Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Elena Kagan e os limites da cobertura

Por Leticia Nunes (edição), com Larriza Thurler em 18/05/2010 na edição 590

A nova indicação do presidente Barack Obama à Suprema Corte dos EUA criou excitação entre políticos e jornalistas. A procuradora-geral Elena Kagan nunca foi juíza e seu nome é pouco conhecido no país. Sabe-se que foi reitora da Escola de Direito da Universidade Harvard, formou-se em História em Princeton, Filosofia em Oxford e Direito em Harvard. Na década de 1990, lecionou Direito na Universidade de Chicago e atuou na Casa Branca no governo de Bill Clinton. Além disso é judia e nasceu em Nova York. Já está bom de informação? Aparentemente, não. A sexualidade de Elena também está em questão.

Amigos já foram a público dizer que Elena não é gay. O jornalista Howard Kurtz, em sua coluna sobre mídia no Washington Post [13/5/10], aponta para um debate mais amplo: ele questiona, simplesmente, qual a relevância de dúvidas deste tipo. De um lado, há quem defenda que pessoas que ocupam cargos públicos devem servir sem ter suas vidas privadas levadas para debaixo dos holofotes. ‘Resumindo, quem liga para quem dorme com quem?’, diz Kurtz, ressaltando que esta regra de privacidade vale desde que não se trate de um candidato dormindo com um assessor ou um congressista com um lobista.

Mas sempre há um outro lado. Do outro lado, há quem argumente que, em tempos de notícias 24 horas, pessoas públicas não podem se dar ao luxo de manter parte de suas vidas completamente fora do radar. Além disso, a preocupação com a vida privada é facilmente aplicada no caso de uma pessoa indicada a um cargo vitalício, como é o de juiz da Suprema Corte – que, muitas vezes, terá que decidir questões com base sem suas experiências pessoais.

Fora do debate

Em uma Suprema Corte que, por quase dois séculos, foi formada por homens brancos, hoje são debatidas questões como a necessidade de mais mulheres, ou membros de minorias, ou de outras religiões. Neste sentido, por que a homossexualidade seria a única diversidade que ficaria fora dos limites do debate?

Kurtz acredita que as pessoas não devem ser ‘tiradas do armário’, por assim dizer, sem seu consentimento. Basicamente, deveria partir delas a decisão de expor ou não sua orientação sexual. Ele diz, entretanto, que o debate está ficando cada vez mais incômodo, e cita o caso de uma reportagem no site da CBS News que divulgou que um blogueiro havia afirmado – erroneamente – que Elena era abertamente gay. A Casa Branca, em vez de aproveitar o episódio para ressaltar a irrelevância da questão, acabou dando mais corda ao afirmar – não oficialmente – que a indicada de Obama não é homossexual.

Estereótipo

O site Politico entrevistou amigos de Elena, que garantiram que ela não é gay. ‘Eu sei que ela é hetero’, afirmou a colega de quarto da procuradora durante a faculdade de Direito. ‘Ela saía com homens e nós conversávamos sobre homens – quem era bonito na nossa classe, com quem queríamos sair, este tipo de coisa’.

O tema tomou conta da blogosfera política americana, e atingiu o ponto máximo de nonsense quando o jornal New York Post criticou uma foto de Elena publicada pelo Wall Street Journal. Na imagem, ela aparece jogando softball, o que, para críticos, foi uma mensagem clara de que o Journal estaria chamando a procuradora de gay. ‘A decisão do Wall Street Journal de estampar uma foto de primeira página da indicada à Suprema Corte Elena Kagan jogando softball acendeu uma discussão nacional sobre por que as pessoas acham que mulheres que praticam o jogo são lésbicas’, escreveu o Post. De fato, membros de grupos em defesa dos direitos dos homossexuais interpretaram desta forma a fotografia. O Journal classificou a acusação de ‘ridícula’, e jogadores de softball criaram páginas no Facebook para deixar claro que nem todos são gays.

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