundo.

O “heroico” soldado Tillman

A título de exemplo, consideremos a reportagem apresentada, como disfarçada ordem de batalha, no dia 04 deste mês, pelo Esporte Espetacular (cf. http://globoesporte.globo.com/esporte-espetacular/videos/t/edicoes/v/jogador-de-futebol-americano-recusa-milhoes-para-se-alistar-no-exercito/1841076/). Seu tema foi o suposto heroísmo de um jogador de futebol americano, Pat Tillman, que teria abandonado fama e dinheiro, para ser um “humilde” soldado da invasiva e terrorista guerra americana contra a soberania do povo de Afeganistão.

Seja pelo tom de reverência na voz do repórter César Augusto, que apresentou tal reportagem de patriótica ordem de batalha, seja pela evidente e não menos ordem de batalha publicitária do e para o exército dos Estados Unidos, visível e audível na reportagem em questão, o belicoso objetivo de sua transmissão no interior do Esporte Espetacular foi o de interpelar os brasileiros, conclamando-os a se filiarem à guerra total do imperialismo americano, simplesmente através do seguinte comando esportivo e espetacular: “Cidadãos brasileiros, filiem-se no exército americano!”

No domingo seguinte (10/03), por sua vez, a imperialista reportagem do Esporte Espetacular, como ordem de batalha a serviço do imperialismo americano, será (e será porque escrevo este artigo antes) sobre um grupo de brasileiros que realiza uma “missão de paz” em Moçambique usando, para tal, o esporte como, a um tempo, texto, pretexto e contexto da guerra que os Estados Unidos travam, sem cessar, contra os povos do mundo e muito especialmente contra os africanos, evidenciando, assim, uma verdadeira guerra de eliminação racista destes últimos, sob o comando – pasmem! – de um presidente negro, Barack Obama.

Se, por sua vez, juntarmos, como um quebra-cabeça, a reportagem sobre o “heroico” soldado Tillman, com a dos brasileiros em “missão de paz em Moçambique, veremos com clareza que as peças se encaixam perfeitamente – ou belicosamente –, dentro do campo de batalha a que podemos chamar de Esporte Espetacular, como civil e servil soldado da espetacular e real guerra que os Estados Unidos realizam, repito, contra tudo que respira, sente, ama ou simplesmente tenta viver.

O pacto com o imperialismo

Olhando, pois, em conjunto, as duas reportagens, tudo funciona como se a segunda fosse uma exemplar e imediata resposta às demandas e palavras de ordem da primeira – filiem-se ao exército americano! – pois, por mais magnânimos que sejam, os brasileiros da segunda reportagem se transformaram (mesmo que desconheçam) em verdadeiros soldados da guerra de espectro total do imperialismo americano contra o mundo, pois é evidente que a “missão de paz” em Moçambique, para continuar dialogando com Foucault, é, na verdade, uma missão, sem aspas, de guerra.

E assim o é, uma missão de guerra, porque seu objetivo não se inscreve no horizonte da paz liberadora, que é a que libera o povo da opressão, do desalento, da fome, da humilhação, razão pela qual se constitui como uma missão de e para a paz dos cemitérios, pois serve a um único objetivo, como ordem de batalha: contribuir para fazer com que o povo de Moçambique continue ignorando que os verdadeiros responsáveis pela tragédia que os massacra não são internos, ou, dizendo de outro modo, são sim, mas apenas na medida em que o inferno que se abate sobre o cotidiano deles está relacionado com o pacto que a oligarquia local, que os submete, realizou e realiza com o imperialismo americano-europeu-sionista, sempre à cata belicosa e parasita da riqueza alheia.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal do Espírito Santo]

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